Hino

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Para quem gosta de futebol, o esporte não contradiz as manifestações que se espalharam pelo Brasil

 A complexidade dos acontecimentos brasileiros nos ultimíssimos tempos inclui a inédita e desconcertante simultaneidade de protestos de massa em série com um torneio mundial de futebol realizado no Brasil. Para quem considera o futebol ele mesmo um atraso de vida, uma alienação a ser erradicada, uma aberração inseparável das aberrações da CBF e da Fifa, a complexidade fica simples: trata-se de identificar a seleção brasileira com aquilo tudo contra o que se protesta, e torcer por manifestações versus jogo. Para quem tem paixão pelo futebol, como eu, possivelmente você, mais a torcida do Flamengo e a de todos os times, o jogo é uma manifestação e uma afirmação da vida que não se opõe — necessariamente — à manifestação política. Ou muito ao contrário, quando se pensa que ele se tornou inseparável dos destinos do país que reinventou o futebol.

O fato é que o Brasil de antes dessa Copa das Confederações é um, e depois dela é outro. Os dois campos, o do jogo e o das ruas, estão ligados de maneira difícil de definir, pode-se dizer enigmática. De alguma maneira se contrapõem e se realimentam. Eu achava deprimente que as estruturas de poder que cercam, administram e se aproveitam do futebol, articuladas com todas aquelas outras estruturas políticas das quais são uma extensão, passassem pelas Copas sem um questionamento contundente. E também achava deprimente que o futebol brasileiro tivesse regredido, em campo, à condição de fantasma de si mesmo.

Nunca embarquei na ideia de que a seleção brasileira de 1970 representava em campo o regime militar. Este buscou, sim, extrair daquela campanha e daquela vitória o seu máximo proveito propagandístico. Mas o que estava em campo, nitidamente, era uma criação única do povo brasileiro, que Pasolini, antifascista até o âmago, saudou como um gol do futebol de poesia contra a lógica econômica que se apossava do mundo. Por isso era difícil torcer contra, mesmo para quem estava cheio de razões políticas para fazê-lo: as razões lúdicas também eram políticas, num plano não verbal e não consciente. Já na Copa de 1974, na qual o Brasil teve uma presença futebolisticamente inexpressiva, deparando-se, em entressafra, com a revolução do carrossel holandês, vejo, sim, em campo, a presença de uma mentalidade tecnocrática e autoritária ligada à ditadura.

O futebol mundial recente passou por transformações para as quais a seleção brasileira estava longe de apresentar uma resposta. Fui completamente cético quanto à possibilidade de que Luiz Felipe Scolari fosse capaz de promovê-la. Mas o que vi em campo nesses dias frenéticos, inquietantes e empolgantes, do país, foi uma equipe capaz de unir algo da marcação italiana com a volúpia contra-atacante do futebol alemão recente, com a própria troca de passes espanhola e com algo que, renascido das cinzas, é o timbre inventivo, surpreendente e inconfundível do futebol brasileiro. Sempre achei que não se avançará para lugar nenhum pretendendo jogar fora a conquista simbólica dessa linguagem que diz tanta coisa sem palavras. Tomar para si o entusiasmo criativo do futebol como expressão do entusiasmo criativo e do apetite de viver, sem se deixar cegar por isso frente às questões urgentes postas pela realidade social e política é, afinal de contas, a melhor prefiguração de um encaminhamento desejável para as coisas.

Por isso mesmo é que o momento atual acena para uma possibilidade inédita na ultrapassagem da eterna ambivalência brasileira entre a luta e a festa, a panaceia e o remédio amargo, num campo em que a negatividade e a positividade não se anulem. Como índice disso, em meio à grave crise política da representatividade, é de se pensar na inesperada e intrigante representatividade que ganhou o hino nacional em todas as frentes, dos estádios aos lances agudos dos protestos.

Não estou falando de conquistas, num campo ou no outro, mas de virtualidades e atitudes, de prefigurações e desejos. Sei bem que o salto futebolístico dado em campo pela seleção brasileira nessa Copa das Confederações não está consolidado, que se deu numa situação muito específica, mas ele é o anúncio de uma possibilidade, o desenho de uma efetiva entrada cheia de personalidade no estado da arte do futebol contemporâneo. Assim também as manifestações vêm sendo a contundente expressão do desejo de uma transformação do país, de contornos e destinos indefinidos, mas de força inequívoca.

Os relatos de como a repressão policial tem sua parte considerável na indução premeditada da violência, comentados por Caetano Veloso no domingo passado — relatos que eu também ouvi — , apontam para a parte mais perversa e potencialmente sombria do processo. Que precisa sair à luz.

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