Hipodemocracia

NO NOVO JORNAL

Não sei se foi o fastio da Ditadura, felizmente morta e quase sepultada; não sei se foi a raposice de Tancredo, articulando contra as Diretas, para ganhar nas Indiretas; não sei se foi Sarney, de mentiras e congelamentos, com fiscais trouxas; não sei se foi Collor, o sucessor farsante de Jânio. Discípulo que virou mestre.

Não sei a causa das causas. Só sei que não foi essa a Democracia dos sonhos de estudante, que despossuía estômago e intestino, inúteis ante a bóia escassa da Casa do Estudante. O alimento era a luta. Hoje estufo a pança!

Não sei se foi o partido nascido de São Bernardo, com as manifestações na Praça Craveiro Lopes, Bela Vista de Sampa, dando notícias à Capital de que algo de novo nascera naqueles tempos.

Não sei se foi esse partido, indo pelas mãos do seu criador à casa de Maluf, cuspir na esperança do limpo e declarar o que não aceitávamos saber; que são todos iguais. Ou melhor, que somos todos iguais.

Todos nós, sem exceção, temos culpa no cartório da História. Tá todo mundo falando em ficha limpa para candidatos. Tudo papo furado. As fichas são as mesmas, o teatro também. Ninguém fala em ficha limpa do eleitor, o mais sujo de todos. Avaliador de todos os eleitos. Patrono da hipocrisia. Se o eleitor fosse limpo o que dele saísse limpo seria.

Cloaca produz fedor, jasmim exala perfume. São limpas todas as fichas dos julgadores do fichário?

Agora, a hipoética (de ética escassa e não poética) democrática das eleições. A legislação punitiva de abusos é uma baita mentira. Os conchavos são os mesmos e o custo econômico não difere nada dos tempos de Theodorico Bezerra, que certa vez respondeu à indagação de quanto gastaria numa campanha. “Gasto o limite do meu crédito”. O que mudou? Theodorico era sincero.

Aqui em Martins a campanha tá pegando fogo. Eu tô só de longe. Voto como sempre votei, contra a dominação quase centenária de um mesmo grupo herdeiro de Jocelyn Villar; que depois dele, nunca edificou sequer uma latada para armar uma rede. Culpa de quem? Do eleitor. O grupo referido tá no seu papel, de dominar e usufruir. A Serra e a Cidade que se danem.

Gente adoravelmente ruim. Enquanto o sertão fica cor de chumbo, de seca e fome pros animais, as bibocas da região fervilham de bandeiras coloridas, mostrando em pesquisas visuais quem vai vencer. Quem vai perder todo mundo sabe; o estúpido e venal eleitor.

Esperar mudança, nessa farra de hipocrisia, é a mesma sina de Beckett esperando Godot. Ou o otimismo remunerado. Ou quem se fantasia de nuvem para interromper o sol.

Quando morre alguém, os que vão chegando ao velório perguntam baixinho: “Era bicudo ou cururu”? Apelidos de cada lado do embate. Dependendo da resposta, o lacrimejante vai chorar ou comemorar no boteco mais próximo. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 9 de setembro de 2012 17:31

    François, falou e disse!

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