História de Gilberto Gil é contada com parcialidade e sem polêmica

Por Luiz Fernando Vianna
ESPECIAL PARA A FOLHA

Há uma qualidade e, pelo menos, um problema em a autoria de “Gilberto Bem Perto” ser creditada a Regina Zappa e também a Gil.

A qualidade está na sinceridade: é explicitamente uma biografia autorizada. O problema mais claro é a estranheza de um livro coassinado por Gil ser narrado na terceira pessoa. Sendo Zappa uma jornalista experiente, seria mais elegante que só ela assinasse, transmitindo imagem de independência.

A dependência de Gil se revela de duas formas. A primeira é compreensível em projetos do tipo: o eixo da narrativa são as falas dele, frutos de várias entrevistas.

A segunda inquieta por despertar insatisfação sobre algumas escolhas. Foram decididas ao acaso ou porque era um livro encomendado?

É o caso do capítulo “No Ministério da Cultura”, sobre os anos (2003-2008) em que Gil ocupou a pasta. Lista-se muito do que ele fez. Mas não se fala na polêmica da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, proposta que teve de arquivar após críticas.

Também se toca superficialmente no tema dos direitos autorais, cuja flexibilização Gil defende. E, ao se falar de renúncia fiscal, não se escreve que ele não avançou na reforma da Lei Rouanet.

A opção por dedicar oito páginas do livro à relação do cantor com Flora, sua atual mulher, além de empresária, é outra escolha discutível.

Outras omissões soam casuais: por que não falar do suicídio do parceiro Torquato Neto, tema em que Gil já tocou em entrevistas e que teve peso na sua vida? Por que não dizer que foi apaixonado por Elis, o que influenciou sua participação na passeata contra a guitarra elétrica?

Feitas as ressalvas, é preciso afirmar que o livro tem o esmero comum aos textos de Zappa e sintetiza uma trajetória ampla e movimentada (e em curso) como a de Gil.

A biografia se inicia na sertaneja Ituaçu, onde ele, nascido em Salvador, passou seus primeiros nove anos num ambiente de classe média, em família de pai médico –mas de bisavô escravo.

Estudando em Salvador, se deu conta do preconceito de que poderia ser alvo, ao ouvir de um professor: “Cala a boca, seu negro boçal!”.

A ofensa foi exceção, não regra, mas o racismo é tema frequente de sua obra musical e sua ação política.

É curioso ler que o exímio violonista só empunhou o instrumento aos 17 anos, após ouvir João Gilberto cantando “Chega de Saudade”. Antes, só tocara acordeom.

Tamanha musicalidade foi decisiva para que ele interrompesse o percurso para se tornar executivo da Gessy

Lever, administrador de empresas formado que era, e abraçasse a carreira artística.

Essa decisão, tomada em 1965, já foi influenciada por Caetano Veloso, a quem ele conhecera três anos antes. “Caetano é o irmão que não tive. A vida me deu ele de presente. Se não fosse por ele, eu provavelmente não teria tido as responsabilidades que tive em relação à música”, disse ele a Zappa.

Há outros momentos especiais do livro, como a história por trás de “Aquele Abraço”, que Gil vê como uma música de Quarta-Feira de Cinzas e cuja interpretação por parte das pessoas, à época, de que era uma canção feliz em plena ditadura militar o fez, do exílio em Londres, escrever uma raivosa carta recusando o prêmio Golfinho de Ouro.

Ou a história por trás de “Palco”, que compôs como despedida da carreira, mas que acabou sendo um estímulo para reengrenar a vida.

Os quatro casamentos, os oito filhos, tudo está detalhado em “Gilberto Bem Perto”, que atrai também pelo número de fotos, mas aí há um outro problema: a edição aleatória delas, sem vinculação aos capítulos próximos.

 

LUIZ FERNANDO VIANNA é jornalista e coordenador de internet do Instituto Moreira Salles.

 

GILBERTO BEM PERTO

AUTORES Gilberto Gil e Regina Zappa

EDITORA Nova Fronteira

QUANTO R$ 59,90 (400 págs.)

AVALIAÇÃO bom

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