HISTÓRIA E LITERATURA, ACRE E AMAZÔNIA – Sobre o romance Coronel de barranco

A tese Coronel de barranco, de Franciele Mendes, defendida na  FFLCH/USPem 2013, é dedicada ao romance com igual título, de Claudio de Araújo Lima. Trata-se de pesquisa inteligente e bem realizada, contribuindo tanto para o conhecimento do tema específico quanto para a reflexão interdisciplinar (História e Estudos Literários).

Sua referência ao regionalismo (nota 2, p 9) convida a pensar sobre essa questão na Literatura brasileira. O termo é guarda-chuva que cobre grandes diferenças, basta pensar no abismo que existe entre autores como Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. Faltou ainda indicar quais estudiosos consideram regionalismo o avesso de modernidade.

Antes da primeira menção ao livro Meta-História, de Hayden White (autor que é importante referência na tese – trecho citado na p 13), seria conveniente evocar Aristóteles (Poética), que consta da bibliografia e é glosado, em sentido diverso, pelo autor do outro livro.

Os grandes blocos que dividem o romance de Lima (sementes, árvores e cinzas, p 15 da tese) constituem bela metáfora do ciclo da vida, estabelecendo paralelos entre natureza em geral e experiência humana.

Quando Francielle evoca referências importantes de sua análise (Euclides da Cunha, Márcio de Souza, Alfredo Lustosa Cabral, Arthur César Ferreira Reis, Craveiro Costa e Ana Maria Daou), caberia situá-las brevemente no tempo para não incorrer no anacronismo de alguns comentaristas que tratam Euclides da Cunha, por exemplo, como se ele fosse um contemporâneo de quem faz o comentário, cobrando-lhe a leitura, digamos, de Edward Thompson (historiador inglês que nasceu em 1924).

Ao registrar a publicação de Coronel de barranco pela importante Editora Civilização Brasileira, sediada no Rio de Janeiro, caberia identificar brevemente Mário da Silva Brito, poeta e crítico conhecido e respeitado nacionalmente, que escreveu a “orelha” do volume. A editora e o apresentador são indícios de uma presença de Lima em escala nacional, mostras do alcance de sua produção.

A caracterização de alguns tópicos temáticos de Coronel de barranco sugere diálogos do autor com um Naturalismo tardio (certa crueza descritiva), associado a traços românticos (grandeza idealizada de certos caracteres), mescla presente noutros autores regionalistas brasileiros, como Jorge Amado. Essa mistura serviu de base para a rememoração histórica romanceada, importante foco na análise de Francielle.

A menção à presença da mulher (p 22) é muito importante para a problemática tratada, uma vez que demonstra a sensibilidade temática da Literatura para campos que o conhecimento histórico demoraria a abordar. Os exemplos clássicos vêm do século XIX e abrangem romancistas como Balzac, Tolstoi, Flaubert, Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, sem esquecer a grande dramaturgia de Ibsen, Tenessee Williams e Nelson Rodrigues. Como se sabe, a História da Mulher passou a ser sistematicamente cultivada por historiadores somente nas últimas décadas do século XX.

Francielle considera que as mulheres, na Literatura estudada, não desenvolvem ações efetivas. Penso, todavia, que os exemplos evocados em Coronel de barranco são estratégicos no sentido de redirecionarem destinos – a lembrança de Conchita, o trajeto de Babel… Mesmo tratadas como encomendas (p 31), as mulheres desse romance se mostram seres humanos complexos e até poderosos, pela estratégica presença na narrativa.

Comentando Victor Nunes Leal, Francielle usa o conceito de “Primeira República”, presente nesse autor. Seria conveniente uma pequena reflexão crítica sobre essa concepção, que o artigo “A revolução do vencedor”, de Carlos A.Vesentini e Edgar De Decca, desenvolveu já nos anos 70 do século passado. Naquele conceito evocado, foi mantida uma abordagem que muito deve à memória da chamada “Revolução de 30”, com graves riscos de uniformização da História.

Em sentido semelhante, o debate de Maria Isaura Pereira de Queiroz (O mandonismo local na vida política brasileira) sobre voto de cabresto, embora clássico no sentido de evitar a desqualificação do eleitor, merece reflexões críticas pois parece colocar em suspensão relações de poder bastante visíveis. Essa seria uma boa oportunidade para estabelecer um diálogo com a discussão foucauldiana (e não foucaultiana, como aparece nas pp 38, 39 e 128): embora existam múltiplos focos de poder, isso significa uma soma zero entre atores históricos iguais?

A lembrança da caracterização da população brasileira até 1940 (“rural, pobre e analfabeta”, p 40) se beneficiaria com a indicação de alguns dados mínimos de recenseamentos. E o comentário feito na passagem da p 40 para a 41 (“Era mais vantajoso […] se submeter ao poder do coronel do que ficar totalmente desamparada”) requer demonstração – na Literatura de Jorge Amado e Graciliano Ramos, o poder do coronel nada tem de “amparo”…

Receio que esse poder do coronel, na sociedade brasileira mis recente, tenha sido menos minado do que Francielle supõe (p 41), embora possa ter sofrido muitas metamorfoses. Tenho dúvidas também sobre o adjetivo “desapropriados” (referindo-se aos trajes dos “homens de poder do seringal”, p 44), parece-me que Franciele quis dizer “inapropriados”.

No comentário sobre “a leitura, o entendimento das leis e a habilidade para cálculos” (passagem da p 51 para a 52), caberia uma breve evocação do clássico Vidas secas, de Graciliano Ramos, através da personagem Nhá Vitória, que revela tal habilidade. Na p 52, entendo que o apoio político dos coronéis era destinado a determinados candidatos, não a qualquer candidato – como o texto de Francielle pode sugerir. A menção a “população amazônica” na p 53 é por demais genérica: possivelmente, aquele era o senso comum reinante, faltou indicar mais claramente fontes para tal afirmação.

Na passagem da p 54 para a 55, Francielle reproduz, sem críticas, o comentário de Craveiro Costa sobre a absoluta similaridade de constrangimentos sofridos por seringalistas e seringueiros. Trata-se de conclusão abusivamente genérica, que requer demonstração para não levar o leitor a pensar que tudo é igual a tudo.

Francielle sugere também, na passagem da p 56 para a 57, uma crítica ao termo “Belle époque” que, todavia, não é levada adiante. Como é uma definição altamente idealizante daquele tempo, eu, pessoalmente, tenho usado o irônico “Bête époque”… Bela e/ou animalesca, penso que é nossa tarefa, como historiadores, problematizar essas expressões para não nos tornarmos cúmplices de suas armadilhas ideológicas, para não sermos porta-vozes dos ideólogos em questão.

Outra ideia esboçada e pouco desenvolvida pela historiadora é o paralelo entre o conceito de Orientalismo, de Edward Said (no livro com esse mesmo título), e o tratamento dispensado pelos intelectuais brasileiros dos centros hegemônicos ao norte do país durante muito tempo (pp 61/62). No caso brasileiro, a questão se agrava ainda mais como colonialismo interno.

Na interessante discussão sobre “fragmentos de real” na Literatura de Lima (p 64), entendo que caberia abordar o pré-existente diante do inventado – quer dizer, tornado existente pela escrita. Ainda sobre as relações entre escrita literária e escrita de historiador, Francielle fala em “olhar mais crítico” (p 67), expressão que eu nuançaria como “olhar crítico diferente”, para não dar a impressão de que a crítica nasce para o historiador apenas a partir daquelas relações com a Literatura. A questão reaparece na p 69, quando Francielle pensa sobre a mescla entre “vidas ficcionais e individuais a acontecimentos coletivos e personagens históricos”. Ao invés de definir fronteiras, penso que estamos diante exatamente de invasão recíproca, que também significa iluminação recíproca.

Na citação de Imperialismo e angústia, do mesmo autor de Coronel de barranco (p 75), que critica “certos romances do fim do século”, não fica claro o referencial de Lima: ficções paulistas e cariocas? No regionalismo nordestino dos anos 30, certamente, a temática apontada não aparece.

O debate sobre a História da Amazônia aponta impasses da Historiografia brasileira – o exemplo de Luís Felipe de Alencastro e seu silêncio sobre a região e o centro-oeste, no segundo volume da série “História da vida privada no Brasil” (Império – A corte e a modernidade nacional) poderia ser evocado.

É muito interessante o registro do reconhecimento recíproco entre literatos acreanos (p 89), faltou atualizar a análise de Márcio de Souza em relação aos dias de hoje, tempo de internet e universidade.

Na evocação da Transamazônica (p 100), entendo que caberia registrar a vocação ditatorial para construir ruínas. Em sentido paralelo, o registro de argumentos ditatoriais (“visavam melhorias para região amazônica”, p 101) exige críticas para que a tese não repita a ideologia das fontes. E a “campanha ‘caça comunista’” não se deu apenas no Acre…

Registrar a “influência dos primeiros viajantes que nela chegaram” (p 104, referindo-se à Amazônia brasileira) não isenta Francielle de pensar sobre especificidades dos ideólogos dos anos 70 do século XX, que escolheram aquelas influências.

A evocação de Macunaíma, de Mário de Andrade sempre necessária! –, foi prejudicada pelo verbo “retratar”, de sabor mimético (p 108). Pessoalmente, prefiro pensar em “reinventar” ou “redirecionar”.

A citação de Sndra Pesavento (p 116) merece comentários. Tenho dúvidas sobre o imaginário se colocar “no lugar da realidade”, dá a impressão de que ele não se torna uma realidade. O que é mesmo realidade? Melhor tratar disso como problema, não dado.

O debate teórico sobre História e Literatura é muito interessante, apelando para autores de peso. Talvez por excessivo tradicionalismo metodológico, eu prefiro que a ordem cronológica das interpretações seja registrada. Nesse sentido, faltou marcar mais as datas das obras de Hayden White, Dominick LaCapra, Roland Barthes e (ausente) Walter Benjamin. O tema da “linha histórica descontínua”, presente em White (p 150), deve muito a Benjamin, por exemplo, que Francielle nem citou.

Além disso, não podemos esquecer que, no Brasil, muitos Historiadores foram grandes Escritores – Euclides da Cunha, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda… No plano internacional, para ficarmos no século XX, Lucien Febvre, Paul Hazard e Michel Foucault tiveram perfil similar. E no século XIX, Jules Michelet e Karl Marx dão lições de estilo textual.

Certamente, White é um importante pensador, apenas senti falta de uma maior exploração das diferenças entre ele e Carlo Ginzburg – que foram registradas, é claro. Mais que “realismo”, penso que o Ginzburg de O fio e os rastros (livro citado por Francielle) remete para a atuação explícita do historiador no processo de produzir conhecimento. Nesse universo, penso que vale a pena tratar também a verdade como problema, não como dado.

Seria melhor evitar o genérico “historiadores tradicionais” (p 128), caberia indicar quais historiadores, especificamente, merecem a crítica feita – o problema também se manifesta em relação a “história oficial” (p 143). E pensar que os textos têm relação com o real (p 134) pode omitir que, afinal, todo texto É REAL. Sem deixar de repetir sempre que o real é um problema, não um dado.

Sobre a questão da verossimilhança (pp 135/ss), penso que a Literatura e as Artes em geral, desde a segunda metade do século XIX, vivem uma aguda crise, de Rimbaud (o eu é um outro) e Mallarmé (dados sem acaso) a Picasso (que mulheres são essas?) e Duchamp (o mictório no salão de artes). Retomar o clássico Aristóteles é sempre necessário mas, mais uma vez, parte do problema, não solução.

Barbara Weinstein, citada por Francielle, é uma boa pesquisadora, que padece da arrogância crônica dos brasilianistas, agravada pela total ausência de perspectiva historiográfica: ela trata Euclides da Cunha como se fosse seu contemporâneo, leitor de Thompson e similares. E não parece entender a dimensão gigantesca da escrita de Euclides como força interpretativa da História…

Um dos grandes méritos da tese de Francielle é afirmar o papel da Literatura como problematizadora. Nessa perspectiva, a História, como campo de conhecimento, pode aprender com a Literatura isso e muito mais – escrever bem, por exemplo, é um forma de pensar sobre o mundo.

Reitero que, além das conquistas empíricas a partir do romance de Claudio de Araújo Lima, a tese de Francielle Mendes traz múltiplas contribuições metodológicas, que vão da interdisciplinaridade História/Estudos literários à reflexão crítica sobre História regional/História universal. São alargamentos do saber histórico que derivam do talento da autora, de seu orientador (Júlio Pimentel) e da solidez intelectual própria às instituições acadêmicas onde ambos atuam – UFAC e USP, respetivamente.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 30 de janeiro de 2014 19:44

    Agradeço a Danclads e Thiago pela atenção.

  2. thiago gonzaga 30 de janeiro de 2014 14:35

    Muito oportuno o texto professor Marcos Siva.
    Tbm gostei bastante e me interesso pelo assunto.

  3. Marcos Silva 29 de janeiro de 2014 20:10

    São meus votos.

  4. Danclads Andrade 29 de janeiro de 2014 19:18

    Confesso ser um apreciador da História e a descrição de Marcos Silva da tese “Coronel de barranco” onde é abordado o regionalismo no norte do país, me deixou de água na boca para ler esta obra, que analisa não só o regionalismo do norte do país, mas a própria história (meta-história), suas relações com outros ramos do saber (artes, literatura, etc.).

    Enfim, pela descrição feita por Marcos, trata-se de uma obra que contém uma riqueza temática enorme.

    Marcos, uma pergunta que não quer calar: esta tese vai virar livro?

    Abraço!

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