História e romance em “Cidade dos Reis”

Talvez o traço que melhor distinga o romance, especialmente o chamado “romance histórico”, tributária dos fatos na sua servidão ao peso da cronologia dos acontecimentos indisputados, seja um balanceamento entre criação ficcional e informação histórica, com no mínimo uma pequena vantagem em favor da primeira. Porque personagens precisam de espaço e de tempo para se movimentaram no universo da trama, a fim de bem cumprirem o projeto de seu criador, isto é, “protagonizarem”.

É nisso, aliás, que consiste o trabalho afeto ao escritor quando trabalha com informação já conhecida, reamalgamando fatos conhecidos e moldando-os em novas configurações, de onde decorram novas possibilidades e interpretações para fatos consabidos, paralelamente ao desenvolvimento dos personagens não históricos, os verdadeiros protagonistas desse gênero de romance. Sob esse aspecto, vale lembrar que um excesso de narrativa histórica cerceia essa possibilidade, sufocando, por assim dizer, a vida dos personagens de ficção em benefício dos nomes e acontecimentos consignados nos manuais de História.

Visto isso, o recente livro publicado pelo experiente e talentoso escritor Carlos de Souza vive essa contradição: embora se assuma romance (ao menos em sua ficha catalográfica), em “Cidade dos Reis” há muito mais narrativa histórica do que trama ficcional. E esse desequilíbrio é fácil de entender: há dois narradores de História no livro – o professor Juca Guiné e o comerciante Bernardo Camarão – para um único narrador ficcional, ou seja, aquele responsável pela criação da urdidura da história (ficcional) do suposto protagonista Jonas Camarão.

Há, portanto escassez de elementos ficcionais em “Cidade dos Reis”, enquanto abunda contação de episódios da História norte-rio-grandense, inclusive no que esta tem de factual e de mítico, indiscerníveis em alguns episódios mais remotos, como as guerras holandesas, os confrontos entre etnias indígenas divididas entre portugueses e holandeses, a presença, nessas guerras primordiais, de índias aguerridas e guerreiras como neoamazonas potiguares etc.

À medida que o livro vai deixando para trás os episódios remotos da história potiguar, vai naturalmente se encaminhando para a evolução sócio-histórica do Rio Grande do Norte, haja vista que a atuação verbal dos narradores Juca e Bernardo seguem pari passu essa progressão, que tem a ver com a história particular de Jonas – uma “pequena ficção” que emoldura o personagem como ouvinte preferencial da macro-história contada em sucessivos e independentes capítulos e da qual se tornará narrador, na segunda metade da obra, para a filha adotiva Vera, o que garante um ritmo de contação permanente ao livro.

Não é caso, porém, de se ver contradições internas em “Cidade dos Reis”. Antes, é porque o escritor Carlos de Souza quis que fosse essa a configuração do seu livro; ou foi levado pela sua tessitura a lhe dar essa feição, recompilando uma vultosa quantidade de fatos relativos à nossa história doméstica e os recosturando num mosaico híbrido e salteado, conforme seja o narrador. Em consequência, limitou o espaço existencial de seus tipos ficcionais.

Mais de um leitor poderá concluir, com razoável suporte factual, que o verdadeiro protagonista desse livro sintomaticamente intitulado “Cidade dos Reis” seja ela própria, a cidade, quer tomada individualmente, em sua demografia e urbanismo, quer em suas relações cronológicas e contextos mais gerais, desde os seus começos lendários aos dias de hoje.

A essa altura, estamos deixando para trás o terreno da ficção em definitivo? Seria o caso de falarmos de um texto narrativo híbrido, conjugando a ambos? Essas se tornam questões ociosas, se levarmos a sério o esclarecimento que o próprio autor dá à página 16 sobre a natureza de seu livro: “[…] Afinal isso aqui nem é romance, repito, nem livro de história, mas uma conversa de beira de calçada apenas”.

Em suma, um escritor pode ser demógrafo, urbanista, historiador, jornalista, mas não pode abdicar de sua condição de criador. Com mais criação e menos informação cremos que “Cidade dos Reis”, não obstante seus muitos méritos literários, cumpriria melhor seu destino de romance.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. carlos de souza 2 de abril de 2012 8:22

    Querida Alice N., a culpa pelas duas voltas da Mara foi minha mesmo. Na última leitura que fiz, talvez a centésima, esqueci de apagar a frase que repetia a situação. A solução vai ficar para uma nova reimpressão, se houver. mas acho que não tira o mérito todo do livro. Obrigado pelas palavras gentis.

  2. Alice N. 29 de março de 2012 14:06

    Ou então a culpa é do revisor…

  3. Alice N. 29 de março de 2012 13:59

    Eita!!!
    Desde o dia em que adquiri o livro – no “famigerado” Dia da Poesia – peguei no livro e não larguei mais. Estou na página 199. Tudo indica que ei de terminá-lo…
    O que dizer?
    Alguma coisa me prende a ele e acho que isso diz respeito sim ao poder de criação do narrador maior, Carlão de Sousa, o próprio autor. Tem contação histórica? Tem. Mas nem acho isso o problema, se é que se pode chamar isso de “problema”. Acho que tem coisas que podem ocorrer em qualquer leitura, para qualquer leitor – seja ele um crítico recomendado pela mídia oficial (e local) ou não. Eu, como leitora, por exemplo, senti falta de um desfecho dramático mais elaborado para o personagem Juca Guiné, tão ricamente descrito no começo do livro. Também não entendi as duas voltas de Mara da guerra. Foi intencional? Não me pareceu nenhuma invenção non sense dentro dessa narrativa e sim duas versões escritas para o episódio, copiadas e coladas no arquivo e não separadas, enfim, coisas das tecnologias e da pressa mesmo por terminar a coisa. Coisas demasiado humanas. Estou adorando o livro, em outras palavras, foi meu companheiro nessa última lua nova. Valeu, Carlão!

  4. carlos de souza 29 de março de 2012 11:22

    número, gênero e grau.

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