História subterrânea e emotiva

Por Silviano Santiago
O Estado de S.Paulo

Caso emplaque, o filme Um Método Perigoso (2011) – FOTO, de Dave Cronenberg, trará à baila um tópico atual – o da história subterrânea e emotiva da Psicanálise. No filme estão dramatizadas as circunstâncias da invenção e difusão da teoria psicanalítica pelo viés da relação amistosa e conflitiva entre o vienense Freud e o suíço Carl Jung. Como a crítica literária descobriu há pouco, e o filme trabalha dramaturgicamente essa descoberta, a história subterrânea e emotiva de nova disciplina (a psicanálise) ou de novo movimento em disciplina tradicional (o Modernismo na literatura) pode ser lida na correspondência trocada entre mestre e discípulos. No caso literário, leiam-se as cartas do nosso Mário de Andrade. No caso da análise, citem-se as cartas trocadas entre Freud e seus inúmeros discípulos.

A carta é texto nobre no gênero que Michel Foucault classifica como “écriture de soi”. É parente do diário e da autobiografia. Se se considerar a troca de cartas como um todo, diferencia-se dos parentes por ser texto escrito a inúmeras mãos.

Ao assistir ao filme de Cronenberg, ocorreu-me prosear com o leitor sobre um livro despercebido no ano da publicação em Paris, 1976, e atualíssimo. Refiro-me a Um Destino Tão Funesto (Timbre Tauros, 1987), cujo autor é François Roustang, ex-jesuíta analisado por Jacques Lacan. Un Destin Si Funeste é pioneiro. Interpreta textos tomados à correspondência de Freud com a finalidade de redesenhar os traços subterrâneos e emotivos que configuram a difusão da teoria freudiana e a fundação da Associação Psicanalítica Internacional (1910). Ao redesenhar e apreender o caminhar diário e à flor da pele dos sentimentos de cientistas, Un Destin Si Funeste se aproxima do romance As Ligações Perigosas (L&PM Editores), de Choderlos de Laclos, e do ensaio A Angústia da Influência (Imago), de Harold Bloom. Não por coincidência o romance clássico de Laclos é escrito sob a forma de correspondência amorosa.

Roustang estabelece o modelo de leitura da correspondência de Freud a partir das cartas de Karl Abraham. Junto ao mestre, ele aviva as intrigas entre os discípulos (Jung, Bleuler e Rank). A carta que envia a Freud antes de morrer, em 1925, sintetiza: durante 20 anos não houve divergência de opinião entre os dois, salvo quando ele julgara justo criticar a terceiro. Afirma Roustang: a lucidez de Abraham se nutre da “paixão da exclusividade”. O terceiro traz a divergência e perturba a afeição ao mestre e o zelo à causa. Na esperança de que Jung seja “o ariano capaz de retirar a psicanálise do gueto judaico”, Freud não endossa as críticas que desde 1908 Abraham faz ao suíço. Indulgente com os insubmissos, Freud descarrega o rancor em quem é sincero e fiel. Freud apazigua à maneira de mestre. Pontua a “concorrência” entre os discípulos, ou a “rivalidade não controlada”. Contesta-lhe Abraham: “no fundo, a opinião que exprimo é a sua, que o Senhor não deixou tornar-se consciente”.

O princípio de coerência da teoria não está no discípulo. Sua posição é intolerável. Se o delírio é a teoria de um, a teoria é o delírio de muitos em estágio de transmissão. Acolhido no círculo familiar de Freud, Abraham sente-se constrangido por “dívida de reconhecimento”. É o guardião íntegro. Como outros poderiam ocupar lugar privilegiado junto ao mestre se não se preocupam em ressarcir o creditador?

Freud desembrulha o imbróglio: “Não quero sacrificar a nenhum dos senhores, mas, para dizer a verdade, não posso dizer a um a que ponto o outro me é caro”. A rivalidade entre discípulos se desdobra na luta do mestre para manter a todos como discípulos. As ligações perigosas não dissolvem a transferência. Esta relaciona o poder narcisista do mestre sobre a teoria ao seu poder na fundação da Associação Psicanalítica Internacional.

Segue-se a redação de Totem e Tabu (1913). Nada sela melhor a coesão da “horda selvagem” que o crime perpetrado por todos e cada um. Em carta, Freud se reaproxima de Abraham. Diz-lhe que o novo livro “deve servir para eliminar definitivamente tudo o que é religioso-ariano”. E esclarece: “Jung enlouqueceu, mas não viso à ruptura; gostaria, antes, de deixá-lo perder-se. Contra minha vontade, pode ser que o trabalho sobre o Totem acelere a ruptura”. Abraham acrescenta: “O aparecimento da Contribuição à História do Movimento Psicanalítico levará Jung a sair de campo”. Está armado o plano para destituir Jung da direção do Jahrbuch (anuário). Na brecha, Abraham introduz Ernst Jones na correspondência e na Associação. A dívida ainda não está resgatada. Reganha força pela insistência do devedor: Abraham envia o próprio retrato “de presente” ao mestre. Informa-lhe este: “O moldureiro deverá entregar-me sua foto amanhã, e ela ocupará então o lugar de Jung”. O conhecimento do processo de transferência não evita a impropriedade do vocábulo lugar.

A relação de Freud com os discípulos corresponde, no plano individual e no institucional, aos mecanismos libidinais inconscientes que fundam as “multidões artificiais”, como a Igreja e o Exército. Roustang enumera o elenco: obediência à pessoa do mestre e à causa, exigência de fidelidade, refúgio que cada um encontra na compreensão paternal, zelo no gerenciamento financeiro (quando alguém entra no círculo, dever-se-ia encontrar-lhe pacientes), entrada na família de Freud. “Todos esses traços convergem para desenhar uma figura de Sociedade bem precisa”, afirma o ex-jesuíta.

Não é outra a conclusão. “Em 1910, Freud propunha que a Associação escolhesse um chefe (ein Oberhaupt) que, depois do desaparecimento do fundador (der Führer), seria seu sucessor, seu lugar-tenente (sein Erzatz), e teria ‘autoridade própria para aconselhar e para desaconselhar’.” Na corda bamba, Abraham e Jung.

SILVIANO SANTIAGO ESTÁ PASSANDO UM SEMESTRE LETIVO NA PRINCETON UNIVERSITY (EUA) COMO PROFESSOR VISITANTE

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