Quando a história única molda nosso modo de pensar

Imagem de capa: escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Foto: Chris Floyd

Algum dia você já parou para pensar por que as coisas são ou estão assim? Já se perguntou se conhece os outros lados da história ou aprendeu a olhar apenas por um ângulo e nunca se questionou sobre isso?

Até alguns anos atrás, essa pergunta não me pareceria tão necessária e urgente. Olhando para a história do mundo e a forma como a maioria de nós o percebe, finalmente compreendi que a minha condição de mulher, de mulher negra tem sido invisibilizada ao longo do tempo.

Vocês podem me perguntar, mas, por que só agora isso ficou evidente? Eu respondo. A superioridade dos homens está tão naturalizada quanto a inferioridade das mulheres, de forma mais ou menos explícita.

Em pleno século XXI, nós mulheres ainda lutamos pelos direitos mais básicos como o de existir com dignidade, de sermos donas de nosso próprio corpo, de equidade em relação aos homens, entre outras coisas nas quais estamos em desvantagens em nossa sociedade machista, sexista, misógina e racista.

Leia o artigo “Vidas negras deveriam importar. A vida das mulheres negras deveria importar”, de Nádia Farias

A história foi, e ainda é contada em sua maioria pelos homens, suas conquistas, inventos, descobertas e feitos foram contados de geração em geração de diversas maneiras.

Narrativas trazidas nos mitos, lendas, contos, cordéis, poemas, romances, cinema, televisão, história oficial, escola… E nós, mulheres? E a nossa participação na história do mundo?

Eu poderia dizer que a resposta é simples e óbvia. Mas, não é simples assim. Até porque se fosse, eu não estaria escrevendo esse texto, com esse tom de provação à reflexão para apresentar as obviedades dessas questões.

Documentário acompanha jovens mulheres em suas memórias sobre a transição capilar

A história única e a essência das coisas invisíveis

Apagamento, negação e invisibilização são alguns dos adjetivos para descrever a resposta a essa pergunta.

As mulheres têm história, fizeram e fazem história ao longo da nossa caminhada enquanto humanidade. No entanto, essa história não foi contada na mesma proporção da participação dos homens.

Muito pelo contrário e não é por falta de grandes mulheres e seus feitos, mas pelo machismo escancarado que ainda tenta nos resumir e enquadrar em papéis por ele idealizado.

Esse é o grande perigo da história única como coloca Chimamanda Ngozi Adichie em sua palestra na Conferência Anual – TED global em julho de 2009 em Oxford, Reino Unido sob o “A Essência das Coisas Não Visíveis”.

Conhecer apenas a história contada pelo olhar dos homens, desfavorece as mulheres que desconsideradas enquanto partícipes e produtoras da história do mundo e da própria, envia uma mensagem invisível, camuflada e subliminar que elas foram, quando muito, apenas coadjuvantes.

Essa realidade me aflora o pensamento quando começo a refletir sobre o lugar da mulher e o quanto de omissão, exclusão, invisibilidades ainda vemos hoje.

Por isso, eu pergunto: Você conhece a história das mulheres? E das mulheres negras? Quantas heroínas você conhece? Quantas heroínas negras? Quantas escritoras você já leu? Quantas escritoras negras? Em quantas mulheres você já votou?

Se a resposta for não para pelo menos uma dessas perguntas, não estaria na hora rever essa história? Pense nisso!

Pedagoga e professora do IFRN, campus Apodi. Mestra em ensino pela UERN e doutoranda em educação pela UFPB. Autora do livro "Entre Saberes e Fazeres Docentes: o ensino das relações étnico-raciais no cotidiano escolar". Tem contos e poesias publicados em antologias. [ Ver todos os artigos ]

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