Histórias-boas-de-Marias-e-outras

Domus amica, domus optima

Meu Vício é Você

( Adelino Moreira )

Boneca de trapo, pedaço da vida
Que vive perdida no mundo a rolar
Farrapo de gente que inconsciente
Peca só por prazer, vive para pecar

Boneca, eu te quero com todo pecado
Com todos os vícios, com tudo, afinal
Eu quero esse corpo que a plebe deseja
Embora, ele seja prenúncio do mal

Boneca noturna que gosta da lua
Que é fã das estrelas e adora o luar
Que sai pela noite e amanhece na rua
E há muito não sabe o que é luz solar

Boneca vadia de manha e artifícios
Eu quero para mim seu amor, só porque
Aceito seus erros, pecados e vícios
Pois, na minha vida, meu vício é você

Quando o tempo fica mais lento e a vida parece menor me ponho a sonhar e a lembrar para continuar vivendo. Lembro das grandes cortesãs da história: a bela Frinéia, Aspásia e Messalina, como dignas representantes da mais antiga das profissões. Lembro de um tempo em que Cabarés eram montados para receber os gringos e homens endinheirados, ou nem tanto.

O cabaré da paraibana Maria Boa (Maria de Oliveira Barros) fez época em Natal e foi freqüentado pela fina flor da sociedade natalense. Antes da II Guerra Mundial e durante, a população da cidade aumentou enormemente e Natal foi habitada por muitos americanos e brasileiros dispostos a lutar contra o eixo. Precisava de comidas e de diversão e muita mulher e comida teve que ser importada. Quando Maria faleceu no dia 22 de Julho de 1997, boa parte de Natal ficou na mão. Os motéis vigoravam e boa gente nasceu no Tahiti. Lá você comia duas e pagava uma.

As roupas das camas de Maria Boa eram muito bem limpas e suas belas mulheres muito bem cuidadas. Numa vila bem estreita em que morei no Alecrim – RN, havia uma mulher que lavava as roupas do cabaré de Maria Boa. Seu poder era ostentado do alto de em belo Cadilak Americano de cor azul. Lembro com saúdades de muitas histórias de Maria Boa. Do japonês que todo dia demorava dez minutos em ponto no quarto. Após umas boas bordoadas pagava e saía aliviado. Da mulher ficava esperando pela namorada até o ultimo freguês. Dormia junto e no outro dia a mesma rotina. Uma mulher casada só gozava no cabaré de Maria Boa. Muitos se apaixonaram pelas mulheres de Maria Boa e, alguns, até casaram. Aquela luz de néon era o ambiente correto para tomar uma cerveja e fumar um cigarro arromba peito tipo Hastora, Gaivota, Belmont, Elmo, Arizona, Iolanda e Clássico. Tempos antes, essas carteiras de cigarros serviam de notas para brincar de dinheiro. Dos tempos áureos do Maria Boa, também lembramos as estrepolias de Zé Areia, vendendo papagaio por Galinha.

Muitas outras boas histórias foram ouvidas nos cabarés ou de amigos. O cara que não conseguia endurecer com o frio das noites ribeirenses, e a mulher: – vamos não posso esperar quero meu dinheiro.

Do outro que só gostava na bunda e achou pequeno o que a mulher comprou. Um dia o telefone toca: – onde está você? Atrasei no trabalho – e esse carro aqui do lado?

Num certo dia, servi de intérprete para um amigo brasileiro que desejava se fazer de gringo para melhor ser tratado. Falava em Inglês macarrônico e eu traduzia em brasileiro castiço.

No auge da boemia natalense também fizeram sucesso os cabarés de Francisquinho (Boate Paris) e Loudes (Boate Ideal), Rita Loira e Boate Asperge. O Grande Hotel na Ribeira, fundado em 1919 por Teodorico Bezerra, também serviu de casa de recurso. No bairro mais granfino do Tirol ficavam as Boates de Belinha, Alaíde e Lenita. Quando pegava uma doença venérea, tipo crista, mula ou blenorragia, tomava uma Benzetacil. Se algum incauto pegasse uma “doença do mundo” não podia comer carnes de porco, rolinha , arribaçã ou guiné.

Mas, nem só dos cabarés e bordéis chiques gozava as cidades. Também havia os antros fuleiros “Cai Pau” onde o preço era bem menor e tomava-se zenebra. A famosa transamazônica, onde só precisava ancorar o carro e namorar ao som das estrelas e das ondas do mar. Para se lavar, uma quenga de coco. No puteiro da Ribeira, quando muito uma bacia com água.

Madame Arara, uma cria de Maria Boa

Uma das mais famosas donas de cabarés foi Madame Arara. O cabaré de Maria Arara, em Guarabira, era freqüentado por mulheres muito bonitas vindas do RN, PE e outras cidades da federação. Maria de Lourdes Rocha Hejmam (a musa dos cabarés Guarabinenses) chegou a Gurabira em 1973, depois de um estágio de Maria Boa em sua juventude (in “Estrela: O Parque do Prazer” Josélio Fideles de Sousa). Além da famosa boate noturna Lourdes Drink´s, em Guarabira, Maria Arara fundou vários outros cabarés em outras cidades, como Campina Grande e Caruaru.

Tudo hoje são recordações. “A Luz do Cabaré já se apagou em mim”, e se hoje lembro essas coisas é uma forma de dizer, foi isso que pude viver. Pego uma ficha e ponho para tocar na radiola, o “Tango para Tereza”. Garçon, uma cerveja por favor !

Tango para Tereza / Evaldo Gouveia / Jair Amorim

Hoje, alguém pôs a rodar,

Um disco de Gardel,
No apartamento junto ao meu,
Que tristeza me deu,

Era todo um passado lindo,
A mocidade vindo na parede,
Me dizer, para eu sofrer,

Trago a vida agora calma,
Um tango dentro d’alma,
A velha história de um amor,
Que no tempo ficou…

Garçom, ponha cerveja sobre a mesa,
Bandoneom, toque de novo, que Tereza,
Esta noite vai ser minha,
E vai dançar, para eu sonhar.

A luz do cabaré já se apagou em mim,
O tango na vitrola, já chegou ao fim,
Parece me dizer que a noite envelheceu,
Que é hora de lembrar, e de chorar…

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. josélio fideles de souza 23 de fevereiro de 2012 9:57

    sou autor do livro estrela o parque do prazer.estou maravilhado com esse comentario sobre minha obra.

  2. Marcos Silva 2 de julho de 2011 11:02

    Li o texto de João com interesse. Em minha geração, começou a ficar mais habitual namorados transarem com namoradas, dando a impressão de que casas de profissionais e também “garotas de programa” eram fatos de um passado remoto. Vendo a prostituição pra turista, hoje, percebo como a suposta revolução sexual dos anos 60/70 foi tímida – namorados e namoradas continuam a transar mas as saídas profissionais estão aí, com a ala masculina de prostituição mais visível que antes.
    Encaro as casas referidas por João como locais de diversão e arte e também como espaços de trabalho das moças(hoje, também dos moços).
    Vale a pena sentir saudades das pessoas. Não sinto falta das profissionais de fazer sexo, prefiro sexo por amor à arte mesmo. Mas conheço homens e mulheres que gostam mais do trabalho das e dos profissionais. É um direito da libido de cada um, claro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo