Hitler e Lampião, ou a estética da violência

Para aqueles que se iludem com os acenos sedutores de alguns movimentos em prol da violência, tanto do passado como do presente, como o cangaço e/ou outras espécies de banditismo, vale a pena conhecer o excelente documentário sueco “Arquitetura da Destruição” (Undergagens Arkitektur,1992), dirigido por Peter Cohen e narrado por Bruno Ganz.

Trata-se de um dos melhores estudos sobre o Nazismo e suas íntimas razões, radiografando um certo sentido estético que fascinou e praticamente levou à hipnose a grande massa alemã, provocando os desvarios e crimes de que toda a humanidade veio ter conhecimento.

No importante filme fica claro como a visão “artística” de Hitler colaborou com a tese da eugenia, defendida ferrenhamente pelo Nazismo, pondo-se em prática uma verdadeira indústria de assassinatos em massa, o chamado genocídio, que tinha os judeus como principal alvo.

A megalomania de Hitler e seus asseclas tomou uma proporção gigantesca e trouxe marcas irreversíveis para o mundo. Sob o pretexto de valorizar o belo e o saudável, o exército e a polícia de Hitler puseram em prática um dos mais absurdos planos que seres humanos puderam gerar: o da erradicação de raças e pessoas que não se encontravam no “padrão” ariano estabelecido pela visão distorcida de Hitler.

Pergunto: a estética do cangaço defendida por alguns não estaria também na base de uma certa tolerância histórica em torno do cangaço e de seu líder narcisista Lampião?

Certamente, há de se analisar tal componente (a estética, a arte) a permear e a servir, de maneira indevida, a história da violência institucionalizada. Outros exemplos aconteceram de maneira assemelhada, bastando lembrar a figura enojante de Nero e de seus transtornos de artista frustrado, que tiveram forte impacto sobre Roma.

É. A apropriação indébita da arte e da estética pode trazer sérios danos, produzidos por mentes doentias de figuras centrais da humanidade. E pode contaminar toda ela.

Taí um tema que merece reflexão, se os estudiosos o quiserem enfrentar com desassombro e sem preconceitos.

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Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Orlando Baracho 25 de novembro de 2010 17:30

    Cuidado Tácito. O nome do comandante da Coluna prestes era Miguel Costa. O general que traiu Getúlio era Zenóbio da Costa. Iberé Ferreira perdeu em parte porque o pai de Lampião era Zé Ferreira. Otto Guerra não podia ser brando sendo Guerra. Deus meu dos desgraçados…há quem chegue à fronteira da estultice e continue andando. O problema é que depois da primeira besteira dita, tudo depois fica mais bobo.

  2. Lívio Oliveira 25 de novembro de 2010 16:59

    Baracho…Baracho…Baracho…ah! entendi porque o Orlando pensa assim. Nada tenho a fazer, apesar disso. Cada qual com seus dramas…

    Trouxe ele, no entanto, outro elemento importante a concorrer para a violência e sua “ética” e “estética”: o misticismo e todas as deturpações de caráter fanático-religioso.

    Parabéns, Baracho! E viva Ludovico Ariosto!

  3. Orlando Baracho 25 de novembro de 2010 15:14

    Alex, meu caro, você pôs o arado nos trilhos. Cangaço e nazismo? Meu deus! A ignorância histórica deveria ter fronteiras. Há bandidos de segunda e de primeira? Meu deus! O complexo de nordestino que queria ter nascido em Dublin não tem limites. A estética não tem barreiras culturais, ideológicas ou geográficas. Pancho Villa melhor do que Lampião? Prefiro uma ilha governada por Sancho Pança do que essa intelectualidade irada de raiva muita e pouca serenidade. O cangaço, queiram ou não, reflete um movimento humano de natureza social, política e religiosa. Lampião não inventou a violência, assim como alguns “sabe tudo” não inventaram a verdade literária. Se manquem…

  4. Lívio Oliveira 25 de novembro de 2010 15:00

    Que susto, Monteiro, pensei que nunca mais concordaria comigo!

    Que susto, Alex, pensei que nunca mais discordaria de mim!

    Bem, passados os sustos, umas ressalvas, ressalvinhas:

    1. Não faço gradação entre bandidos. Bandidos são bandidos e ponto, estejam eles no Congresso, vestidos de toga ou beca, com gravata, roupa branca ou preta, no morro, na cobertura…

    2. Se a aproximação entre Nazismo, Cangaço, Comando Vermelho, Yakuza, Cosa Nostra, Centrões, Gangsteres de todos os tipos, não existir, acredito que também não há nenhuma sintonia entre Cristo, Gandhi, Buda, Madre Tereza de Calcutá, Dalai Lama…

    3. A Lei do Godwin é superficial e sem justificativas maiores, ao menos no presente caso. Dá até para aplicar o próprio princípio aplicado por ela a ela mesma. Nem toda lei é inteligente, ainda mais as de oportunidade e casuísticas. Aprendi isso. Não dá para segui-las cegamente. Há de se interpretá-las, usando hermenêutica. Óbvio.

    4. Charles Manson tem de ser curtido é na cadeia, pela morte horrenda de Sharon Tate, grávida, além de outros crimes. Ah! Nada tem também a ver com o Nazismo, além daquela suástica tatuada a fogo na testa.

    5. O comum que existe entre Jim Jones, Idi Amin, Hitler, Lampião, dentre outros, é tão-somente o crime e o mal e a perversão e a crueldade e a violência e a dor provocada nos outros e o ódio…

    Nada mais…

  5. Fernando Monteiro 25 de novembro de 2010 11:24

    “Pergunto: a estética do cangaço defendida por alguns não estaria também na base de uma certa tolerância histórica em torno do cangaço e de seu líder narcisista Lampião?”
    Essa questão por você colocada, Lívio, é mais do que pertinente. Porém, acredito que não será respondida ao menos pelos redutos conservantistas que existem em Natal, no Recife, Oropa, França e Bahia. Acrescento só uma coisa: Lampião sempre me pareceu um bandido de segunda (olhe só), ninguém que se possa sequer comparar a um Pancho Villa, e, muito menos, a um Salvatore Giuliano…

  6. Alex de Souza 25 de novembro de 2010 10:02

    Caro Lívio,

    Considero a aproximação entre nazismo e cangaço uma tremenda forçada, apesar da boa lembrança do documentário de Peter Cohen. No filme alemão, fica clara a a subordinação da estética à ideologia nazista. Tudo se articulava na construção de um plano político que se projetava no plano simbólico. Sem falar que o nazismo era um projeto de Estado.

    Nada disso pode ser observado no cangaço (e olha que não estou nem próximo do que se possa considerar um estudioso sobre o assunto, que pouco me interessa). O nosso breve banditismo, mesmo que acobertado aqui e ali por pessoas de poder, era um ‘movimento’ que ia contra o Estado estabelecido, pois solapava sua autoridade. Além disso, era integrado por pessoas pobres e com pouquíssima ou nenhuma educação formal, incapazes portanto de criar – ao menos conscientemente – um sistema de bens simbólicos, uma corrente de pensamento que embasasse um movimento social – o que também não constituíam.

    O que não impediu, obviamente, que se construísse uma identidade entre aqueles que fizeram o cangaço. Essa identidade surgiu na forma de organização dos grupos, num certo discurso de combate ao poder e vingança contra injustiças e, principalmente, num código bastante peculiar de indumentária.

    Mas, enquanto a maioria dos estudos sobre cangaço se debruçam sobre minúcias históricas, como ‘quem fazia parte de tal bando no dia do ataque a tal cidade’ e coisas do tipo, é natural que chame a atenção um estudo que pareceria óbvio se não fosse inédito, este de Frederico Pernambucano sobre a estética do cangaço. Por sinal, um apanhado riquíssimo sobre todos os elementos que compunham a figura do cangaceiro. Além de um livro bonito pra dedéu.

    O crime sempre fascinou o homem e instilou rebeldias. De onde viria o interesse pelo ciclo dos gangsteres norte-americanos, pelos cowboys fora-da-lei do Far-West, por Robin Hood e, por que não?, por Lampião e sua trupe? Tem até quem curta o maluco do Charles Mason.

    Até hoje fala-se bastante do nazismo. Nesse caso, é tolerância histórica? Obviamente que não. Então, o que diabos uma coisa teria a ver com a outra? Desconfio que o poeta escorregou nos princípios da Lei do Godwin.

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