Hoje digo não ao fascismo

Um dia alguém precisará estudar as raízes do ódio absurdo, visceral que foi gestado não apenas contra o Partido dos Trabalhadores, mas contra tudo o que é de esquerda ao longo de uma década em que milhões de pessoas saíram da fome e da miséria, acessaram pela primeira vez às universidades e à casa própria e etc. sem que isso sequer riscasse a concentração de riqueza, os lucros, os privilégios, o status das elites dominantes.

O PT não fez reforma agrária, não taxou as grandes fortunas nem fez reforma tributária, não demarcou as terras indígenas, não fez políticas contra o genocídio negro, não garantiu educação básica e saúde públicas de qualidade, não fez reforma política dando poder real ao povo, não democratizou a mídia… enfim, não mudou radicalmente a estrutura da sociedade, corroendo ou acabando com privilégios seculares. Bancos, agronegócio, grandes corporações só se beneficiaram com o lulismo; a classe média branca pode não ter crescido tanto como os pobres, mas também não perdeu seus empregos, teve acesso à casa própria, etc.

De onde nasceu um ódio tão cego e tão violento? Serão as elites – e a classe média que se acha elite sem sê-lo – tão inveteradamente escravagistas a ponto de não conseguir suportar sequer um leve aumento do nível de renda da senzala, que – no caso das elites – não ameaçou seu domínio histórico dos recursos e dos meios de produção? Uma mínima, incipiente inclusão social dos pobres exclusivamente pela via do consumo pôde ter sido capaz de engendrar tamanho rancor? Se não foi isso, o que aconteceu? É algo a se pensar e se estudar.

Seja como for, hoje eu estou ao lado de quem marcha contra o golpe. Hoje digo não ao estado de exceção, ao sequestro das instituições da democracia liberal (poder judiciário, polícias, meios de comunicação…) pela secular direita escravagista para não só tirar um partido – por sinal, indefensável – do poder com métodos que ofendem estado de direito, mas para criar uma situação de perseguição, intimidação e repressão permanente contra toda luta social com pautas de esquerda. Hoje digo não à criminalização da esquerda política, não ao fascismo.

Digo não a quem acha que espancar pessoas é “luta contra a corrupção”; a quem acha que pedir intervenção militar para acabar com as liberdades democráticas é “luta contra a corrupção”; a quem acha que fazer “listas negras” – é um nome ultra-racista, o sei, mas é coerente com o espírito da coisa – de artistas de esquerda como no macartismo e na ditadura é “luta contra a corrupção”; a quem acha que disseminar no WhatsApp, no Facebook e nas demais redes sociais incitação ao assassinato de pessoas de esquerda e de ativistas de movimentos sociais é “luta contra a corrupção”.

Luta contra a corrupção é pedir Reforma Política. O resto é fascismo e golpe… e, contra isso, eu luto.

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