Hoje é noite de Lua/ Não pode dormir…

Lua adversa / Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

A Lua na Mitologia

A Lua na mitologia e em muitas religiões representa a força feminina que reflete a força masculina do sol. Na mitologia romana ela é Diana; na Grega, Afrodite; na Egípcia ela é Isis (filha do céu e da Terra), e faz parte da poderosa trindade Osíris, Isis e Horo. A lenda de Isis e Osíris que remonta a Plutarco – séc. I d.C.- diz que Set com inveja do irmão Osíris, assassina-o. O corpo é despedaçado e as partes espalhadas. Isis consegue reunir os pedaços e insufla vida nova ao cadáver. Só não encontrou o falo do marido, mas consegue restaurá-lo com limo e saliva. Horo é concebido e cresce escondido por causa da hostilidade de Set. Auset (Ísis) é o princípio feminino da natureza, e recebe todas as formas de geração, e, por esta razão, é chamado por Platão de a enfermeira gentil e a receptora – total. (Moustafa Gadalla in Cosmologia Egípcia).

Na Babilônia, a deusa Lua é responsável pela ordem cósmica. O sol e a Lua nasceram juntos do corpo da deusa mãe Tiamat. Ainda na babilônia, é a fragilidade da Lua que é preciso cuidar. Pois a Lua, que cresce, mingua, desaparece por três dias para reaparecer, um magro e frágil crescente semelhante a um corno, oferece-nos um tempo concreto, um tempo vivo, um tempo que aprendemos de uma vez, intuitivamente. A Lua é, pois, senhora do tempo, do vir a ser e do destino (Verdet in O Céu, mistério, magia e mito) .

Entre os povos primitivos brasileiros, a Lua recebe o nome de Jaci (mãe dos vegetais). A Lua, entre os nossos índios, era o lugar destinado à morada e descanso eterno das almas dos seus finados, e eclipse desse astro, um sinal de indignação das mesmas almas causado por algum crime cometido por eles (Pereira da Costa, Folk- Lore Pernambucano). A Lua recebia nomes diferentes conforme a sua fase: A Lua nova é Catiti e a cheia Cairé. Parecendo, como pensava Couto de Magalhães (1975), que os índios consideravam cada fase da Lua como um astro distinto. O que não resta dúvida é que eram distintos os atributos, e particulares as saudações que lhe dirigiam ao seu aparecimento no espaço, sob essa ou aquela forma. Em reverência a esse culto traziam os índios e outros povos, pendentes do pescoço, entre outros objetos ornamentais, o seu jaci, isto é, um semicírculo de osso alvíssimo e polido representando a Lua sobre essa forma. Esse semicírculo também é usado por muitos povos como um amuleto que dá proteção. Na mitologia Hindu, a Lua é tida como fonte de inspiração e princípio de vida, sendo conhecida sob o nome de Soma – que é, também, o nome de uma planta usada nos sacrifícios. O líquido obtido dessa planta é o “néctar dourado, a bebida dos deuses, a preciosa ambrosia que simboliza a imortalidade”. Os mitos representam Soma (que possui atributos masculinos) de várias maneiras: ora é um gigante das águas, ora, um embrião, as vezes um rei das plantas ou um touro celeste. Soma tem como esposas, vinte e sete constelações que são filhas de Dakcha, outra personagem importante da legenda hindu. A forma da Lua, durante o crescente, simboliza a taça sagrada por onde deuses bebem a eternidade.

No livro dos Vedas a Lua é considerada a avó do fogo antes de sua masculinização como Soma. A véspera da Lua Cheia é denominada Anumati, ou seja, A Propícia. Quando cheia, toma o nome de Raka, palavra que significa Esplêndida. Os Babilônios e assírios adoravam uma trindade composta pelos deuses Sin -Samas-Istar, o deus da Lua ocupando o primeiro lugar (Sin). Em Ur, era adorada sob o nome de Nannar, um velho de longas barbas azuis e cabeça coberta por um turbante. Sua esposa chamava-se Ningal, a grande Dama. Samas ou Samash (O Sol) e Istar (o planeta Vênus), eram seus filhos. Todas as noites “Nannar” tomava de sua barca e navegava pelo céu estrelado.

Na legenda japonesa a Lua surgiu do olho direito de Izanagi, marido de Izanami “os que convidam”, deuses primevos. Esse casal deu origem aos deuses do mar, dos ventos, das arvores, das montanhas e do fogo. Diz-se que o fogo provocou a morte de Izanami, que desceu ao país profundo. Izanami procurou destruir o fogo, mas cada pedaço se transformava em um novo fogo. Resolveu, então, descer ao país profundo em busca da esposa, mas ela não mais poderia regressar ao mundo superior, pois havia provado alimentos do mundo subterrâneo. As coisas se sucedem, então, da mesma forma que encontramos no mito grego de Orfeu, inspirado, certamente, pela lenda do casal japonês (Azevedo, 1962). Na tradição cabalística ela é Lavanah (luz da Lua), responsável pelas marés e associada com a árvore da vida que é chamada Yesod.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove − dezessete =

ao topo