A Hollywood de Cronenberg, entre a cartografia e o bestiário

Por José Geraldo Couto
BLOG DO IMS

“Não quero mudar para Hollywood, não quero que meus filhos cresçam lá. O sistema de valores em Hollywood é muito estranho”, declarou David Cronenberg numa entrevista de 1999. Mapas para as estrelas, de certo modo, é a demonstração cabal dessa declaração.

Cronenberg, como se sabe, sempre se interessou pela anomalia, pela disfunção, pela doença, não tanto “como metáfora”, mas como fato essencial da vida contemporânea. Mapas para as estrelas transfere essa sua preocupação – para não dizer fascínio – ao coração da indústria do cinema. A Hollywood que surge nesse retrato cruel é um concentrado de distúrbios (físicos, psíquicos, morais) que interagem uns sobre os outros numa espiral quase apocalíptica.

A narrativa entrelaça habilmente as histórias de personagens de várias gerações, de um mimado, egocêntrico e drogado ator mirim (Evan Bird) a uma atriz de meia-idade (Julianne Moore), igualmente drogada, que ainda espera pela oportunidade de brilhar no “papel da sua vida”. Entre um e outra, um terapeuta de celebridades (John Cusack) que mistura psicodrama, autoajuda e uma vaga filosofia oriental, um motorista de limusine (Robert Pattinson) com aspirações a ator e roteirista e mais uma variada fauna de starlets, agentes, tietes, assistentes, traficantes etc.

A crônica de Hollywood, desde os tempos do cinema mudo, é repleta de histórias escabrosas de incesto, assassinato, suicídio, excesso de álcool e drogas, esquisitices de toda espécie. Alguns desses episódios reais acabaram nas telas: o assassinato do amante mafioso de Lana Turner pela filha adolescente desta foi aproveitado por Woody Allen na trama de Setembro, a relação tirânica de Joan Crawford com a filha virou a série Mamãezinha querida etc.

Reality show permanente

Uma dessas lavações de roupa suja foi feita por Carrie Fisher, a princesa Leia de Guerra nas estrelas, no livro Postcards from the edge, que narra em forma de ficção sua descida ao inferno das drogas e a difícil convivência com a mãe dominadora, a atriz Debbie Reynolds. O livro foi transformado por Mike Nichols no filme Lembranças de Hollywood, com roteiro da própria autora.

Pois bem: em Mapas para as estrelas uma irreconhecível Carrie Fisher faz o papel de si mesma. É um toque perturbador de Cronenberg, que a todo momento mistura no filme referências a personagens e histórias reais (de Drew Barrymoore, Robert Downey Jr. etc), borrando a fronteira entre ficção e crônica social, entre noticia e fofoca. O efeito geral é o de um imenso e incessante reality show.

Cena de Mapas para as estrelas

Em alguns aspectos (o narcisismo e o culto à celebridade elevados a um patamar insano) o filme dialoga com Bling ring (2013), de Sofia Coppola. Em outros (os delírios da aspiração ao estrelato), com Cidade dos sonhos (2001), de David Lynch. Mas há ecos de vários filmes do próprio Cronenberg, como Crash (o erotismo perverso da deformação física) e Cosmópolis (a inversão da posição de Pattinson, de conduzido a condutor de limusine).

O que impede Mapas para as estrelas de ser um mero bestiário descritivo, um inventário de bizarrices, é o fato de permitir que cada personagem importante se defronte (literalmente) com seus fantasmas pessoais. Sua bússola é uma consistente construção dramática, que gira em torno do tema do incesto e do jogo entre fogo e água, usando como intrigante leitmotiv os versos do poema Liberdade, de Paul Éluard.

O mapa traçado por essa implacável cartografia não aponta para as estrelas, não configura uma constelação, mas um planeta que saiu do eixo, que gira em falso, que erra no espaço sabe-se lá para onde.

Noites brancas

Num registro inteiramente diferente, mais modesto, sem deixar de ser interessante, acaba de entrar em cartaz Noites brancas no píer, do cineasta corso Paul Vecchiali, que transfere para o sul da França, nos dias de hoje, a trama do conto Noites brancas, de Dostoiévski, que já havia sido levado às telas, entre outros, por Luchino Visconti (em 1957) e Robert Bresson (em 1971).

Aqui, o personagem masculino, que no conto é o narrador sem nome, chama-se Fédor (Pascal Cervo), em evidente referência ao escritor russo. Certa noite, num píer deserto, ele encontra Natasha (Astrid Adverbe) que lhe fala do homem por quem se apaixonou e que prometeu voltar para ela. Ao longo de quatro noites, Fédor e Natasha se reencontram no mesmo local, desenvolvendo uma relação ambígua, entre a amizade e o amor, cujo desenlace não cabe antecipar aqui, mas que é semelhante ao do conto.

Narrativa mínima

Vecchiali como que radicaliza o enredo já escasso do conto, feito mais de alusões e possibilidades do que de eventos concretos, e constrói uma narrativa despojada, concentrada num cenário mínimo, em que tudo depende dos diálogos entrecortados, da escassa luz e do jogo cênico entre os atores. A vasta escuridão que os rodeia é fundamental para a atmosfera desse drama de amor em potência, semelhante ao da novela A fera na selva, de Henry James.
Na transposição da história para nossa época, o diretor aproveitou sagazmente as possibilidades do telefone celular e do iPod para ampliar o alcance da encenação. Um filme curioso, que comprova a possibilidade de apostar na imaginação com um mínimo de recursos. Algo a ter em mente quando se observam os orçamentos absurdos de certos filmes brasileiros contemporâneos.

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