Hollywood, televisão, editores.

O sistema de produção cinematográfica de Hollywood tem características claramente industriais. O objetivo dele é gerar produtos altamente lucrativos. Se forem obras de arte, não atrapalharão o lucro mas isso é profundamente secundário. Outras indústrias nacionais de cinema adotaram modelos similares – Europa, França e Bahia.

Apesar disso, Hollywood e seus congêneres noutros países abrigaram uma arte cinematográfica: John Ford, Alfred Hitchcock, Charles Chaplin, Luchino Visconti, Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni, Jean Renoir, Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa… Mas até esses grandes diretores enfrentaram dificuldades diante de produtores arrogantes – O personagem de Jack Palance no filme “O desprezo”, de Godard, fala didaticamente sobre o poder do talão de cheques. E o cinema de Hollywood e suas sucursais mudaram muito a partir das Guerras nas estrelas: a venda de subprodutos dos filmes é mais lucrativa que os filmes!

Na televisão, o mercado manda de maneira ainda mais imediata, com a presença ostensiva da propaganda até em narrativas ficcionais – a personagem que louva a qualidade do cimento x, vendido em sua loja. Ainda assim – mais raramente que no cinema -, há breves momentos de artes: certos desempenhos de atores, certas produções musicais, certas direções.

Editores de livros querem uma industrialização em seu setor similar a cinema e televisão. Os escritores não têm poder para desinventarem a indústria. O perigo é se sentirem no céu quando vendem e se negarem (ou serem negados pelos outros) como escritores quando não vendem.

Fernando Monteiro apontou questões muito preocupantes no campo literário submetido ao mercado, destacando-se o risco de se confundir Literatura com passatempo de celebridade. O problema vem de longe: Bruna Lombardi, Chico Anísio, Jô Soares… Anunciaram Vera Fisher para breve, outros autores semelhantes virão.

Não se deve proibir ninguém de escrever nem de publicar – principalmente, os escritores propriamente ditos. O problema é reduzir a arte da escrita ao que aquelas celebridades lançam, com grande apoio mercadológico e silêncio sepulcral sobre escritores que… apenas escrevem. Pior: é como se celebridades estivessem acima da crítica – por sinal, cadê a crítica?

Quando Fisher diz que só escreve sobre ricos, lembro de “Morte em Veneza” e “O Grande Gatsby”: os ricos, quando personagens de escritores reais (Thomas Mann e Scott Fitzgerald), viram o mundo, trazem junto pobres, remediados e tudo mais. Aliás, expõem a miséria da riqueza, não são suportes idiotas para o deslumbramento tolo dos não-ricos.

Não teremos poder para impedir editores de lançarem e priorizarem (quando não exclusivizarem) escritores fake. Nosso poder é apenas o de escrever Literatura, que não dependa da chancela monopolizadora do mercado. E com esperança em algum renascimento da crítica que dê nomes aos bois: escritor é uma coisa, ficções de editores para mercado são outra coisa. Fora de nossa escrita, não há solução para nós.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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