O Homem Duplicado

Em “O Homem Duplicado”, José Saramago explora a crise de identidade de Tertuliano Máximo Afonso, um pacato professor de História de Lisboa.

Tertuliano, a certa altura, descobre que existe um homem no mundo com um corpo idêntico ao seu, o ator de cinema, porém não muito conhecido, António Claro.

Essa descoberta cria entre ambos uma perigosa relação de rivalidade a partir da premissa de que o mundo, e particularmente a cidade de Lisboa, não contém em si a possibilidade de abrigar esses homens com aparências completamente iguais, uma semelhança presente até nas cicatrizes do corpo.

Leia artigo “As Palavras de Saramago”, de Manoel Onofre Jr.

Creio que a obra relata a experiência surpreendente de não se perceber único, de ver-se subitamente tolhido em sua individualidade, característica extremamente cultuada em nossa cultura ocidental.

Pessoalmente, o que me encanta nos livros de Saramago é a sua ironia acurada, refinada, com o potencial de nos despertar, nas entrelinhas, para as mazelas que nos habitam.

A propósito, imagino que a ficção inusitada típica do autor, quase distópica, é uma forma de contraditoriamente esmiuçar a nossa realidade.

Livro é ambientado em Lisboa

Contraste poderoso

Em O homem duplicado, essa tarefa é exercida principalmente pelo Senso Comum, uma espécie de consciência sarcástica de Tertuliano Máximo Afonso e um personagem constante em muitos diálogos.

Destaco, ainda, duas personagens femininas importantes: Maria da Paz e Helena, namorada de Tertuliano e esposa de António Claro, respectivamente.

Essas mulheres acabam sendo vítimas do jogo de rivalidade entre os dois sósias, porque, na verdade, essa crise de identidade mostra-se subitamente masculina, de forma que Maria da Paz e Helena são um contraste poderoso para o completo entendimento da obra.

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