Homens Imprudentemente Poéticos

Fotografia: Octávio Passos

Valter Hugo Mãe, neste livro, encanta-nos com o olhar poético sobre o Japão antigo. Com a linguagem lírica que lhe é peculiar, sou da opinião, após ter lido alguns livros do autor, que esta é sua obra-prima, lugar onde ele atinge a mais refinada beleza em sua escrita.

A narrativa circunda o artesão Itaro e o oleiro Saburo, dois homens que se odeiam e de personalidades completamente opostas.

O primeiro é mergulhado em pragmatismo e se tolhe quanto à beleza e à ternura do mundo; o segundo, por sua vez, acredita que a razão de permanecer vivo é dar sentido às coisas através do belo.

Leia entrevista com Valter Hugo Mãe

O tempo acompanha essa relação de paradoxos desvendando, como é próprio de Hugo Mãe, as vicissitudes humanas, recheadas de delicadeza e sutilezas poéticas.

O cenário é extremamente bucólico, uma pequena comunidade no Japão ao pé de uma floresta labiríntica onde as pessoas se destinam para o suicídio ou, caso desistam dele, para a meditação sobre as próprias vidas. Podemos refletir, assim, sobre a morte e sua semântica, algo que me emocionou muito.

Representação da intangibilidade

Livro traz temas como a morte e do suicídio, em um contexto distinto ao do ocidente.

Destaco ainda outras duas importantes personagens do livro: a criada Kame, que simboliza a subserviência e o amor sem questionamentos, e a menina Matsu, irmã de Itaro, cuja cegueira é, na verdade, a representação da intangibilidade.

Os territórios mais bonitos são aqueles que podemos fantasiar, só através da imaginação Matsu acredita que salvaria as pessoas, que “sossegaria o corpo do mundo”.

Matsu escolhe as palavras “como se mudasse a realidade segundo o modo de dizer”. É sem dúvidas a figura mais cativante da história.

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Uma pena que a obra acabe, pois, citando um trecho seu, a memória é incapaz de guardar algo com que nos deslumbramos pela primeira vez: “queria que as imagens se capturassem sem devolução, sem empréstimo, mas o exercício dos olhos era vazio. Tinha nenhum recipiente, nenhuma reserva. Sem tangibilidade, ver humilhava a memória, que nunca recuperaria a completude de coisa alguma”.

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