Horror onírico

Cena de It Follows (2014) com um jogo de luz que lembra Suspiria (1977

Por Antônio Xerxenesky
BLOG DO IMS

Um dos textos mais incompreensíveis de Roberto Bolaño encontra-se no pouco lido El secreto del mal, coletânea póstuma de contos feita a partir de uma garimpagem na pasta Meus Documentos do autor chileno morto em 2003. Nela, destaca-se “El hijo del coronel”, vendido como um “conto”, como ficção. O narrador inicia o texto dizendo que assistiu de madrugada a um filme de terror com zumbis do qual não se lembra o nome, mas que tem certeza de que a trama era a história de sua vida e que assistir ao filme foi uma experiência catártica. Todo o resto do “conto” é a descrição, sem firulas poéticas, do que acontece, quase cena a cena, no filme. Li “El hijo del coronel” logo que o livro saiu e o interpretei como uma ficção bastante interessante e curiosa. Graças às maravilhas da internet e ao povo extremamente nerd que habita nosso mundo, descobri recentemente que o texto pouco tem de ficção – o filme descrito de fato existe. Trata-se de A volta dos mortos vivos 3, dirigido por Brian Yuzna, bastante conhecido do pessoal do terror pelas suas adaptações de H. P. Lovecraft.

Aí que a coisa fica interessante: o “conto” de Bolaño descreve com muita fidelidade tudo o que acontece no filme – quer dizer, levando em conta que ele assistiu a ele de madrugada, jogado na poltrona, semiadormecido, com um copo de vinho na mão (essa é a cena que imagino). O filme, no entanto, nada tem de especial. Entre os filmes de zumbi, está longe do panteão criado por Romero e Fulci. O roteiro é estrambótico e estúpido. E, no entanto, por que Bolaño se prestou a descrever o filme cena a cena, num estilo seco, e escreveu que o filme é quase a sua autobiografia?

Estudo o autor chileno há muitos anos, conheço em detalhes sua biografia, e não consigo ver um só ponto de contato entre a vida de um autor exilado e “realista” e um filme cheio de explosões e mortos-vivos, o que torna o texto ainda mais interessante (e talvez mais próximo da ficção do que de um texto pessoal escrito quase como uma entrada de diário).

A resposta para esse questionamento provavelmente não será encontrada investigando mais detidamente a vida de Bolaño ou a trama do filme de Yuzna, e sim refletindo um pouco mais no que é a essência do cinema de terror – a lógica do sonho.

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Espero que muitos concordarão comigo quando afirmo que o cinema de terror atual é fraquíssimo, tirando exceções aqui e acolá, geralmente vindas do oriente. O terror mainstream, em especial, está em estado de desgraça – me parece difícil imaginar um novo O bebê de Rosemary ou O exorcista, filmes de gênero que alcançaram um público que não era de nicho e se tornaram marcos culturais. De certa forma, os filmes norte-americanos de horror mais interessantes são justamente aqueles que acreditam que o futuro do gênero está no passado: Invocação do mal, empolgante filme sobre possessão demoníaca, é uma grande homenagem à maneira de filmar dos anos 1970; The House of The Devil, de Ti West, é uma sutil celebração dos filmes mais silenciosos e lentos de terror das décadas de 1970 e 1980. Ainda podemos pensar em vários outros exemplos que tentam um retorno à era de ouro – basta pensar na produção do casal francês Bruno Forzani e Hélène Cattet, que em Amer e A estranha cor das lágrimas do seu corpo recriam os coloridos giallos, o terror italiano altamente estetizado de Dario Argento e Sergio Martino. A nostalgia não fica só na imagem: várias produções atuais usam uma trilha sonora feita com sintetizadores (muitas vezes analógicos), à moda de John Carpenter.

É nesse cenário que duas obras de 2014 se destacaram entre a crítica: Babadook, filme australiano da cineasta Jennifer Kent disponível no Netflix, e It Follows (que recebeu o pavoroso título em português de Corrente do mal), do americano David Robert Mitchell, ainda inédito no país. Não falarei sobre o primeiro, que me desagradou por ser totalmente montado em cima de uma alegoria. Assim que o espectador entende do que o filme realmente se trata, que desvenda a metáfora – algo que pode ocorrer aos 30 minutos de projeção -, Babadook deixa de ser assustador, por melhor que seja a atuação da protagonista.

It Follows, por outro lado, rejeita o sistema alegórico. Enquanto Babadook tem uma explicação racional para os montros, em It Follows, o “it” do título que persegue os protagonistas não pode ser facilmente descrito e não é explicado no decorrer do longa-metragem. Resumindo a trama, sem spoilers: uma adolescente, após fazer sexo com um rapaz, descobre que foi contaminada com uma maldição. Uma pessoa que só ela enxerga a perseguirá o tempo todo e ela nunca mais terá um momento de paz. Se ela fizer sexo com outra pessoa, passará adiante a maldição, mas não estará livre dela. A princípio, trata-se da recorrente metáfora da DST, marco do cinema de Cronenberg e um diálogo com slashers da linha de Sexta-feira 13, nos quais adolescentes que fazem sexo tem uma tendência muito maior a sofrer uma morte brutal, mas assistindo a It Follows fica claro que estamos diante de algo muito diferente.
O filme de Mitchell tem seu fator nostalgia, sim, a começar pela trilha feita com sintetizadores, composta por Disasterpeace (mais conhecido entre os entusiastas de videogames por ter criado a música de Fez). A trama parece, nos primeiros momentos, ser situada num idílico anos 1980, mas a situação logo fica confusa: objetos de todas as épocas começam a aparecer: a televisão antiga divide o espaço com um e-reader em formato de concha (algo vindo do futuro) no qual uma personagem constantemente lê O idiota, de Dostoievski. Essa mescla de épocas lembra Ubik, um dos romances mais conhecidos de Philip K. Dick no qual os personagens notam que algo estranho está acontecendo quando percebem objetos regredindo no tempo e várias épocas coexistindo no mesmo espaço, algo que só pode ser corrigido com um “spray de realidade”. Em It Follows, a incoerência temporal acrescenta mais um fator de estranheza a um filme que gira em torno justo disso – de uma lógica (a perseguição de um ser desconhecido inescapável) que não faz sentido em termos conscientes e, no entanto, é implacável. A trama não se pretende realista, nem tenta convencer o espectador de que aquilo é possível (afinal, como podem adolescentes passar tanto tempo junto sem adultos aparecerem ou sem ir ao colégio?). E, no entanto, não mergulha de cabeça no fantástico, cedendo a um vale-tudo, o que certamente tiraria muitas camadas de pavor da obra.

Nesse sentido, It Follows não homenageia, mas descende de um tipo de terror que pode ser classificado de atmosférico. Lembro-me de quando assisti pela primeira vez a A mansão do inferno, de Dario Argento, filme impressionista de cores vibrantes cujo roteiro faz tanto sentido quanto um sonho esquisito que você tenta remontar na manhã seguinte. O filme de Argento, assim como a sua obra-prima Suspiria, apresenta uma lógica interna muito própria: possui o tipo de roteiro que seria vetado em qualquer curso na área. Argento leva ao extremo uma estetização do cinema: todos os cenários são lindos, todos os prédios têm uma arquitetura incomum, cada plano é um deslumbre, cada cor é pensada. O sangue não é vermelho, mas levemente alaranjado. A sensação provocada é de adentrar um mundo que poderia ser o nosso, mas não é; sabemos disso, mas estamos presos dentro dele, e precisamos aprender suas regras, que não são as terrenas. Assisti-lo de madrugada, sonolento, sozinho, pareceu ter me oferecido uma revelação sobre minha vida que eu não era capaz de nomear. Como um sonho compartilhado.
It Follows não tem a grandiosidade operática de um Argento, preferindo cores mais desbotadas e uma direção menos histriônica, mas é seu descendente por insistir num terror de ambientação, de clima, de estranheza. E são filmes como esse que parecem justificar a existência de um texto como “El hijo del coronel”, que descrevem a experiência de se deixar levar por um filme atmosférico em uma situação em que nos encontramos entre a vigília e o sono. Roberto Bolaño não soube explicar porque aquele filme de zumbis cujo título nem era capaz de lembrar foi tão marcante para ele, pareceu descrever a sua vida, ou seja, pareceu tão íntimo. Talvez tenha algo que ver com a lógica onírica e o fato de que nos sonhos muitos de nós temos os mesmos medos.

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