Houellebecq parece questionar se Islã é compatível com valores republicanos

Por Rachel Donadio
DO “NEW YORK TIMES”, EM PARIS
NA FSP

Michel Houellebecq estava sentado de pernas cruzadas em uma cadeira no escritório de sua editora, em Paris, fumando sem parar e rejeitando desdenhosamente as críticas de que “Submission” (submissão), seu mais recente romance, é anti-islâmico ou pelo menos crítico com relação ao Islã. “Não ligo a mínima, para ser honesto”, disse Houellebecq, o mais conhecido entre os bad boys melancólicos da literatura francesa, soltando uma risadinha que se sobrepôs por breve momento seu jeito monótono de falar.

O Islã em si não o interessa, ele prosseguiu em uma recente entrevista, anterior ao lançamento de seu novo romance nos Estados Unidos, pela editora Farrar, Straus & Giroux, que aconteceu terça (13). “O que me interessa é o medo que ele cria, não seu conteúdo”, ele disse.

“Submission”, que se passa em 2022 e imagina a França sob seu primeiro presidente muçulmano, saiu na França em 7 de janeiro, o dia em que jihadistas assassinaram 12 pessoas no jornal satírico “Charlie Hebdo”, cuja capa naquela semana mostrava Houellebecq (pronuncia-se UÉL-bec) usando um chapéu de mágico, como que prevendo o futuro.

Desde então, ele vem recebendo proteção policial 24 horas por dia, um destino que, comenta o escritor secamente, “poderia ser pior”. Entre as vítimas estava um amigo dele, o economista Bernard Maris. “É a primeira vez que alguém que conheço morre por razões políticas”, ele acrescentou. Sobre o ataque à publicação, ele disse que “foi triste, mas não me surpreendeu”.

“Submission” se tornou best seller em toda a Europa, e parece ter pego os franceses na veia, com vendas de 650 mil cópias no país. Os críticos literários elogiaram o livro. As feministas condenaram a maneira pela qual ele descreve as mulheres (prostradas, em todos os sentidos da palavra, o que inclui a falta de resistência à imposição da lei islâmica, a sharia). A direita definiu o livro como presciente. A esquerda o chamou de um presente ao partido direitista Frente Nacional. O primeiro-ministro Manuel Valls denunciou a obra afirmando que “a França não é Michel Houellebecq. Não é intolerância, ódio, medo”. Em agosto, os dois principais jornais do país, “Le Figaro” e “Le Monde”, publicaram séries com cinco e seis artigos sobre ele.

Atenção assim intensa não parece provável nos Estados Unidos, onde a literatura de ficção e os programas políticos de rádio raramente convergem e onde os golpes do terrorismo – os ataques do 11 de setembro, as decapitações de norte-americanos pelo Estado Islâmico no Oriente Médio – não estão tão frescos na memória quanto o massacre no “Charlie Hebdo”, e não atingem o país de tão perto.

Nos Estados Unidos, é possível encarar “Submission” mais como o que o livro é: uma obra de ficção satírica. Por conta de toda a polêmica na França, “os franceses ainda não tiveram tempo de considerar o livro como trabalho de literatura”, diz Mark Lilla, professor de História na Universidade Colúmbia que resenhou o livro para o “New York Times”, em abril. “Estou curioso para ver como os leitores anglófonos responderão ao livro só como romance”.

Além de seus confrontos com o Islã, Houellebecq é mais conhecido por sua postura imperturbável, sua exploração dos danos colaterais causados pelo narcisismo dos anos 60 e sua sarcástica descrição da anomia francesa contemporânea. Durante três horas de entrevista em francês, tratando de temas como religião, política, literatura e sexo, ele muitas parecia estar interpretando uma paródia de si mesmo, como no pseudocumentário “O Sequestro de Michel Houellebecq”, de 2014. O escritor alternava entre cigarros Silk Cut, que ele mordia abaixo do filtro, e tragadas de cigarros eletrônicos. Em dado momento, um assistente perguntou se ele queria uma cerveja, mas Houellebecq recusou. (A maioria das entrevistas com ele envolvem diversas garrafas de álcool.)

Perguntado sobre o que representava a maior ameaça para a França atual, o islamismo radical, o anti-islamismo ou o antissemitismo, todos os quais estão florescendo, Houellebecq respondeu: “Depende de para quem”.

“O antissemitismo é uma derivação do islamismo radical”, ele disse, e são principalmente os islâmicos radicais que estão no ataque. “O anti-islamismo é uma reação defensiva, de medo, e uma reação justificada”.

Afirmações como essa fizeram do escritor o queridinho da direita francesa, mas “Submission” é menos apelo às armas ou profecia do que uma sutil reprimenda ao conformismo da classe média francesa. “Não é realidade, mas a visão francesa da realidade”, disse o romancista Marc Weitzmann, que como editor de literatura de uma influente revista semanal francesa ajudou Houellebecq a iniciar a carreira nos anos 90. “O verdadeiro tema dele é como os franceses pensam”.

Em “Submission”, o líder de um partido fictício, a Irmandade Muçulmana, se alia com os socialistas para derrotar a Frente Nacional, comandada no livro –e na realidade– por Marine Le Pen. O crime cai, a economia melhora. Chega a sharia, a poligamia se torna legal, e as mulheres são forçadas a usar véus e encorajadas a ficar em casa e ter bebês. A namorada judia do protagonista emigra para Israel.

O título do livro é um trocadilho com o significado literal da palavra “Islã”, e também sugere a docilidade com que a França aceita a nova ordem, em 2022. “Submission” é um romance de ideias, e as ideias em discussão são a de que a França e a Europa estão em declínio, e que o catolicismo está morrendo, se não já morto, mas o Islã está vivo; a posição do livro é que, depois da guerra fria, ninguém na França, exceto os muçulmanos, encontrou ideais políticos amplos em que acreditar.

Na sua resenha, o professor Lilla definiu o livro como um “romance distópico de conversão”. Em um momento crucial, François, o protagonista do livro, e um professor da Sorbonne visitam um templo católico na esperança de passar por uma experiência de conversão como a vivida por Joris-Karl Huysmans, o romancista francês do século 19 sobre o qual o personagem pesquisa, mas ele não sente coisa alguma.

“O Islã é mais fácil”, disse Houellebecq na entrevista. “Se você olha para uma igreja, especialmente para uma igreja romanesca, e contempla atentamente as estátuas, não compreende. Não compreende qual era a natureza daquela fé. É muito exótico. Parece mais exótico que o Islã, para nós”. No final do romance, François está se preparando para se converter ao islamismo, ainda que Houellebecq seja ambíguo quanto ao que ele de fato faz.

“Submission” parece questionar se o Islã é compatível com os valores republicanos franceses. Houellebecq considera que seja? “O catolicismo não é compatível com os valores republicanos franceses”, ele disse. “O catolicismo foi derrotado pela ideia republicana da França”. Hoje, ele diz, o Islã tem mais chance de fincar raízes na sociedade.

E o escritor não distingue entre o islamismo político e o islamismo mais amplo. “Não existe diferença”, ele disse. “O Islã é político porque prescreve como a sociedade deveria ser organizada”.

Para Houellebecq, o Islã é uma preocupação antiga. “Plataforma”, romance que ele publicou na França em 2001, trata do confronto entre o turismo sexual e o islamismo radical na Tailândia. Ele foi processado por difamação por quatro organizações islâmicas francesas, entre as quais uma importante mesquita de Paris, por uma entrevista de 2001 no qual ele definiu o islamismo como “a religião mais burra”. O escritor venceu os processos. Na entrevista, Houellebecq afirma que não lamenta sua escolha prévia de termos. “Fundamentalmente, não mudei de ideia”.

Houellebecq ganhou fama internacional com “As Partículas Elementares” (publicado em 2000 nos Estados Unidos), sobre dois irmãos, filhos de pais diferentes, cuja enérgica mãe os abandona com os avós e segue a vida. O livro, baseado na vida do escritor, foi visto como crítica severa à geração dos anos 60. (Ofendida pelo livro, a mãe dele escreveu um volume de memórias em resposta.)

A despeito da atenção que seus livros despertam na mídia e de suas provocações, Houellebecq é uma figura solitária no aconchegante mundo dos mandarins literários franceses. Mesmo assim, conquistou o maior prêmio literário do Paris, o Goncourt, por “O Mapa e o Território”, romance de 2010, que trata de um artista e emprega um truque engenhoso de trama para fazer do autor personagem.

Em “Submission” e seus demais romances, os protagonistas de Houellebecq são homens amortecidos que anseiam por sentimentos, descrentes que anseiam por fé. Há sexo explícito e sem alegria. A maioria das mulheres são mães ou amantes. É frequente que morram, o que oferece ao personagem principal entediado a oportunidade de experimentar sentimentos verdadeiros, até que esses sentimentos se dissipem. Em uma resenha venenosa sobre “Submission” para “Le Monde”, a romancista Christine Angot afirmou ter se sentido ofendida pelas descrições do autor sobre as mulheres e sua “secura vaginal”.

Para resumir, as mulheres de seus livros vão para a cama –e depois morrem. “Sim”, disse Houellebecq, fazendo uma breve pausa cômica… “como todos nós”. Essa visão da mulher é a do escritor ou a dos personagens? “É a maneira pela qual meus personagens veem as mulheres”, diz Houellebecq, duas vezes divorciado. “Não me envolvo muito”.

E depois ele partiu para a provocação. “A prostituição é uma boa ideia”, disse. Para quem? “Para todos”. Mas não se trata de uma forma de exploração da mulher? “Todo trabalho é exploração”, ele respondeu. Essa não é uma saída fácil? “Mas verdadeira”, ele afirmou. Portanto, ele recorre a prostitutas frequentemente? “Isso não é da sua conta”. A escolta policial certamente complica as coisas. “Não, não”, ele respondeu. A prostituição, acrescenta, “é uma das fundações da civilização ocidental – um corretivo para a monogamia”.

Com a ameaça constante do terrorismo, Houellebecq disse que jamais viveu momento mais perturbador na França. “A situação está piorando”, disse.

Mas não parecia preocupado demais. Era um belo começo de noite em Paris. Dois policiais à paisana o acompanharam na saída do escritório. Ele pendurou a mochila no ombro. Está trabalhando em um novo romance? “Não”, ele respondeu. “Estou cansado”. Durante toda a tarde, ele interpretou com perfeição o papel de Michel Houellebecq.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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