hugo mãe é aplaudido de pé ao ler carta sobre relação com o Brasil

Por Fabio Victor e Roberto Kaz
FSP
ENVIADOS ESPECIAIS A PARATY

O português valter hugo mãe e a argentina Pola Oloixarac falaram, na Festa Literária Internacional de Paraty, sobre o peso de escrever em países com grande tradição literária.

hugo mãe comoveu a plateia da Flip em Paraty ao ler um texto, segundo ele escrito hoje pela manhã, sobre sua relação de encanto e admiração pelo Brasil.

O escritor contou como o contato com vizinhos brasileiros na infância em Portugal estimulou essa relação em seu imaginário. “Foram os primeiros brasileiros que vi fora da TV.”

O garoto teve privilégios (como brincar de médico com uma menina) apenas por conhecer os brasileiros, muito queridos na vizinhança.

Depois, mãe relatou a descoberta da música brasileira. “Eu achava que Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do ‘Tempo Perdido’.”

Terminou agradecendo ao Brasil por poder estar na Flip. Foi aplaudido de pé, e uma fila formou-se ao fim do debate para cumprimentá-lo.

Pola também falou de como se relaciona com o país. “Os argentinos idealizamos muito o Brasil, é como um lugar de fantasia e que de alguma maneira condensa uma ideia de felicidade.”

A escritora disse que a literatura é um tipo de terrorismo. “Em termos de certo poder de imaginação, é uma espécie de terrorismo especial.”

A conversa, mediada por Angél Gurría-Qunitana, ocorreu hoje, às 12h, na Tenda dos Autores. Foi pedido a hugo mãe (cujo nome se escreve em minúsculas), autor de “máquina de fazer espanhóis”, e a Pola, que publicou “As Teorias Selvagens”, que falassem sobre ícones da literatura de seus países.

O português diz ter sentido, por muito tempo, assim como “vários escritores lusos”, o peso de ser “um heterônimo de Fernando Pessoa”. “Precisamos criar nosso espaço para que façamos o nosso percurso”, disse.

Pola disse que “a tradição literária argentina é de uma literatura de ideias, e, por isso, aberta à experimentação”. Completou: “Jorge Luis Borges e Julio Cortázar são vozes amigas, não me oprimem”.

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Leia a íntegra do texto lido por valter hugo mãe hoje na Flip:

“Quando eu tinha uns 8 anos, veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.

Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam avidamente saber quem casava com quem na Gabriela.

A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.

A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.

As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, faziam vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.

Um dia a minha irmã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de midas que me transformava num menino de ouro.

Aos dezoioto anos, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.

Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido, pois aqui estou, a FLIP fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso.”

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 10 de julho de 2011 17:44

    valter tem quase quarenta anos? Nasceu na década de 70? Tempos de Médici, fins do salazarismo, namorico interditaduras, um pouco depois?
    Tenho uma grave deficiência geracional: nunca gostei de Renato Russo.
    Mas deve ser mau humor meu. Tudo é tão lindo em Paraty! Foi a primeira cidade onde encontrei uma chachaçaria – não tomo cachaça.
    Agora, a cidade tardo-monarquista não deixa de ser, durante a FLIP, um cenário de sonho para pequenos talentos e grandes negócios.
    Enfim, Mozart compôs aquilo tudo como músico de corte, Velásquez pintou aquilo tudo como pintor de corte. Ser de corte não impede o gênio embora a maioria dos compositores, pintores e poetas de corte fiquem muito aquém de Mozart e Velásquez.
    Será que valter já atingiu essas culminâncias, Maria de Lourdes?

  2. Maria de Lourdes Lima 10 de julho de 2011 16:26

    O texto de “valter hugo mãe hoje na Flip” é valido pela narrativa autobiográfica de vivências em espaços de fronteiras: ontem brasil, hoje portugal e vice versa. Onde portugal, brasil de latino e saxônica américa e itália se misturam numa sínTese que vai da culinária ao rock brasileiro, passando pela literatura em terras de Parati. Deixando à margem comentários histriônicos, as confissões de valter hugo mãe encontram acolhida e fruição.

  3. Marcos Silva 9 de julho de 2011 14:08

    A bolsa de valores recomenda especialmente dois endereços: casa folha e shopping cia. das letras.

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