Humanos é que não somos

Por François Silvestre

Há muito tempo me convenci de que não somos a humanidade. Pelo menos, não somos a humanidade definida por filósofos, poetas e revolucionários. Pré-humanos é o que somos.

Não somos a humanidade sobre a qual se debruçou o pensamento clássico da Grécia. Nem sobre a qual teorizou a filosofia do tomismo, a imaginar a graça da salvação pela purgação da cruz.

Mesmo convencidos de que a barbárie da própria cruz já sinalizara para a impossibilidade de ser aquela uma ação humana. E o que é pior, transformando um instrumento de tortura no símbolo da aliança com o Deus das suas crenças. O sadomasoquismo que a própria Via Crucis tão bem representa.

Era como se torturados do Brasil, da última Ditadura, pendurassem na parede de sua casa desenhos ou esculturas do “pau-de-arara”, como símbolos da igualdade social ou da libertação política.

Mas não fica por aí. Na outra aba do hebraísmo, os seguidores de Maomé fazem dessa prática do flagelo humano uma regra de vida e de violência. Onde o que menos importa é a própria vida e menos ainda a liberdade. Até por que é da natureza pré-humana o alimentar-se da intolerância.

Como na física, liberdade e intolerância não ocupam o mesmo espaço.

Caminhando mais ao Oriente veremos que nem as culturas mais que milenares escapam dessa classificação. A tortura chinesa, a autoflagelação japonesa, a estupidez norte-coreana. A tolerância ocupa espaço apertado nas exceções.

Até o decantado budismo tibetano, que nos comove por seu êxodo, fruto da intolerância, nunca foi tolerante. Pelo menos no trato com os cidadãos “não abençoados”, que se obrigavam a ingerir as fezes do Dalai Lama, por serem elas “santificadas”. E em sendo santificadas não poderiam ter o esgoto como destino.

Qual a diferença dos animais “irracionais” para nós que nos qualificamos “racionais”, quando eles demarcam seus territórios com a urina e nós fazemos a demarcação com muros, bombas, guerras e repressão? Qual a diferença?

Qual orangotango impede outro orangotango de entrar no seu território, limitado pelo mijo, matando o filhote indefeso do orangotango invasor? Qual predador da selva, saciado ou não agredido, mata uma presa? Nenhum.

A Europa “civilizada” formou-se sob o signo da barbárie. Inicialmente no limite das suas fronteiras.

Depois, ao sentir o gosto do sangue das conquistas internas, partiu para empanzinar o mundo novo, ainda puro, com a insaciedade e a volúpia da brutalidade.

Agora, tardiamente, começa a pagar o preço do seu exemplo histórico. O Brasil foi vítima e algoz dessa barbárie; conhece bem o resultado. Rebotalho do nosso passado. A oferecer “abrigo” à África, migrante contra a vontade, para escravizar aqui seus filhos degredados e degradados.

Somos humanos? Prefiro os orangotangos. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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