Idade para ficção

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

Uma coisa me intriga há muitos anos: por que escritores, à medida que envelhecem, leem menos romances e mais livros de não-ficção? Chefs passam a cozinhar só para os outros, enquanto em casa se alimentam de comida congelada? Músicos desistem de escutar álbuns — tanto os clássicos quanto os recém saídos do forno —, mas seguem interessados em dedilhar suas guitarras? Não me parece ser o caso. O que então poderia haver de específico nas obras literárias que, após algumas décadas entre pilhas de romances, seus próprios produtores ficam cansados deles? Será que precisamos mais da ficção quando ainda somos jovens, e a meia-idade por sua vez pede a concretude da ciência e dos livros de História? Toda a ficção, no fim das contas, é imatura? (ok, essa última foi só para causar tumulto)

Talvez alguns lembrem de uma matéria sobre Philip Roth publicada no Financial Times no ano passado, na qual o grande escritor americano afirmava: “Eu parei completamente de ler ficção. Leio outras coisas: História, biografias. Não me interesso por ficção como antes”. Em 2009, Philip Roth já dizia que o destino do romance era acabar. Puxa, isso causou um rebuliço e tanto no meio literário, a ponto de Paul Auster gravar um vídeo (em 2011) argumentando por que Roth estava errado.

Mas não foi só Philip Roth quem disse que já não lia romances como antes; o próprio Auster confessou a mesmíssima coisa quando perguntado sobre seus hábitos de leitura no Salon du Livre de Paris, em 2010. Eu estava lá. Eu vi Auster falar num francês engraçado, em uma mesa que contava também com a presença de Enrique Vila-Matas e Emmanuel Carrère.

Eis o que Carrère disse sobre o assunto (você pode ver o vídeo aqui):

Eu me lembro, quando eu era mais jovem, via pessoas com a idade que eu tenho agora ou um pouco mais que diziam, sim, eu leio menos romances, eu leio mais memórias, cartas, diários, coisas desse tipo, e eu dizia, meu Deus, não faça com que eu fique assim! Mas no fim das contas é o que está acontecendo, eu me sinto menos atraído pela ficção do que me sentia antes.

E, na sequência, Auster:

Eu tive a mesma experiência quando era jovem. Os escritores mais velhos diziam, eu não leio mais, não me interessa mais, e eu tive o mesmo choque que você descreveu; e agora que eu sou um velho, eu leio muito menos ficção que no passado. E eu acho que é porque, quando somos jovens, nós estamos procurando alguma coisa, nós estamos nos formando, então cada livro que lemos é uma experiência essencial para nos encontrarmos. Mas, depois de uma certa idade, nós somos o que somos, e sabemos muito bem que, mesmo se lermos o romance mais brilhante do mundo, isso não vai nos transformar como escritores. E eu acho que… a História, eu leio muita História, isso me alimenta. Como romancistas, vivemos em um mundo imaginário durante o dia inteiro, então faz bem ler coisas sobre a realidade (…).

Nessa semana, o escrito gaúcho Sergio Faraco foi sabatinado pelo jornal Rascunho, e lá estavam os fatos históricos mais uma vez desbancando as ideias romanescas:

Rascunho – Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?

Faraco – Nenhuma, exceto o jornal. Livros, leio mais os históricos do que os de ficção, mas se não estou lendo nada não me faz muita falta, aproveito o tempo para cuidar do meu jardim.

Eu já me interesso um bocado por jardinagem (regar, adubar, controlar as pragas, observar os novos ramos, observar os botões e a movimentação de insetos e aves, etc etc). Estarei no mesmo caminho? Estaremos todos? Aceito palpites e, sobretudo, explicações. Adoraria entender por que, daqui a vinte anos, um pé de manjericão me parecerá mais atraente que Madame Bovary.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

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