Ideologia é coisa de subalterno

Os líderes não tem ideologia. O que os mantém é a preservação dos interesses, seus e dos seus, para a conquista e manutenção do poder. Só. Essa coisa de fidelidade ideológica, de ser só de um lado, é própria dos eleitores ou fanáticos. Os que comandam não guardam rancores, preservam interesses. A mim não causa qualquer surpresa ver Agripino Maia, Wilma de Faria, Henrique Alves, Carlos Eduardo, Garibaldi Filho no mesmo palanque. Se qualquer deles tivesse decidido votar em Fátima Bezerra para Senadora, ela estaria com o apoiante no mesmo palanque. Ou há alguma afinidade ideológica entre Fátima Bezerra e Robinson Faria? Nenhuma e todas. Nenhuma do ponto de vista da coerência e todas do ponto de vista da prática. O Deputado José Dias perguntou a Henrique Alves onde ele morava, que não conhecia o Rio Grande do Norte. Eu pergunto ao deputado: Onde V. Excia. morava que não conhecia Henrique, Aluízio, Agnelo, Garibaldi? Todos seus parente afins e líderes por toda a vida. Somos o que é o Brasil, numa miniatura caricata. E o Brasil é uma país sem caráter político. Sua geografia derrama-se numa história de fantoches contada nos grupos escolares, que nunca escolarizaram. E eram melhores do que os de hoje, que além de não educarem ainda formam bandidos e corruptos. O resto rumina a ideologia do vazio. Vamos pra onde? Maracangalha não nos quer!

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 16 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 4 de junho de 2014 14:03

    Conversar é sempre necessario, tenho muito que aprender com você.
    Talvez porque eu seja mais velho que você, sinto necessidade daqueles clássicos. Morus e Maquiavel são tão importantes quanto Shakespeare e Dante.

  2. Anchieta Rolim 4 de junho de 2014 11:45

    Meu amigo Marcos Silva, todos os líderes que se dizem comunistas e/ou socialista, são na verdade mais capitalistas que os “BANQUEIROS”. E o povo que se dane. Não precisamos de Thomas Morus e muito menos de Maquiavel. Precisamos de nós mesmos. Não são só os EUA que são capitalistas. No Canada e em vários outros países que são capitalistas, seus povos tem qualidade de vida. O problema em minha opinião, é como falei antes: são nossos políticos e nossos corruptos e corruptores( o Brasil é rico e muito rico). Esse assunto é muito massa. Seria legal conversarmos sobre ele ao vivo e de preferência lá na granja do casal amigo nosso Dan e Ednar. Com certeza tenho muito que aprender com você. Aqui os argumentos são limitados, e eu não gosto muito de digitar nesse troço de computador não. Nos veremos em breve, meu amigo. Um abração!

  3. Marcos Silva 4 de junho de 2014 9:59

    Então, Anchieta, precisamos de Thomas Morus (Utopia) e Maquiavel (O Príncipe). Entre a vontade de alternativa e a dura realidade da política, a nave vai. O capitalismo dito civilizado é barra pesada também, basta lembrar daquele cataclisma em New orleans – os desabrigados locais pareciam favelados cariocas em tempo de grandes chuvas ou até pior!
    Critico o Capitalismo mas reconheço que temos de inventar a alternativa. A Revolução Espanhola, em sua curta duração, abrigou experiências interessantes. Gosto dos comunistas de conselho e de outras minorias de esquerda que nunca controlaram o estado.

  4. Anchieta Rolim 4 de junho de 2014 8:53

    Socialismo e comunismo, nunca existiram. É utopia. O que existe infelizmente é o capitalismo selvagem. Enquanto essa realidade não for aceita e tentarmos conviver com ela de uma maneira mais justa, ficaremos a ver navios…E o problema do Brasil é político. Mais que tudo, político. Essa corrupção enraizadas desde sempre, só tem travado o estado em todas as suas vertentes.

  5. Marcos Silva 3 de junho de 2014 21:57

    Tem uma passagem de carta em que Marx declarou não ser marxista… Tendo a pensar que ele e Engels eram intelectuais brilhantes e homens de ação – atrapalhados, comme il faut. Não fizeram carreiras acadêmicas, embora erudição (e títulos, no primeiro) não lhes faltasse(m).
    A palavra “comunismo” foi apropriada para umas coisas estranhas – economia de guerra, suposta neutralização da técnica (adoção do Taylorismo), proibição de Dostoievskym desqualificação das vanguardas e por aí.
    Faz tempo que proponho a necessidade de se inventar o tal do Socialismo porque aquele era (e/ou é) fake, fake. O mesmo vale para o famigerado Comunismo.
    Os espíritos de porco responderão: nada existe além do fake. É um caso para se discutir.

  6. Marcos Apodi 3 de junho de 2014 21:24

    Gostaria de acresentar uma ou duas coisinhas ao debate. Primeiro que, ao falar no comunismo, como seria, Marx não fui muito explícito. Nesse aspecto Carlos Peixoto têm razão. Mas que falou, falou. Olha, ele, com base em seu tirocínio, fundamento no Materialismo Dialético, ancorado e muito no que escrevera o voinho Friedrich Hegels, explicitou que: 1) ao final do processo de contradição capitalista não haveria mais a necessidade do Estado como figura intermediadora das crises; 2) os homens iriam trabalhar como bem entendessem, de modo satisfatório e prazeiroso, sem subjugações de um pelo outro, embora produtivo: se ele quisesse pescar, iria pescar…; 3) a chegada a esse nível de sociedade, o mundo comunista, será inevitável, pelo processo de fases, avanços, recuos, uma época guardando elementos de outras, mas evolutivo, sempre; 4) poderíamos abreviar esse processo de sofrimento evolutivo através unicamente da ação pensada, científica, racional daquele que seria a raiz da sociedade, o próprio homem. O homem é o único ser que planeja — e isso é o que o diferencia dos outros animais, ou seja, ele é um ser político que pode transformar a sua relação com a Natureza e com os outros homens, que, embora tenham sido transformados em serem artificiais pelo capitalismo, tenham regressado de forma contaminada à caves primitiva, também são a Natureza, posto a própria Natureza estar dentros deles (animais). Quer dizer, a ação só pode se dar pela Economia Política, e não a dos fisiocratas e a que chamam hoje de Aplicada; e, 4) os capitalistas e a burguesia em geral também precisam ser libertados, dado, pela própria Ideologia que propagam, impõem-na a si próprio como elemento de aceitação e sustentação social. Por essas simples exposições podemos dizer que em nenhum lugar do mundo nunca houve o comunismo. A própria presenta do Estado assim já o negaria. Quanto ao bilhete, caro François, para Maracangalha, não o quero. Prefiro ir para Pasárgada.

  7. Carlos Peixoto 29 de maio de 2014 16:57

    Entendido, Marcos! Quando coloquei a “condição revolucionária” da burguesia no contexto da necessidade de avançar com o processo democrático, entender/reciclar as manifestações de massa, estava pensando na necessidade de completar o projeto capitalista brasileiro. Reformas política e fiscal, mais investimentos em Educação, formação profissional, diminuição das desigualdades regionais, saúde universalizada de verdade etc. Essas coisas que concretizam o desenvolvimento sócio-econômico de um pais, porque até aqui – inclusive com o PT no poder – o que tivemos foi “crescimento”. Coisas necessárias que acho que terão que ser arrancadas a fórceps do Congresso e do Estado burguês – mesmo aparelhado pelo PT ele não deixou de ser o que sempre foi – pelas manifestações de massa nas ruas.
    Tenho, mas ainda não li, o livro de Hobsbawm (vou corrigir a falha, rsss!). Recentemente, li “Marx estava certo” de Terry Eagleton, e ele lembra uma análise interessante de Marx, sobre o socialismo ser inviável a partir de condições de miséria de um pais ou povo. Tentaram na Rússia, Lenin e Trotsky perceberam o perigo, mas Stalin botou tudo a perder.
    François, tb concordo com a avaliação do “legado”, em vias de se perder, das manifestações de junho/2013. Mas, lembremos que parte importante do início delas foram memes positivos na Internet (vem prá rua, o Brasil Acordou etc)… E “provoca/ações” como o seu texto é o que está faltando para que a (re)discussão comece, para nos tirar da zona de conforto (acho mesmo que é preguiça política nossa). É preciso partir de algum ponto, mesmo não sendo o ideal, e agora pode ser tão bom quanto foi junho/2013.

  8. Anchieta Rolim 29 de maio de 2014 11:49

    François, fala minha língua. Cairão: comunismo e capitalismo. Crença e partidos são confusas contradições. Culpa capital caos!

  9. François Silvestre 29 de maio de 2014 11:46

    O terrível, mestre Carlos, é que essa mobilização de Junho/2013, realmente diferenciada, não foi compreendida nem devidamente explicada; e posta numa espécie de limbo analítico. Será preguiça intelectual dos especialistas políticos ou o fato é de vera uma nova moldura? Tô achando ótima essa discussão.

  10. Marcos Silva 29 de maio de 2014 8:38

    Carlos, entendo que Marx e Engels consideravam que a burguesia FOI revolucionária quando pôs fim ao Feudalismo. Mas os dois batalhavam por outra revolução, que não viria mais dessa classe – diferentemente de Althusser, penso que o diálogo de M & E com a dialética hegeliana continuava a pesar, apesar de Socialismo & Crítica da Economia Política.
    Eles não mapearam o Comunismo porque não queriam ser utópicos, supunham que os revolucionários definiriam o Comunismo na prática. Vale a pena ler o livro “Como mudar o mundo”, de Hobsbawan: a palavra foi usado para uma reforma do Capitalismo…
    Concordo sobre esboços esperançosos que os movimentos sociais traçaram. E penso que a palavra “revolução” foi apropriada por alguns de seus principais inimigos ao longo do século XX – a ditadura brasileira de 1964 se denominou revolução.

  11. Carlos Peixoto 28 de maio de 2014 21:01

    Deixem-me botar caroço no angu! Denise, Marx falava que a classe operária seria a única capaz de fazer a Revolucao (assim mesmo, com R maiúsculo) para o comunismo (se bem que nunca disse claramente o que seria o comunismo), mas tb chamou a atenção e elogiou o potencial revolucionário da burguesia (favor não tomar o termo por capitalista) ao acabar com o feudalismo e, ainda, que seria dela a tarefa de levar adiante o processo de reformas democráticas que exporiam as contradições do capital, criando as condições para a ação política do operariado. Meu caro François, Marcos: eu já acho que existe uma luz para mudanças, não no âmbito partidário, mas em iniciativas (quem se habilita? ) que irão despertar as multidões – vide Michael Hardt e Antônio Negri – para a crise de representação política. As manifestações de rua de junho de 2013 (aquela que mobilizou o pais, não as badernas que vieram depois) precisam ser relembradas, recicladas e reinseridas na pauta dessa campanha eleitoral.

  12. François Silvestre 28 de maio de 2014 17:56

    É assim mesmo Marcos Silva, mas não me refiro à ideologia no sentido filosófico ou histórico posto na semântica marxista. Não. Falo da ideologia semanticamente deformada, que se aboleta hoje na prática “pragmática”. Denise Araújo, seu comentário traz a generosidade dos portadores de caráter bom, ou melhor, de excelente caráter. O resto não tem convite para Maracangalha.

  13. Denise Araujo C. 28 de maio de 2014 13:49

    Quando Marx disse que só a classe dominada (ou operária, ou trabalhadora ou o que seja atualmente) seria capaz da revolução, não foi à toa. Para mudar e revolucionar é necessário atingir o pensamento e a ideia antes. Eis a ideologia. É realmente coisa de dominados e para dominados. Afinal, para que subverter se a estrutura de poder só é-lhe favorável? Apesar de saber que essas estruturas estão permeadas em tudo na sociedade, aqui atingimos a política. Já tornou-se transversal: quando um antológico cacique político alia-se a outro historicamente incompatível, lá vem a tal da governabilidade desfilando como álibi, ou pior: “para o melhor da cidade/ do estado/ do país”. E eu que ferre-me com qualquer princípio de moralidade que ainda possa esconder.

    Quem gostar de engasgar com farinha que tenha uma boa indigestão, eu prefiro mesmo o meu pirão. Se ainda acreditamos que é possível uma política com ética e presenciamos candidatos numa promiscuidade imunda a níveis local e nacional, ficamos realmente perdidos e sonhando rumar para Maracangalha, de preferência com toda a família Caymmi cantando por toda a eternidade. Isso sim é que é paraíso!

    Observações para François:

    1) Projeto “Vamos à Maracangalha” : quem sabe se cumprirmos o decálogo inteiro ou se ficarmos mais cem anos sob essa sucessão de desmandos nas costas, só apanhando e calados? Pense numa redenção…

    2) Doida para te conhecer.

  14. Marcos Apodi 28 de maio de 2014 13:21

    O velho e bom François está falando dele mesmo e defendendo essa camarilha que está incrustada no poder e ali quer se manter, vendendo a alma ao diabo e a carne no açougue de moscas. Uma justificativa que tem seus pontos de verdade. Esse que acabei de falar é um deles.

  15. Tácito Costa 28 de maio de 2014 10:43

    François, no post, e Marcos, no comentário, textos curtos mas cheios de verdades e merecedores de reflexão.

  16. Marcos Silva 28 de maio de 2014 10:26

    Essa discussão dá pano pra muitas mangas.
    Em Marx e Engels, ideologia não se restringe a idéias ou posições políticas, trata-se de uma racionalização das relações de poder que legitima o mundo como ele é. Ninguém vai trabalhar obrigado pela polícia, vai porque acredita que o trabalho é obrigação e atestado de dignidade, p. ex.
    Na Sociologia que veio depois de Marx, surgiram concepções de ideologia mais despolitizadas, chegando, no limite, às pesquisas de opinião pública e de mercado que falam em classes sociais como se fossem camadas de bolo.
    As ideologias pesam mais para os dominados, certamente – púbico cativo de telenovelas e programs policiiais, por exemplo. Isso não significa que os ouvintes de Bach e os leitores de Platão estejam alheios às ideologias. Penso que os dominadores, quase sempre, acreditam no que dizem – até quando fazem alianças que nos parecem absurdas. Ou acreditam na legitimidade daquilo, inclusive da mentira.
    Mas é um tema vasto e sem fim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo