Ideologia

Eu vinha hoje escutando o programa político do jornalista Jurandyr Nóbrega, (antigo colega no Diário de Natal), na FM 94, a Rádio Cidade, e uma coisa foi aos poucos chamando a minha atenção. Ele comentava a decisão da professora Amanda Gurgel, a nossa celebridade no Youtube, de se lançar candidata pelo seu partido o PSTU. O jornalista dizia que ela ia tomar a “mesma decisão errada que tomaram Fernando Mineiro e Fátima Bezerra, ao entrarem na política”.

E acrescentou uma frase, no mínimo, maldosa. Eles estariam se aproveitando dos professores para seus projetos políticos pessoais. Aquilo foi me irritando de tal forma que por pouco perco a atenção no trânsito. Como assim, cara pálida?

Quer dizer que se um cidadão, que tem militância política em seu ambiente de convivência, universidade, escola pública, não pode entrar na política? O fato de escolher a política como profissão é um projeto pessoal, como é para a maioria dos políticos da direita? Não concordo com isso. Fernando Mineiro e Fátima Bezerra ao entrarem para a política prestaram um grande serviço à sociedade pela sua combatividade como parlamentares. Se serão bons quadros executivos um dia, não sabemos ainda.

Amanda Gurgel tem o pleno direito de exercer sua cidadania e se ela, por um azar do destino (o que não acredito), escolher o fisiologismo como carreira política, terá maculado sua história de luta. Vocês sabem o que é ideologia? Tem um livrinho da professora Marilena Chauí, da coleção Primeiros Passos, da Brasiliense, que explica direitinho o que é isso.

Os meios de comunicação nos oferecem diariamente essas armadilhas. O cidadão tem o privilégio de ocupar o microfone de uma importante emissora de rádio para emitir suas opiniões particulares. A pessoa que está ouvindo precisa ter um bom senso crítico para distinguir o que está sendo dito ali. E isso não é só aqui em Natal, não, meus amigos! Leiam a Veja e a Folha de São Paulo.

A construção da democracia e de um país decente passa pela nossa capacidade de exercer nosso senso crítico. Ter liberdade de expressar nossas opiniões e de discordar das que não nos interessa. Eu defendo o direito de Jurandyr Nóbrega expressar sua opinião. Mas defendo também o direito de discordar dela.

Se Amanda Gurgel quer ser parlamentar ou exercer um cargo executivo, que mostre capacidade para tanto e conquiste os votos de seus eleitores. Este é o processo comum em países democráticos. Se alguns políticos usam a política para projetos pessoais, cabe a nós eleitores tentar fazer com que eles não se elejam ou reelejam.

É claro que, quase sempre, somos barrados pelos votos da maioria silenciosa. Mas isso é outro papo.

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Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Tânia Costa 22 de julho de 2011 23:15

    Texto claro e objetivo. Sem sobeja, sem prolixidade.
    O discurso ideológico busca legitimar a dominação econômica, social e política. É o que faz o jornalista Jurandyr.

  2. Daniel Menezes 22 de julho de 2011 22:00

    Faz tempo que estão tentando queimar a Amanda.

    O mais interessante é que o bombardeamento está vindo da direita e da esquerda.

    O PT, que luta para não perder o comando da esquerda, e o DEM, que quer enfraquecer qualquer nova liderança que surge, se “juntaram” contra a referida professora.

    Ora, essa luta faz parte da política e é legítima. Todo mundo pode falar o que quiser, mesmo que só diga asneira como costuma ser o caso do Jurandir.

    Porém, como disse o autor do texto, não precisamos concordar.

  3. demétrio diniz 22 de julho de 2011 9:18

    Carlão, você é maravilhoso. Continue escrevendo bem, e inspirado por aquela cantora canadense que eu não me lembro do nome, na paz dos pintassilgos de Pium. Abraço do Demas.

  4. Janilson Carvalho 22 de julho de 2011 7:40

    Fui colega de Amanda na UFRN e acredito na sua capacidade pessoal. Se os professores não tivessem ocupado cadeiras nos legislativos no RN ,teriamos apenas as velhas e carcomidas oligarquias e seus cães de guarda. O RN é o estado mais atrasado politicamente do Brasil. Somos uma fazenda.

  5. Jarbas Martins 21 de julho de 2011 19:24

    Certo, amigo e poeta Varela Cavalcanti

  6. João da Mata 21 de julho de 2011 14:28

    Perfeito, Varela

    que a democracia se fortaleça e as campanhas sejam mais iguais.
    Do que jeito que tá é só um arremedo de democracia. Sim , eu posso.
    Campanhas riquissimas e com todos os meios de comunicação á mão, é desigual. O PT local errou ao não abrir mais o seu quadro de candidatos fortes com condiçoes reais de disputar.
    Eles , as oligarquias e poderosos, sempre dizem que não podemos.
    Podemos, sim.

  7. Luiz Penha 21 de julho de 2011 14:18

    É isso mesmo meu ex-professor do curso de Comunicação. Afinal, o que seria o exercício pleno da cidadania se não os exemplos citados?

  8. Varela Cavalcanti 21 de julho de 2011 14:09

    Jurandyr Nóbrega deve achar normal, normal, naturalíssimo, os empresários se candidatarem, afinal se candidatam por puro altruísmo, vocação pública… Eu acho que tem mesmo é que se candidatar, empresários, sindicalistas, e por aí vai. A democracia abre espaço para isso, as diversas forças sociais querendo ter seus representantes, o indivíduo podendo propor-se a tal. As regras do jogo eleitoral deveriam ser mudados para que a disputa fosse mais equilibrada, menos frágil à corrupção e compra de votos. Enfim, esse é um papo é velho demais, uma argumentação para enganar incautos, descaradamente direitista. Enquanto Lula foi sindicalista, recebia lá suas críticas, mas era um grande líder. Quando começou a questionar mais fundo, criar um partido, disputar os espaços, ganhar eleições… Ah, o horror, o horror, os jurandyres entraram em parafuso.

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