Iluminismo estorricado: a razão arde no fogo do aquecimento global

Por Marcelo Leite
Ilustríssima ­ Folha de S.Paulo

RESUMO

O escritor Jonathan Franzen, em ensaio na revista “The New Yorker”, e o
filósofo Dale Jamieson, no livro “Razão em Tempos Escuros”, causaram polvorosa
apontando o fracasso da luta contra o aquecimento global. Jamieson ao menos crê que a
humanidade pode se adaptar, se banir o carvão e reciclar ideias morais corriqueiras.

*
Quando publicou o romance “Liberdade”, em 2010, Jonathan Franzen incomodou a turma
dos verdes ao narrar relações incestuosas de ambientalistas com magnatas da indústria.
Agora se põe no ataque contra a própria “cause célèbre” do aquecimento global e caminha
para se tornar, definitivamente, persona non grata no meio.

No centro da controvérsia está o ensaio “Carbon Capture ­Has Climate Change Made it
Harder for People to Care about Conservation?” (Captura de carbono “” A mudança do
clima faz mais difícil que as pessoas se preocupem com conservação?). O texto saiu na
edição de 6 de abril da revista “The New Yorker” e faz uma defesa apaixonada da fauna
aviária, segundo ele relegada sob o imperialismo da questão climática.

O escritor colheu reações ácidas dos “climatistas”, como a eles se refere. Uma das menos
agressivas afirma que Franzen tem “cérebro de passarinho”.

Seus críticos, no entanto, atiraram no que viram e erraram no que não viram: o fracasso da
luta contra a mudança do clima. Parece mesmo bem limitada a dicotomia servida pelo
romancista: ou salvamos o mundo e as futuras gerações do aquecimento global, ou
preservamos os habitats e as espécies de pássaros sob risco de extinção “”hoje, não no
fim do século.

Nada a estranhar, para quem abre o ensaio descrevendo-­se como “alguém que se
preocupa mais com pássaros do que [com] o próximo”. O duplo sentido da frase parece
proposital: Franzen declara nutrir um amor como o de são Francisco pelas criaturas
presentes no seu campo de visão, ainda que focalizadas com um binóculo –e não tanto
por seres humanos que ainda nem nasceram.

Sua irritação tem por alvo a National Audubon Society, organização ambientalista que se
dedica à proteção de aves. Ele implicou com um comunicado à imprensa que fala na
mudança do clima como “a maior ameaça” contra os pássaros americanos e divulga um
estudo prevendo que, em 2080, quase metade das espécies estaria sob risco de perder
seus habitats em consequência do aquecimento global.

Franzen enxerga aí um desvio de missão. A Audubon estaria afastando milhões de
associados da tarefa de salvar as áreas de reprodução de pássaros de carne e osso e
mobilizando­as num combate infrutífero. Para ele, o climatismo aliena: “A questão é se
todos os que se preocupam com o ambiente estão obrigados a fazer do clima uma
prioridade suprema”.

“A mudança climática é sedutora para organizações que querem ser levadas a sério. Além
de ser um meme pronto e acabado, é convenientemente imponderável”, escreve. “A
mudança do clima é culpa de todos –em outras palavras, de ninguém. Todos podemos nos
sentir bem por deplorá-­la.”

NEGLIGÊNCIA

Não faltaram “climatistas” para acusar o golpe. David Roberts, da revista “Grist”, Joe
Romm, da “Climate Progress”, e Karl Mathiesen, do jornal britânico “The Guardian”, se
apegaram ao que consideram negligência jornalística de Franzen e da revista “The New
Yorker” para atacar o ensaio e recusar a disjuntiva entre salvar o planeta ou salvar as
aves.

Franzen teria lido só o “press release” da Audubon, não o estudo que não conseguiu achar
(embora disponível na internet). Além disso, teria interesses ocultos: criticar a sociedade
de observadores de pássaros para favorecer outra (American Bird Conservancy, ABC), de
cujo conselho participa. Pior: a ABC também apontaria a mudança do clima como grave
ameaça. E por aí vai.

Sintomaticamente, todos eles passam ao largo do que há de mais consistente e menos
sentimental no ensaio de Franzen: as ideias que não são dele. No caso, o apoio para sua
exasperação encontrado em “Reason in a Dark Time” [Oxford USA, R$ 44,45, à venda em
formato e­pub no site da livraria Cultura] (Razão em tempos sombrios), do filósofo Dale
Jamieson.

É uma base sólida, e talvez por isso tenha sido ignorada. Jamieson se atreve, já no
subtítulo, a escrever sobre o combate ao aquecimento global com o verbo no passado
–”falhou”. A quem vive para (ou vive de) propagar que temos a obrigação moral de legar
um mundo não devastado para futuras gerações, soa como uma heresia.

QUIXOTE

Em junho fará 23 anos que quase duas centenas de países tentam pôr de pé um acordo
internacional capaz de frear as emissões de gases do efeito estufa. A empreitada
quixotesca começou no Rio, em 1992, deu passos titubeantes em Kyoto, em 1997, e se
estatelou em Copenhague, em 2009.

Todos os olhos se voltam agora para dezembro deste ano, em Paris. Dessa nova
conferência de cúpula sobre o clima, a 21ª, deveria resultar um acordo de redução das
emissões mundiais suficiente para impedir que a temperatura média da atmosfera
ultrapasse 2 graus Celsius até o fim do século 21.

Não vai dar, como sabem todos que acompanham a questão. Mais alguns passos
incrementais serão dados, quando muito.

E não poderia ser muito diferente, argumenta Jamieson, porque há demasiados obstáculos
estruturais para a agenda do clima. O filósofo não se considera pessimista, mas realista.

Afirma que não estamos num momento único da história e que não somos os primeiros
nem seremos os últimos a tomar decisões e fazer coisas que afetarão o planeta e a vida
de muitos, inclusive dos que não nasceram.

Jamieson não nega, veja bem, a realidade, o tamanho ou a importância da ameaça
climática. Ele só considera que, por seu porte, ela esgota a ideia de que a razão nos faz
senhores do destino da espécie e, vá lá, do mundo.

ILUMINISMO

“A ação humana é o motor, mas parece que coisas, e não pessoas, detêm seu controle.
Nossas corporações, governos, tecnologias, instituições e sistemas econômicos parecem
ter vida própria. A sensação é a de vivermos em meio a uma perversão esquisita do sonho
do Iluminismo.”

A mudança climática não pode ser desfeita. Basta o carbono já lançado na atmosfera para
que ele siga em transformação ao longo não só deste século mas deste milênio, pois os
gases do efeito estufa ainda circularão por séculos a fio.

Podemos, se tanto, reduzir um pouco a velocidade da mudança e nos adaptar a ela.
Contudo, transformar tal possibilidade em ações e políticas públicas, argumenta o autor,
vai contra a natureza humana e as intuições morais com que a seleção natural nos
equipou.

“A evolução nos construiu para responder a movimentos rápidos de objetos de porte
médio, não ao acúmulo lento de gases imperceptíveis na atmosfera”, alega Jamieson. E
completa: “A maioria de nós reage dramaticamente ao que percebemos, não ao que
pensamos. Como resultado, mesmo aqueles de nós preocupados com a mudança do
clima temos dificuldade em perceber sua urgência.”

Em outras palavras, o fracasso em prevenir ou conter significativamente a mudança do
clima reflete o empobrecimento da razão prática, a paralisia da política e os limites da
nossa capacidade cognitiva e afetiva, pondera o filósofo. “Nada disso tem chance alguma
de mudar em breve.”

Além de adaptação (preparar a infraestrutura para efeitos do aquecimento global) e de se
livrar tão cedo quanto possível da energia obtida do carvão, o mais poluente dos
combustíveis fósseis, Jamieson tem poucas recomendações práticas a fazer.

ANTROPOCENO

Mesmo isso dependeria de adequar à realidade alterada o sentido moral do senso comum,
que lida tão mal com interesses alheios, não individuais e distantes. Só resta caminhar na
direção do que ele chama de ética para o Antropoceno, “virtudes tradicionais, como
humildade, virtudes reinterpretadas, como temperança, e novas virtudes, como
consideração, simplicidade, cooperação e respeito pela natureza”.

Não é muito diferente do que pediriam os críticos de Franzen, se não estivessem
ofuscados pela miragem de um acordo messiânico na Cidade-­Luz.

 

MARCELO LEITE, 57, colunista e repórter especial da Folha, autor de “Ciência, Use com
Cuidado” (Ed. da Unicamp).

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