Imagens banalíssimas

Por Marcelo Coelho
FSP

A sensação que tenho é de já ter visto o filme. Tanto a revolta quanto a festa, a esperança e o terror

MUITA GENTE se queixa, com razão, de não conseguir entender nada da arte contemporânea. Fala-se menos, entretanto, de outro problema comuníssimo: o risco de que se torne inteligível demais. É assim que uma única ideia (criticar o consumismo contemporâneo, por exemplo) toma conta da instalação, do vídeo, da performance, como se fosse um cartum, um slogan ou um panfleto.

Algumas obras conseguem ser banais e incompreensíveis ao mesmo tempo. Mas, com alguma sorte, podem também ganhar certa aura profética.

É o caso de um vídeo feito pelo egípcio Khaled Hafez, em 2006. Chama-se “Revolução -°Liberdade, Igualdade Social e Unidade”, e está sendo apresentado na exposição “Miragens”, que fica em cartaz até dia 3 de abril no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

O telão de TV está dividido em três partes iguais, uma com predominância da cor vermelha, outra com tons de branco, outra com tons de preto. Meu lado Sherlock Holmes identificou nesse jogo visual as cores da bandeira do Egito.

No centro, um homem de terno e gravata, brilhantina no cabelo à moda de Hosni Mubarak, bate com um martelo em vários pregos sobre uma superfície branca.

No lado direito da tela, um outro homem (é o mesmo ator, talvez seja o próprio artista) aparece com roupas religiosas, decapitando bonecas tipo Barbie.

Do lado esquerdo, um militar (ainda o mesmo cidadão) nada faz durante as atividades de seus companheiros de tela -até o momento em que aponta uma pistola na direção de ambos. Fim do vídeo.

Eis aí cumprida, em 2011, a profecia. Os militares assumem o poder no Egito, expulsam Mubarak e se comprometem (foi isso?) a assegurar eleições democráticas dentro de seis meses.

Fico contente. Não me saem da cabeça, entretanto, as cenas de “Persepólis”, graphic novel da iraniana Marjane Satrapi. A edição completa dessa autobiografia em quadrinhos saiu pela Companhia das Letras há algum tempo e já está na sexta reimpressão.

A autora tinha dez anos em 1979, quando a população iraniana derrubou, nas ruas, a odiosa ditadura do xá Reza Pahlevi. “O país fez a maior festa da sua história”, diz Satrapi. Amigos de seus pais e um tio comunista haviam sido torturados pelo regime de Pahlevi.

A menina assiste à volta dos exilados de esquerda e ouve, impressionada, relatos sobre as técnicas de tortura que a polícia iraniana, com instrução científica dada pela CIA, aplicava nos seus adversários.

Não demora muito para acontecer aquilo que já se conhece. Milícias fundamentalistas, de homens primeiro, e de mulheres depois, tomam conta do processo político. Os amigos da família de Marjane Satrapi voltam à prisão, à tortura, são suicidados ou morrem.

Para obrigar as mulheres ao uso do véu, é comum o seguinte expediente. Três ou quatro “guardiões da revolução” seguem a mulher “ocidentalizada” pelas ruas (isso aconteceu com a mãe de Marjane) e ameaçam estuprá-la. Tem toda lógica: se não usa véu, é indigna de respeito. Da segunda vez em que a encontrarem andando sem véu, a ameaça será cumprida.

Se uma jovem se opusesse ao regime e fosse presa e açoitada, surgia um problema, do ponto de vista dos fundamentalistas. Ela não poderia morrer de modo nenhum, porque não é aceitável assassinar uma virgem. Providenciava-se, então, um casamento de emergência, seguido de estupro, para que a mulher rebelde pudesse ser finalmente executada. O governo pagava um dote, como manda a tradição, à família da vítima.

Os horrores se acumulam em “Persépolis”, depois da festa democrática. Mesmo em pleno regime dos aiatolás, a juventude ocidentalizada e de classe média conseguia se reunir numa lanchonete chamada Kansas e contrabandear cassetes do Michael Jackson. Esse ocidentalismo não durou muito, é claro.

Com 13 anos, os meninos já eram considerados aptos para a guerra (o país se defendia dos ataques do Iraque), e quem conseguisse tratava de obter, já nessa idade, o passaporte. Isso enquanto as fronteiras não estavam fechadas.

Outra obra da exposição “Miragens” mostra um menino palestino com o rosto na alça de mira de uma arma de fogo. Tudo muito banal. Banalíssimo.

A sensação que tenho, claro, é de já ter visto o mesmo filme muitas vezes. Tanto a revolta quanto a festa, tanto a esperança quanto o terror.

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