Imagens de uma Biografia

Por Márcio de Lima Dantas

O livro de Anna Maria Cascudo Barreto Coronel Cascudo: o herói oculto (Natal: EDUFRN, 2010, 272 p.), biografia do seu avô paterno, apresentado em um requintado projeto gráfico do artista Jimmy Free, com farto material iconográfico e índice onomástico, é um daqueles livros que muito mais do que retermos na lembrança o forte conteúdo dos dados biográficos, do afeto e admiração que encerra, fazemos questão de tê-lo em nossas bibliotecas, sobretudo para os que ainda estão atrelados à tradição do livro como objeto impresso.

Sim, é uma festa para os olhos o caderno iconográfico, não apenas reproduzindo o biografado com sua família, mas buscando, por meio de imagens, resgatar os lugares, paisagens, indumentárias, arquitetura da época, personagens que povoaram o cotidiano do Coronel Cascudo e dos seus. Através dos retratos, conseguimos resgatar muito do que fora a Natal no início do século XX. Penso ter sido uma grande sacada da autora não ter se restringido ao ator principal em cena, incluindo também meios e modos integrantes do patrimônio imagético da polis na qual viveu o biografado, bem como retratos da distante Campo Grande, no alto oeste do Rio Grande do Norte, lugar de origem do Coronel.

Ao buscar imagens do entorno geográfico e histórico, com o objetivo de ilustrar o meio que teria produzido uma figura de tal importância, a autora resgata um modo de vida extinto, cumprindo o papel que também compete a um biógrafo de bom quilate: situar um indivíduo no seu tempo histórico, descrever, via escritura, o espírito do tempo que possibilitou gestar determinado homem, que individualidade singular foi essa para que a posteridade tivesse a demanda de falar dele como um dos mitos construidores de uma cidade.

Ao se falar de fotografia, temos que evocar a deusa da Memória – Mnemósine – matriz e nutriz de todas as artes. A fotografia retém o fluxo do tempo, impedindo que o pingar das horas venha a ser correnteza, que arraste tudo para o grande rio do esquecimento, ainda mais hoje em dia no qual a deusa quase já não recebe oferendas nos seus altares. O livro de Anna Maria, ressaltanda as fotografias como mira de chamada, em molduras de alta fatura estética, parece proclamar um dito sobre um dos fenômenos mais preocupantes do nosso tempo: o desinteresse e a não mais valorização da memória como constituidora de uma subjetividade, como formadora de um corpo social capaz de reter o que se deve tomar como importante no passado ou como possibilidade de se algurar alvíssaras de um futuro.

Ora, consabida é a capacidade que a fotografia arrasta, ao se deixar contemplar, quando vista pelos pósteros ao seu tempo e espaço da sua feitura, de cristalizar não somente a história particular de um indivíduo ou família, mas de compor, organizar, expressar às idéias e costumes de uma época, evidenciando a que conceitos, ideologias, concepções de arte, os homens estavam submetidos.

Vejamos como a ensaísta Anna Maria Cascudo conseguiu operar um tanto de distanciamento crítico do biografado, visto ser quase impossível separar sujeito de objeto, haja vista os laços de parentescos entre os dois, avô e neta. Era de se esperar um texto impregnado de subjetivos ou de exarcebada admiração por alguém que não apenas integra o imaginário da cidade do Natal, mas que, “por coincidência”, é o pai do seu pai. Quem sabe por uma espécie de pudor, a autora optou pela estratégia de delegar à voz de outrem a apresentação do Coronel Cascudo. E eis que foram arrolados depoimentos, relatos, documentos ou trabalhos de natureza histórica, com o intuito de traçar o perfil daquele que conseguiu proporcionar as condições para o surgimento do nosso maior norte-rio-grandense nas letras: seu filho Câmara Cascudo.

Professor do Departamento de Letras da UFRN.

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