A imaginação de Terry Pratchett virou do avesso a tradição fantástica

Por Reinaldo José Lopes
Ilustríssima ­ Folha de S.Paulo

Um dos fenômenos mais esquisitos da cultura pop do século 20 foi a avidez com que o
movimento hippie abraçou “O Senhor dos Anéis”, clássico de fantasia do católico
conservador britânico J.R.R. Tolkien (1892­-1973). Pode ser que os adeptos da
contracultura tenham se identificado com a defesa de uma vida mais simples e próxima da
natureza, típica dos hobbits de Tolkien, mas um ponto de contato mais subversivo
provavelmente foi a “erva­-de-­cachimbo” que costuma ser fumada pelo mago Gandalf no
romance, vista pelos hippies como maconha disfarçada.

Essa hipótese, claro, é completamente furada ­Tolkien explica no próprio livro que a tal
erva não passa de tabaco. Seria preciso esperar algumas décadas para que magos de
narrativas de fantasia colocassem substâncias mais fortes em seus cachimbos ­mais
precisamente até 1983, quando o também britânico Terry Pratchett publicou “A Cor da
Magia”.

O título do livro de estreia do Discworld (Mundo do Disco), universo ficcional criado por
Pratchett, já é, por si só, um achado psicodélico ­a tal cor da magia é a octarina, a “oitava
cor”, um “roxo-­amarelo-­esverdeado fluorescente” que só existe no espectro luminoso do
Disco. A maluquice estava só começando.

Pratchett, que morreu no dia 12 de março aos 66 anos, acabaria publicando outros 39
romances sobre o Discworld, sem falar em suas demais obras de ficção ­juntas, somam
até agora 85 milhões de exemplares vendidos, em 37 línguas, e o contador continua
girando. Essas dezenas de livros mostraram que era possível subverter a grandiloquência
e os clichês da fantasia produzida pelos sucessores de Tolkien de forma a criar histórias
hilariantes, mordazes e imprevisíveis.

ASSESSOR NUCLEAR

Paradoxalmente (ou talvez não tão paradoxalmente; há paralelos com a literatura
brasileira, afinal), o bestiário fantástico do Discworld nasceu quando Pratchett tinha um
emprego de natureza relativamente burocrática, o de assessor de imprensa do CEGB,
estatal britânica da área de geração de energia.

O único elemento de aventura (no mau sentido) relativo ao cargo era a presença de quatro
usinas nucleares na região onde o autor trabalhava, numa época em que o público ficava
cada vez mais desconfiado em relação à energia atômica. “Eu escreveria um livro a
respeito das minhas experiências [na empresa], se achasse que as pessoas iam acreditar”,
brincou certa vez Pratchett.

Antes de “A Cor da Magia”, ele tinha publicado um romance de fantasia e duas obras de
ficção científica, escrevendo nas horas vagas enquanto atuava como repórter em
publicações do interior.

Nascido em Beaconsfield, cidadezinha inglesa de 12 mil habitantes, Pratchett tivera uma
formação despretensiosa. Tornou­se jornalista logo depois de concluir o ensino médio e
costumava dizer que tinha se educado frequentando a biblioteca pública da cidade natal.
Pensou em ser astrônomo, mas desistiu diante das suas dificuldades com matemática (um
asteroide descoberto em 2002 acabaria sendo batizado como 127005 Pratchett,em sua
honra).

Coincidência ou não, os elementos astronômicos são os primeiros a deixar claro que o
Discworld não é nenhuma Terra­média. Vários dos livros da série começam apresentando
a cosmologia doida do Disco, um planeta de formato achatado que se apoia nos dorsos de
quatro super­-elefantes, os quais, por sua vez, viajam pelo éter montados na carapaça da
Grande A’Tuin, uma tartaruga estelar (nome científico: Chelys galactica) de 15 mil km de
comprimento.

Uma das grandes controvérsias acadêmicas entre os grandes magos da Universidade
Invisível, principal instituição de ensino superior do Disco, é o que exatamente aconteceria
caso chegasse a época de acasalamento do réptil cósmico.

Na superfície do Discworld propriamente dito, a luz se propaga de um jeito preguiçoso,
muito mais lerdo que o da luz do nosso universo, incluindo em seu espectro a famigerada
octarina (implicações desse fato são minuciosamente discutidas por Pratchett nos volumes
da série “A Ciência do Discworld”).

O planeta­-pizza é habitado por versões satíricas de personagens que costumam povoar os
mundos de fantasia “sérios”, como anões, trolls, bruxas e guerreiros (o mais famoso deles
é Cohen, o Bárbaro).

Mas Pratchett sempre foi ecumênico quando o assunto é humor, de modo que o Disco
também abriga variantes mágicas e ridículas do Egito dos faraós, da Grécia Antiga e do
Leste Europeu durante a Guerra Fria. E, apesar da ambientação pseudo-medieval, o autor
deu um jeito de incluir referências ao cinema (em “A Magia de Holy Wood”) e ao feminismo
(em “Direitos Iguais, Rituais Iguais”), entre outras modernidades.

Essa descrição rápida do Disco e de seus habitantes talvez deixe a impressão de que os
livros valem apenas como uma sucessão descompromissada de gargalhadas, turbinada
pelo tradicional humor absurdo dos britânicos. Tais aspectos, no entanto, são apenas parte
do charme da obra.

Se há algo da fantasia clássica tolkieniana nos livros de Pratchett, é o talento para a
chamada sub-criação ­ou seja, a invenção de uma realidade secundária cheia de detalhes
coerentes e memoráveis, que adquirem uma consistência própria, próxima do mito. E a
sátira do Mundo do Disco, embora sempre muito engraçada, só é inócua na superfície, em
especial quando os temas da narrativa incluem a natureza do poder e da morte (aliás, “o”
Morte: no Discworld, trata­se de uma entidade do sexo masculino, que só fala em letras
maiúsculas).

LETRAS SUMIDAS

Em 2007, quando descobriu que tinha uma forma atípica do mal de Alzheimer, o autor
continuava a produzir cerca de dois livros por ano, que invariavelmente iam parar na lista
britânica dos mais vendidos.

A doença que acabou matando Pratchett pode ser descrita com a ajuda de uma série de
palavrões técnicos quase tão obscuros quanto os que constam dos tomos da biblioteca da
Universidade Invisível.

Entre os sintomas da PCA (sigla inglesa de “atrofia cortical posterior”, ou seja, que afeta a
parte traseira do córtex cerebral) estão a apraxia, dificuldade de planejar corretamente os
movimentos; a alexia, ou seja, problemas para ler direito; e a agnosia visual, que dificulta o
reconhecimento de objetos. Nos últimos anos, essa constelação de fatores fez com que
Pratchett passasse a “escrever” ditando as frases para Rob Wilkins, seu secretário, ou
então quebrando o galho com softwares de reconhecimento de voz.

Pratchett logo se tornou uma das vozes mais importantes em favor de mais pesquisas a
respeito do mal de Alzheimer, em especial depois de descobrir que os estudos sobre a
doença recebem apenas uma pequena proporção do financiamento dedicado a novos
tratamentos contra o câncer. A BBC produziu um documentário em duas partes sobre
como o escritor convivia com a enfermidade ­o filme acabou sendo premiado no Bafta, o
equivalente britânico do Oscar.

Diante da perspectiva de sintomas mais sérios da doença ­conforme progride, a PCA pode
ter efeitos cognitivos severos, a exemplo das formas mais comuns do Alzheimer­, Pratchett
defendeu que todo doente deveria ter o direito de escolher o suicídio assistido caso
desejasse. No fim das contas, ele não precisou lançar mão dessa saída.

Os milhares de páginas do Discworld inevitavelmente continuarão a ser o principal legado
de sir Terry ­Pratchett foi sagrado cavaleiro de Sua Majestade em 2009. Mas é provável
que o livro que melhor exemplifica seu amálgama único de mordacidade e ternura seja
“Belas Maldições”, de 1990, que ele escreveu em parceria com Neil Gaiman.

A discussão teológica no comecinho do romance é lapidar (os grifos são do próprio livro):
“Deus não joga dados com o Universo. Ele joga um jogo inefável de sua própria invenção,
que poderia ser comparado, da perspectiva de todos os outros jogadores (i.e. todo
mundo), a estar envolvido numa versão abstrusa e complexa de pôquer numa sala escura
feito breu, sem poder olhar as cartas, apostando o infinito, com um crupiê que se recusa a
te contar as regras e que sorri o tempo todo”.

Santo Agostinho não teria feito melhor.
REINALDO JOSÉ LOPES, 36, é jornalista, autor de “Além de Darwin” (Globo) e assina o
blog “Darwin e Deus” no site da Folha.

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