Imagine que mataram oito jornalistas em sua cidade

por Gustavo de Castro
Direto de Paris (exclusivo para o SP)

Enquanto a França vive neste momento uma caçada policial nas florestas de Compiègne, na Picardia, com 88 mil homens da Policia Nacional em busca dos dois suspeitos do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, gostaria de pensar duas ou três linhas. Primeiro o que significa a expressão : “Você vai pagar caro por haver insultado o profeta”, dita por um dos executores.

“Foi o dia mais horrível da história da imprensa francesa”, resumiu Christophe Deloire, diretor do Repórteres Sem Fronteira, na porta do jornal Charlie Hebdo, localizado no 11o distrito, onde doze pessoas foram mortas às 11h28 desta quarta-feira, 7 de janeiro, entre elas oito jornalistas. Há pelo menos cinquenta anos não ocorria uma tragédia de tamanha proporção na França. A manchete do Le Monde na manhã desta quinta-feira era: “O 11 de Setembro francês”. O New York Times chegou com a manchete: “Guerra à liberdade”. Se não há exagero nestas manchetes, isto me leva à questão: Quem vai pagar caro por insultar o profeta é a imprensa? Não admira que o atirador tenha chamado em primeiro lugar: “Charb”, que era o diretor da publicação. Ele ‘representava’ o jornal.

Na noite desta quinta-feira, na Praça da República, jornalistas,assessores, publicitários, políticos, estudantes e professores se reuniram para bradar “Liberdade de expressão!!!”. Muitos presentes homenageavam Bernard Maris, professor de economia da Sorbonne, Paris VIII, e colaborador de várias publicações. As pessoas depositavam canetas junto às milhares de fotos, velas, mensagens e flores que eram deixadas na praça. Houve também uma revoada de pombos brancos e o hino nacional francês foi cantado a todo momento.

Um jovem jornalista comentava na roda entre amigos, na Praça da República: “Qual o limite do publicável?”. Esta interrogação me leva sempre a questão da responsabilidade e sabemos que a imprensa nem sempre é respeitosa e ética. Isto é um argumento que serve ao jornalismo humorístico? Tem limites o humor? O certo é que não é possível insultar o profeta. Quem tentará novamente? Acabo de saber de uma ação internacional de humoristas e chargistas para reproduzir os desenhos ‘infames’ do Charlie Hebdo. Um dos mortos, Riss, havia desenhado em 2008, a figura de Maomé falando: “Como esses idiotas podem acreditar em mim?”. Há um mito urbano em Paris insuflado de orelha a orelha: a de que o assassino chamou um a um dos desenhistas pelo nome. Eu não acredito nisto, mas é o que dizem.

O fato é que tudo durou menos de cinco minutos. O Charlie Hebdo tinha um ritual imutável: às quartas-feiras, reúnem-se na grande mesa oval os desenhistas Cabu, Wolinski, Tignous, Honoré e Riss, os redatores Laurent Léger, Fabrice Nicolino e Philippe Lançon, o editor-chefe e membro do Partido Comunista Francês, Charb, senta a direita, o economista, professor e iconoclasta Bernard Maris, ligado ao Partido Verde e um dos conselheiros do Banco da França. Estão presentes também Sigolène Vinson e Elsa Cayat, ambas cronistas. A reunião havia começado às 10h30 e se animou rapidamente, decidiam as palavras chaves da próxima edição a sair quarta-feira, dia 14 (Inclusive estima-se agora que com 1 milhão de exemplares). Na quarta-feira, 7, a edição havia uma charge premonitória de Charb, em que havia o diálogo: – “Ataques?” – “Espere”.

Estava também na sala, um convidado, Mustapha Ourrad, corretor, que havia obtido a cidadania francesa um mês antes. Outro convidado é Michael Renaul, antigo diretor de uma sub-prefeitura local. Quatro dos membros da reunião tinha mais de 70 anos. São velhos jornalistas e humoristas acompanhados da geração que lhe segue na faixa dos 40-60. Segundo jornalistas experientes aqui, não é fácil chegar à redação do jornal, onde ocorrem regularmente às reuniões em torno da mesa oval.O jornal fica em um casarão antigo, é preciso passar por um labirinto de portas e corredores até chegar à sala onde ela acontece. A perplexidade da imprensa francesa, além da lista de celebridades executadas, é com a destreza dos assassinos. Nunca a expressão “soldados de allah” pareceu tão forte aqui.

Sabemos da frase: “Você vai pagar caro por haver insultado o profeta”, devido a Corinne Rey, Coco, outra jornalista/desenhista que estava na sala e escondeu-se embaixo da mesa. Esta frase re-toma a Lei do Talião: olho por olho. Na praça da República, hoje, um dos cartazes dizia: “Devemos pagar tudo isto com mais tolerância, mais solidariedade e mais democracia”. É preciso dizer que a imprensa francesa segue um esforço incrível de separar o Islã dos islamismos radicais, os muçulmanos também estão se mobilizando, pude ver vários hoje na Praça da República. Um francês me dizia: “Imagine que mataram doze pessoas e oito jornalistas na sua cidade”. Imaginei isto, claro, muito facilmente. É coisa horrível em qualquer parte do planeta.

Devo dizer que foi impressionante saber, ouvir e ver que todos os sinos das muitas igrejas de Paris tocaram nesta quinta, 8, ao meio dia, como sinal de chamado ao recolhimento. Não desconheço os deuses guerreiros, os sanguinários, os que pedem vidas e sacrifícios. Respeito-os onclusive por isto. Temos um lista grande, desde os muitos deuses do Egito, da Grécia, da América pré-colombiana, ou mesmo os africanos. Também sabemos que Jeová e Allah pediram,durante muito tempo, a imolação de seus ‘escolhidos’. Venho dizendo faz muito tempo: o fundamentalismo voltou (re-volto) com força. Não são apenas os deuses que estão novamente em guerra, seus filhos são as principais provas (ensandecidas) de que isto ocorre. Vemos este fenômeno aí no Brasil de outra maneira, com os muitos pentecostalismos e ‘universalismos’ em ebulição. O retorno do fundamentalismo é natural de uma época em crise, que perdeu a sua identidade. Vemos até que o próprio papa Francisco I, sofre isto na pele. Ele consegue estar mais a frente do que a própria igreja católica.

Charb dizia que “preferia morrer de pé a morrer de joelhos” numa crítica feroz contra os que se ajoelham para os seus deuses. Quando analisou a tragédia grega, Nietzsche nos mostrou que desde muito cedo, comédia e tragédia associam-se como as duas faces de uma mesma moeda. O que vamos ‘pagar” devido à guerra dos deuses (em andamento) e a loucura geral dos seus filhos, assim como as “brincadeiras” com crenças alheias, a meu ver, está, infelizmente, apenas começando.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Nivha Ferreira 9 de janeiro de 2015 20:02

    Em A Origem da Tragédia, Nietzsche atribui ao racionalismo socrático, sempre empenhado pela busca da verdade (através de um debulhar incessante de perguntas), a decadência da cultura grega, antes de fato conciliada, em sua visão, com o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco. Sócrates teria levado a juventude a apenas pensar, instaurando, assim, o triunfo do apolíneo e provocando o esquecimento da vida, que deveria ser vivida celebrativamente, e não sob o jugo de uma razão sisuda, do intelecto, pura e simplesmente. O que ocorre hoje, em relação aos fundamentalismos, não é nada apolíneo, já que o apolíneo está, entre outras coisas, para a justa medida, o equilíbrio, para as indagações filosóficas. E quem indaga duvida… Muito menos será dionisíaco, de loucura sã. O que estamos vendo, concordo, é loucura no seu sentido patológico. É fanatismo. Hipnotizados querendo hipnotizar quem ainda está desperto. Mais ou menos despertos, tantas vezes. Resta a perplexidade.

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