O impasse de Tatiana

Por José Castello
O GLOBO

Ana se isola na chácara de uma amiga, em Nogueira, região de Petrópolis,para se dedicar à escrita de um romance. Procura intransigente, ou uma simples fuga? Perseguição de um desejo, ou desistência? Acredita que, sozinha, acessará com mais liberdade os subterrâneos da memória _ de que, ao mesmo tempo, está sempre a fugir. Avançar, ou recuar? Escrever, ou silenciar? Muitas dúvidas acionam a escrita de Ana, reproduzindo o movimento incerto que caracteriza, em geral, a literatura. Faz sua escolha: isola-se para se entregar à imaginação. Mas a imaginação _ espécie de cauda _ arrasta consigo, sempre, parte do passado. Ana não tem como fugir: está sozinha, mas agora o cerco se fecha mais ainda.

Não esperava encontrar Daniel, um artista que, como ela, isolou-se na mata para pintar e escrever. Um homem que, imitando-a, confiou no silêncio. Daniel é seu espelho, mas é também seu desafio. Nele, Ana vê um tanto de seu próprio pavor. Por que se faz uma escolha? Pensamos em uma coisa, mas agimos por outra. Não somos seres simples, nem coerentes _ e é disso que trata “Paraíso”, o novo romance de Tatiana Salem Levy (editora Foz). A ficção _ e Ana, a protagonista de Tatiana, experimenta isso de forma radical _ tem um caráter ambíguo. Revolver a imaginação não é fugir da memória, ao contrário, é escavá-la. Trabalhando com uma maldição que envolve cinco gerações de mulheres, Ana se descobre, ela mesma, vítima desse destino. Isolar-se para escrever um romance em um sítio remoto é impossível _ a realidade insiste e penetra, como que amaldiçoada também. No fim, descobre que  a história de uma escrita é a história de uma luta contra a memória. A fantasia, no mais remoto e protegido paraíso, vem sempre manchada pelas luzes do real.

Além disso, mesmo o mais belo paraíso está perfurado por pequenos infernos.

Antes de isolar-se, Ana teve uma relação com um rapaz contaminado pelo vírus HIV – e agora, depois de testes preliminares, espera pelo exame definitivo que confirmará, ou não, a contaminação. “O medo de Ana não era apenas estar doente. Era também o medo do passado”. Presente e passado se misturam, já não é possível estabelecer uma fronteira entre eles. A escrita, em vez de ajudar, dificulta essa separação. O tempo, enfim, é só uma ilusão pessoal. A palavra não passa de um impasse.

Ana escreve na esperança de se salvar através das palavras. Escapar não só do vírus, mas da maldição que trabalha em seu livro. “Antes mesmo de se dirigir ao centro de saúde, Ana se recobrou da certeza de que a maldição chegava até ela”. Do século XIX, ecoa a dor de uma escrava que, depois de engravidar de um barão, é enterrada viva. Essa dor se propaga por cinco gerações e agora a alcança. Isola-se para voltar a si, mas sabe que sua escolha não deixa de ser um tanto extravagante. “Toda vez que viajava para escrever, sentia-se meio ridícula”.

Na mata (no escuro da ficção), é tomada por sentimentos extremos e incompreensíveis. A ficção lhe traz um senso de onipotência: escreve para salvar não só a si, mas a escrava que pronunciou a maldição. Todas as mulheres de seu romance têm um destino errado _ o erro parece ser, mais que um castigo, uma marca da existência. Ao perseguir o fim desse destino, Ana quer salvar uma vida que não se salva, já que ela é, também, turbulência e sofrimento. Uma prova disso? Sabe que só consegue escrever quando está com fome. “Seria difícil trabalhar com o estômago cheio”, admite, depois de devorar a comida deixada pela caseira Rosa.

Tenta manter o controle, mas “as coisas começavam a tomar um rumo
diferente do que Ana imaginava”. A escrita (a vida) é a experiência do descontrole. Você se isola na mata na esperança de se livrar da contaminação do mundo. Do vírus que o outro representa. Aos poucos, contudo, descobre que a memória _ que nunca o abandona _ é uma espécie de doença. Uma contaminação sem cura, que solidão alguma consegue abrandar. Conforme os dias passam, Ana se deixa invadir por lembranças do passado remoto. Memórias que recolocam no centro da cena a dor. Aos poucos, ela compreende que escrita (ficção) e vida (memória) se originam da mesma substância incerta. Mais ainda: que é preciso aceitar essa incerteza, ou não se consegue nem viver, nem escrever. Que é preciso suportar a presença do outro, mesmo quando ele está ausente.

“Agora, no sótão de Mercedes _ a amiga que lhe emprestou a casa _, a  lembrança surgia com a realidade do presente”. Também o presente é invadido. Também o real cede aos solavancos da memória. No meio de tudo, a fantasia, que  é uma espécie de cola com que tentamos reter o que se perdeu. Quando rememora uma conversa com Bel, a irmã que faleceu em um acidente, observa que “a história saiu em pedaços, entrecortada, uma frase aqui, outra ali, não veio inteira, com início, meio e fim”. Ilusão dos romancistas diligentes: a de que chegarão, depois de muito esforço, a uma “história bem contada”. Toda história se desenrola em fragmentos. Toda história é despedaçada _ e nem o artifício da ficção consegue reconstruí-la. A perfeição não passa de um entrave.

Além do mais, não é o escritor quem escolha suas lembranças, são elas que o assaltam e submetem. “Há lembranças que voltam com frequência. Ela não sabe dizer como é feita a seleção. Por que algumas imagens perduram tanto e outras simplesmente desaparecem?” A quem escreve resta ceder, entregar-se e escutar. Escutar a si mesmo e à tempestade de imagens que a memória arrasta.

Por isso, tantas vezes, e Ana sabe disso, é preferível o silêncio. Só ele se aproxima, um pouco mais, do paraíso. Daniel experimentou isso em uma visita ao avô doente, emudecido pelo Parkinson. “Na sua cabeça, o avô, mudo, queria dizer muito mais do que nas tardes de domingo em que falava sem parar”. É uma lição difícil para um escritor: valorizar a pausa, a lacuna, a espera. Saber esperar.

Certa vez, mostrando cartas de família para o pai, Daniel dele ouve que “a memória é sempre uma invenção, uma história contada e modificada”. Pois é justamente com esse paradoxo que Ana agora deve lidar: sustentar a consciência de que, ao reconstruir a verdade, ela mente também. Paradoxo, enfim, que move todo o romance de Tatiana Salem Levy. Um romance sensível, que tem a própria literatura _ despedaçada, incerta, desafiadora _ como feroz protagonista.

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