O Império dos Galos

Por José Saddock

Quando cheguei aos Galos, terra de ninguém, situada na parte continental entre Pedra Grande e Canoas, o mar estava calmo e silencioso. A manhã, luminosa e quente, banhava a areia branca da praia e o único rancho de pesca construído até então naquelas paragens. Seu dono, Chico Marrafa, pescador de 83 anos, vivia solitário naquele paraíso, um mundo no qual o tempo havia morrido; até era possível reconhecer distintamente: natureza original e pálido vestígio da presença humana. E era justamente isso: tudo o que nasceu e teve o seu fim natural, estava ali, deitado como uma semente, adormecido em um solo imaculado. Do rancho, não obstante a claridade, à primeira vista, aquele lugar era feito de areia, mar, rio, mangue, alguns coqueiros e uma velha jangada; um pouco mais além, como se fosse um oásis, algumas mangueiras, algarobeiras e duas imensas frutas-pão, completavam a paisagem. Penetrar naquele deserto e iluminado mundo, não somente com o olhar mas com o coração e as coisas do tempo atual, constituía a esfera essencial da experiência a que me propunha realizar. Mas seria possível desvelar a poeira de um século? Seria possível unir os dias que fizeram a história daquele homem, cuja vida foi quase invisível? O mundo daquele velho pescador era muito reduzido, um quase nada de mundo. E ele, a lenda viva dos Galos, parecia calado, distante, avesso a qualquer conversa. Até ali, apesar dos esforços empreendidos, havia colhido apenas uma pequena história. Disse-me, após um dia de silêncio, que numa noite de lua cheia e vento forte, sentiu um cheiro deletério exalando do corpo.

– Me dei conta de que ia morrer. Meu corpo estava apodrecendo. Tomei tento e fui procurar os meus. Depois de dois dias de caminhada, muito sol e muita chuva, cheguei. Mariazinha, minha filha mais velha, estava na janela da casa de Tonha, sua mãe. Cheguei e fui logo dizendo: vim para o descanso eterno, estou mais entre os mortos que entre os vivos. E fui me despejando em riba da cama, levado pelos soluços de Mariazinha, que me perguntava a toda hora: “Que catinga é essa, pai? Deus nos livre do fartum dos mortos, paizinho!” De dentro eu sei que não é, pois o fedor vem de fora, como do sovaco, isso eu bem sei, dizia num aperreio danado. Um dia inteiro se passou e eu não morri. Já pro segundo, minha Tonha me pediu a roupa, para lavar na cacimba. Levantei e tirei a roupa… Foi quando se assucedeu o fato. – Qual, perguntei ansioso. – Do bolso, espia só, do bolso me caiu um passarinho, um pardalzinho azul de morto. O bichinho tinha morrido no meu bolso e eu não sabia. Os vermes lhe comiam as carnes. Só tinha pena… Pobrezinho…

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