Impressões de domingo

Por Carlos Eduardo Galvão Braga

Há uma semana, era domingo, 17 de abril de 2016. Naquele dia, durante algumas horas, um certo Brasil mostrou seus dentes aos telespectadores do país e ao resto do mundo. Alguns desses dentes, enfileirados em largos sorrisos de sarcasmo e satisfação, pertencem a indivíduos que, da sombra confortável em que vivem, apenas rosnam, grunhem ou bodejam. Habituados ao mando (e principalmente aos desmandos), limitam-se em geral a emitir sons inarticulados à guisa de verbalização. Seu espírito público é tão precário quanto a linguagem de que se valem para manifestá-lo. Refiro-me, é claro, a várias dezenas de legisladores – deputados e deputadas federais –, portadores da representação que parcelas do eleitorado brasileiro houveram por bem (ou por mal) lhes confiar. O mais recente espetáculo que eles protagonizaram sem nenhum pudor afastou o tédio eventual do domingo, pondo em seu lugar manifestações explícitas de horror e incivilidade.

Tudo isso, aliás, era previsível e dava a impressão de que estávamos, nós, brasileiros, andando para trás. Tratava-se, como todos sabem, de votar a abertura, na Câmara, do processo que visa destituir de suas funções a presidenta Dilma Rousseff para devolver a importantes facções políticas, sob forma hegemônica, um poder autocrático e discricionário que elas (e seus financiadores habituais, os grandes empresários) perderam – em parte, pelo menos – há cerca de quinze anos. Um por um, os 513 deputados presentes postaram-se diante do microfone ou o agarraram com as mãos, salivando nele, para declarar seu voto. Alguns, na casa de horrores em que foi se transformando a Câmara dos Deputados, para vociferá-lo.

A cobertura midiática dessa votação mostrou amplamente, em quantidades desiguais, a lucidez, o destemor, a coerência, ou a covardia e o desrespeito (quando o voto era proferido por uma deputada contrária ao impeachment), ou ainda a franca intolerância (quando, por exemplo, o deputado Jean Wyllis declarou seu voto). E, quase continuamente, uma combinação de pieguice e hipocrisia.

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Cristo carrega a cruz, de Hieronymus Bosch 

Uma turba ruidosa e impaciente, aglomerada em volta do microfone, aguardava que cada um dos votantes se pronunciasse, para ovacioná-lo e aplaudi-lo ou escarnecê-lo abertamente, reforçando o deboche com vaias e insultos, conforme ele fosse aliado ou adversário do presidente da Câmara e seus sectários. A imagem dessa aglomeração escarninha, gravada na minha memória, me lembra um quadro de Hieronymus Bosch (Cristo carrega a cruz) que tem as cores de um pesadelo. Nesse quadro datado de 1502, o mestre flamengo representou, além de Verônica, homens que se mostram indiferentes ao padecimento de Cristo ou parecem divertir-se com ele. No rosto de cada um deles, um esgar de escárnio, de estultície ou de desprezo denuncia seus verdadeiros sentimentos. A maioria dos nossos deputados, que poderiam ter servido de modelo para essa turba, não merece, porém, ter seus nomes associados ao gênio de Bosch – que a maioria deles, aliás, certamente ignora. Mas o espetáculo de fúria, ruído e desprezo que eles encenaram domingo passado não perde, na comparação, em termos de significado. A votação – de que depende, a curto e médio prazo, o destino dos brasileiros – logo se transformou na caricatura grotesca e cruel de um referendo parlamentar.

A ostensão acentuada – própria da caricatura – marcou as manifestações do bando que reunia mais de dois terços da Câmara. Seus membros urravam para expressar sua discordância ou sua alegria, ou ganiam baixinho, subservientes; um deles homenageou um notório torturador dos tempos – saudosos para ele – da ditadura civil-militar de 1964; uma deputada de Minas dedicou seu voto ao marido – prefeito que, no dia seguinte, seria detido pelo Polícia federal, acusado de improbidade administrativa; um terceiro, espumando sua ira, figurava com os dedos uma arma de fogo enquanto cuspia impropérios e ameaças. Esses indivíduos, homens e mulheres públicas, revelaram-se, no geral, bons atores e atrizes. Afinal de contas, não tiveram de fazer grande esforço: estavam representando a si mesmos, praticamente sem artifícios.

Foi didática, além de deprimente, a noite televisiva de domingo passado. Os deputados federais que votaram, aos gritos, a favor da destituição da presidenta Dilma Rousseff nos ensinaram, a nós, brasileiros, tudo aquilo que não convém aprender. Adeptos e praticantes (conscientes ou não), no recesso do seu lar – e no espaço público que deveriam, com o seu trabalho, tornar menos irrespirável –, de uma variante tropical da pedagogia negra que Alice Millertão bem analisou, esses homens e mulheres estão na contramão da cidadania. Inimigos da vida democrática, querem, no fundo, nos convencer, com seu triste exemplo e sem argumentos válidos, de que a prepotência, o ódio, o desprezo, a chantagem, o privilégio, a falsidade, a infâmia, a truculência, o sarcasmo, a conivência com o crime, a intolerância, o desrespeito à opinião do adversário e – prenúncio legível nas palavras do deputado Jair Bolsonaro – sua supressão pura e simples servem para regular o convívio humano neste loteamento desigual a que damos o nome de Brasil.

Grande parte dos nossos legisladores – homens e mulheres que votam as leis às quais todos devemos obediência até que elas sejam alteradas – são réus no Supremo Tribunal Federal (como é o caso do atual presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha) ou respondem a processos criminais. Na condição de suspeitos, infratores ou criminosos, encontram-se fora da lei ou têm dívidas a saldar com a justiça. Não possuem, portanto, estatura moral para nos representar e muito menos para destituir uma presidenta da república eleita pelo voto popular.

Quantos desses deputados e deputadas estudam a fundo os problemas do Brasil, com a intenção de ajudar a resolvê-los ou, pelo menos, a equacioná-los bem? Quantos se distinguem por seu amor aos livros, às artes, à cultura, à liberdade de expressão e de pensamento, à liberdade tout court? Quantos enxergam além do seu nariz e dos seus interesses? Quantos deles, homens públicos,amam verdadeiramente os brasileiros que fazem o Brasil, e não apenas sua filhinha, sua mulher ou seu filho varão? Quantos merecem, por sua nobreza de caráter, sua honestidade e seu desprendimento, a nossa admiração? Quantos sentem verdadeiro apreço pela vida, onde quer que ela se manifeste? Quantos estão empenhados em promover, na mais ampla escala possível, o bem comum, objetivo essencial da política que eles não sabem praticar? Quantos merecem, portanto, ser chamados de políticos? O acabrunhante espetáculo de domingo passado mostra que mais de dois terços da Câmara de Deputados são tudo, menos políticos dignos desse nome.

Comments

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  1. José de Castro 23 de Abril de 2016 19:11

    Assino embaixo de tudo o que foi dito. Nada a acrescentar, senão um sentimento de frustração e impotência diante de tanta hipocrisia. Será que haverá resistência fora dos limites daquela malfadada “casa do povo” que hoje mais parece “casa de mãe Joana”? Será que “as ruas” se erguerão no combate a tanta ignomínia? Esperamos que sim. Pelo bem do Brasil. Pois aqui não se trata apenas de defender uma presidenta legitimamente eleita, mas, sim, defender a dignidade de cada um de nós brasileiros que ainda acredita na democracia e em dias melhores para esse País. Um país que poderia ter tudo para ser uma grande potência, aqui e lá fora. Mas que sofre de um mal antigo, que é um modelo político arcaico, viciado, vencido, carcomido e que nos fazer passar por vexames como o desse fatídico dia 17 de abril. Reforma política já!!!

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