Impressões sobre a primeira noite do Festival Literário de Natal

Por Tácito Costa

Assisti integralmente a programação de ontem à noite, primeiro dia, do Festival Literário de Natal, na Ribeira. Como sempre a primeira mesa redonda é a que atrai menos gente. A segunda já melhora e a terceira, se tiver cantor, lota ou superlota. Foi o caso de ontem. Embora já na segunda mesa a tenda estivesse com muita gente. Eu achei interessante a idéia de colocar a primeira mesa da noite numa tenda menor, antes ficava tudo num mesma e gigante tenda. E aquele vazio enorme, do meio pra trás.

Lamentei muito não ter assistido a apresentação à tarde de Ronaldo Correia de Brito, um velho e querido amigo a quem ciceroneei algumas vezes em tempos idos aqui em Natal e em uma delas levei-o para consertar um relógio num relojoeiro ali perto do Beco da Lama. Tratava-se de um relógio de valor sentimental, o que eu não sabia, e o tal relojoeiro não só não resolveu o problema como o agravou para grande constrangimento meu. Felizmente, o escritor perdoou-me, reconhecendo que eu estava com a melhor das intenções. Até hoje evito perguntar as horas a Ronaldo – rs.

A primeira mesa de ontem “Vidas potiguares: biografias de Newton Navarro, Carlos Alexandre e Jesiel Figueiredo”, reuniu José Correia (Editor da Caravela Cultural), o escritor Carlos Fialho e os jornalistas Luana Ferreira, Sheyla Azevedo e Rafael Duarte, que escreveram, respectivamente, as biografias de Jesiel, Navarro Carlos. Da série de biografia lançada pela Caravela li as de Navarro e a de Homero Homem, escrita por Alexis Peixoto, que hoje mora em São Paulo. Dois trabalhos bem feitos e acredito que os demais estão no mesmo nível. Foi uma mesa redonda bacana. Os autores contaram detalhes do processo de produção dos livros e também curiosidades sobre os biografados, o que certamente despertou o interesse nas pessoas presentes em conhecer mais sobre esses importantes nomes da cultura potiguar.

Achei curto o tempo destinado a segunda mesa, que teve como tema “Oscar Niemeyer: arquitetura e literatura, duas artes em diálogo”, com Guilherme Wisnik e mediação de José Gaudêncio. Devido à passagem de som essa mesa começou mais tarde e teve seu tempo encurtado. Wisnik ainda tinha muito coisa legal pra falar, sempre numa linguagem e explicações acessíveis e pontuadas por imagens num telão com as principais obras de Niemeyer. Achei interessante ele se referir a arquitetura do “pai fundador”, como ele nomeou Niemeyer, como uma “arquitetura narrativa”, numa clara alusão à literatura.

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“Poesia: do modernismo ao pós-tudo” foi o tema da terceira mesa, com Arnaldo Antunes, Francisco Bosco e Antônio Cícero. Foi curiosa essa mesa porque cada um tomou um rumo narrativo diferente. Antunes falou sobre vanguardas artísticas, modernismo, pós-tudo, Geração de 45, rótulos, até chegar a defender a liberdade literária atual, onde o artista pode fazer sua obra usando todas as linguagens e formas disponíveis. “Rótulos são redutores, quero ser chamado de inclassificável”, disse o poeta e compositor.

Francisco Bosco abordou a relação mais social da arte, chamando atenção para a importância da canção popular brasileira, que forjou uma imagem do Brasil, feito que o pessoal do Modernismo de 22 não conseguiu. Pelo que apreendi ele considera que a música popular brasileira escamoteia a divisão e desigualdade da sociedade, e citou dois marcos que implodem isso, o surgimento dos Racionais Mc’s e os protestos de junho do ano passado. Esses dois marcos, como ele chamou-os, explicita as divisões e aponta vias para sua superação.

Afinal o que é poesia? Será tudo que o autor/poeta nomeia como tal? Essa conversa me interessa até demais. E a fala de Antônio Cícero foi do começo ao fim uma tentativa de responder a essas importantes e cada vez mais recorrentes questões. Principalmente depois da Internet que permite que todos publiquem seus escritos e os chamem como querem, seja poesia, crônica, artigo, ensaio etc etc etc. Cícero se referiu ao caráter fetichista da rima e métrica, implodido pela vanguardas, o que permitiu uma liberdade poética total ao fazer poético. “Nenhum procedimento poético deve ser proibido, mas não vale tudo, a idéia de que vale tudo é inaceitável”, disse o poeta, alertando para o perigo do relativismo (também) nessa área. Ele pegou como exemplo (exibiu no telão) o “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Bandeira, “que fez um poema de verdade”, mostrando que não é só pegar uma notícia de jornal e dizer que ela é um poema. Segundo Cícero, a “régua” para se medir a qualidade do poema, visto que não existem fórmulas científicas ou matemáticas para tal, é o cânone. No que eu concordo totalmente.

A noite foi encerrada em grande estilo por Adriana Calcanhoto e Cid Campos, filho do poeta Augusto de Campos, que se apresentaram para uma tenda superlotada, principalmente por jovens, o que é sempre muito bacana de se presenciar porque renova nossa esperança na humanidade (solapada quase todo dia), revelando que ainda tem muita gente que se interessa por literatura e música de qualidade, coisas que podem nos humanizar um pouco mais.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. thiago gonzaga 7 de novembro de 2014 18:01

    Parabéns pelo texto Tácito Costa.
    Além de informativo, jornalistico, está bastante literário.
    Vc o fechou com chave de ouro.

    • Tácito Costa 10 de novembro de 2014 9:05

      Beleza Thiago, obrigado e aquele abraço.

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