Impressões sobre as impressões (já temos um passado)

livro - thiago

Somente nesta segunda semana de 2014, recebi o exemplar de “Impressões digitais” (gentilmente enviado por Manoel Onofre Jr., um presente de Natal, em diferentes sentidos), volume de entrevistas com escritores potiguares que Thiago Gonzaga organizou.

Além do bonito aspecto gráfico, vale destacar a multiplicidade de gerações e experiências ali manifesta. Se a militância de cada um convida à exclusão dos fiéis pertencentes a igrejas concorrentes (cada macaco em seu galho, farinha pouca meu pirão primeiro), o trabalho da crítica exige o convívio entre diferenças. E o leitor se beneficia através do contato com pessoas que sobreviveram e aprenderam de tão diferentes formas, da mãe de família ao delegado de polícia, passando pelo povo da universidade e da imprensa.

No quesito geracional, Thiago foi muito bem sucedido. Sinto falta, todavia, de atores mencionados mas ausentes no nível de corpo e fala. Vários dos entrevistados, adeptos de uma poética mais clássica,  fizeram referências, p. ex.,  a poesia visual e antigas vanguardas, marcando distância em relação a elas – o que é direito de qualquer filho de Deus, claro. Seria muito bom se também os rejeitados dissessem a que vieram, o que foram ou ainda são seus projetos – alguns deles começaram a ocupar espaço no cânone potiguar, já existem dissertações de Mestrado que se debruçaram sobre seus fazeres… Thiago anunciou novos volumes no mesmo projeto, essa ausência poderá ser suprida. Desde já, sugiro os nomes de Moacy Cirne, liderança central na área, e Dacio Galvão, que a pesquisou. Outros nomes poderão ser identificados por Thiago. Pessoalmente, prefiro pensar que vanguardas e retaguardas precisam umas das outras, até para reafirmarem a força de seus argumentos e de suas práticas. E o critério principal deve ser a qualidade da produção, não o anúncio de um programa ideológico (a pureza da tradição ou a pureza da ruptura) que muitas vezes  significa nada. Algo parecido poderia ser dito em relação a produções literárias de combate político, que um dia se fizeram presentes na cena potiguar, brasileira e mundial: deixaram completamente de existir, nem memória nos legaram, só o mercado conta?

Cada entrevista é uma amostra indireta da escrita dos narradores. Apesar disso, excertos de obras seriam muito bem-vindos, tornando palpável a excelência de todos.

Este SP se fez muito bem representado no volume, com entrevistas de colaboradores que se dedicam a diferentes gêneros textuais e defendem diferentes políticas culturais – nossa cara.

Comments

There are 5 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 9 de Janeiro de 2014 12:17

    Gostei muito da iniciativa de Thiago Gonzaga, em publicar esse material histórico de tanta importância para a nossa literatura. O título dado por você a esse texto é a concretização disso. ” Já temos um passado.” Bela sacada, Marcos Silva!

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 9 de Janeiro de 2014 22:41

    Muito sensatas suas considerações Marcos. Thiago já anunciou que virão pelo menos mais dois volumes. Com isso, acredito que se possa contemplar algumas das suas sugestões.

  3. thiago gonzaga 9 de Janeiro de 2014 23:30

    Nossa, que massa ! Eu volto das ferias para curtir os textos do SP e encontro logo de cara um sobre o meu livro ( que sorte a minha ) e ainda por cima do Professor Dr Marcos Silva, escritor que tenho grande admiração e orgulho, pois faz parte da minha terrinha.

    Confirmo tbm humildemente amigos, que o trabalho tem sido bem aceito. Tenho enviando livros para todo o Brasil, inclusive com a ajuda do Manoel Onofre Jr e David Leite e outros amigos da literatura.

    Agradeço tbm publicamente ao grande François Silvestre que escreveu um belo texto sobre o livro.
    O mérito vai todo para voces que sao escritores e lutam pela nossa literatura.

    Amigos confirmo alguns nomes para o volume dois do meu livro que já esta bem adiantado ( devo publicar lá para julho ). Isso é em primeira mão aqui para o S.P.

    Diógenes da Cunha Lima
    Moacy Cirne
    Sanderson Negreiros
    Ana Maria Cascudo
    Nivaldete Ferreira
    Anchieta Rolim
    Carlos Fialho
    Sandro Fortunato
    Marize Castro
    E muitos outros da nova e velha geração.

  4. Marcos Silva 10 de Janeiro de 2014 9:18

    Thiago:

    Grande abraço. A seleção de futuros entrevistados inclui nomes expressivos. “ovo/novelo/novonovelho” (Augusto de Campos).

  5. Marcos Silva 10 de Janeiro de 2014 9:21

    Anchieta e Tácito:

    Obrigado pelos comentários, abração.

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