Impressões sobre o IIIº MPBJazz

Talvez ainda fruto da passagem dos americanos na IIIª Guerra Mundial, ou por outros motivos diversos, Natal é uma cidade em que se pode encontrar, até com certa facilidade, apreciadores de Jazz, gênero musical que é reconhecidamente um dos pilares da cultura norte-americana e que se espraiou pelo mundo inteiro. Com a qualidade dos nossos músicos instrumentistas temos obtido novas oportunidades de ver e ouvir execuções da grande música americana e suas derivações. Mas temos raríssimas oportunidades de receber cantores, músicos e bandas de Jazz dos EUA se apresentando na nossa terra. A iniciativa da produtora Mônica Mac Dowell e da cantora Valéria Oliveira, nessa interação e intercâmbio com uma boa turma de New Orleans – berço do Jazz – possivelmente ajudará a consolidar uma mudança nesse contexto, fortalecendo a cena local também com a troca de raras e valiosas experiências.

Nesse sentido, a realização da curta (mas frutífera) terceira versão do festival denominado MPBJazz deixou satisfeita (querendo mais, é claro!) e entusiasmada a maioria dos amantes do gênero que se fizeram presentes às noites cheias de calor e glamour do final de janeiro. Compareci com certo receio ao Teatro Riachuelo, já que não sabia de fato o que encontraria quanto aos americanos, não havia participado das duas versões anteriores, que, se não me engano, foram no Teatro Alberto Maranhão. Não me arrependi. Saí em êxtase a cada encerramento das duas sessões de shows, destacadamente na segunda e última delas.

As duas atrações locais, Simona Talma e banda e o Duo Taufic não fizeram feio. Ao contrário, mostraram a que vieram executando espetáculos de alto nível e dignidade. La Talma se manteve firme no primeiro show do evento, mostrando uma tranquilidade docemente blasé e fazendo uma performance leve, até certo ponto romântica e com muito bom humor. Trabalhou diversas de suas canções e expôs o lado criativo dos nossos bons músicos potiguares. Sua banda estava bem afiada e harmônica. Houve equilíbrio e o resultado foi um show agradável, abrindo bem a primeira noite.

O Duo Taufic é impressionantemente competente. Os dois irmãos (Roberto e Eduardo) fizeram um show primoroso, cheio de requinte, com a plenitude da qualidade técnica que os dois sempre exibem e uma parceria que se solidifica pela cumplicidade e pela admiração mútua que não fazem questão de esconder. Violão e piano se integravam cronometricamente, sem grandes esforços visíveis (apesar de evidentemente existentes). Não me lembro de terem precisado sequer de partituras. Fizeram tudo de corações e mentes amplificados. O ponto alto, a meu ver, foi uma versão jazzística de “Apanhei-te, cavaquinho”, composição de Ernesto Nazareth transformada magistralmente pelo Duo.

E o que falar da apresentação dos americanos da “The Ella & Louis Tribute Band” com Eileina Dennis e Leon “Kid Chocolate” Brown e Aurora Neadland e Germaine Bazzle (FOTO) com o “504 Experience”? Possivelmente teria que escrever um novo artigo. Mas dá pra resumir dizendo que o grande destaque ficou mesmo com as maravilhosas divas Eileina e Germaine e suas vozes e carismas acima da média e seus dons interpretativos e de improviso. E ainda friso a fantástica apresentação da cantora e clarinetista super versátil, criativa e divertida chamada Aurora Neadland interpretando o colosso das origens Sydney Bechet e até mesmo a eterna “Ne me quitte pas”, do belga Jacques Brel.

Mas, quem foi às duas noites do MPBJazz certamente jamais esquecerá a participação mais do que especial de um gigante (em todos os sentidos) chamado Gerald French, que arrebentou naquela bateria mágica e saborosa. O instrumento parecia um brinquedinho em meio a suas grandes mãos e o seu rá-tá-tá cheio do mais puro espírito jazzístico de New Orleans.
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Texto publicado também no jornal “Tribuna do Norte”

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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