Impressões sobre Saramago

Betânia Monteiro, do jornal Tribuna do Norte, ligou no meio da manhã. Queria umas declarações minhas sobre Saramago. Contou que Carlão indicou-me para falar sobre o escritor português. Carlão (Carlos de Souza, co-fundador do SP) me viu algumas vezes com livros do escritor e cheguei a comentar com ele essas leituras. A repórter pegou-me num dia atribulado e de surpresa, saindo de casa, já atrasado, para uma reunião de trabalho, depois um encontro num banco para resolver pendências e café com pluralistas na Siciliano (sobre isso depois eu escrevo).

Apressado, sob pressão do relógio, comentei com a repórter umas coisas e esqueci de falar outras. Pelo menos de uma eu lembrei depois e liguei de volta. No início, ainda perguntei se não poderia responder mais tarde, com calma, mas jornal não espera por ninguém. Como jornalista sei disso e é até bom de vez em quando mudar de lado, sentir na pele o que todo entrevistado sente quando é pego numa situação dessas.

Aproveitei e indiquei outros dois leitores de Saramago em Natal, Nelson Patriota e Woden Madruga. Por coincidência, hoje cedo, antes da notícia da morte circular, Nelson enviou e-mail com o artigo sobre Ascendino Leite e um pequeno bilhete, onde perguntava se eu tinha lido a biografia de… Saramago e a de Rimbaud. Ele leu as duas. Respondi que não, que ando às voltas com o romance “Viagem Vertical”, do espanhol Enrique Vila-Matas.

Li muito Saramago. Quase todos os seus primeiros livros. As exceções foram Terra do Pecado, de 1947, e Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977. Comecei com Levantado do Chão, que é de 1980, livro que não gostei muito, o que não impediu-me de voltar ao escritor em Memorial do Convento, para mim o seu melhor livro. Depois vieram, pela ordem, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, o conto (quase novela) O Conto da Ilha Desconhecida e As Intermitências da Morte.

Não li A Caverna, O Homem Duplicado, Ensaio sobre a Lucidez, A Viagem do Elefante e Caim, seu último livro. Comecei a rarear a leitura dessas últimas obras. Atingiu-me um certo cansaço literário do autor e a impressão de que estes livros ficavam a dever aos primeiros, tinham menor vigor, criatividade. Acho, contudo, que no conjunto, o escritor nos lega uma obra de importância.

Gosto do estilo, que alguns não suportam, e das histórias de Saramago, aquela imaginação meio enlouquecida encontrada em vários dos seus livros. Depois que falei com a repórter, me questionei sobre se tinha passado as impressões verdadeiras acerca destas leituras. Temi ter falado bobagens. Faz tanto tempo, já li tanta coisa depois, que fiquei em dúvida se não teria passado uma miscelânea de tudo que eu li até hoje e não apenas sobre os livros de Saramago.

Seria mais fácil se nosso cérebro tivesse compartimentos, pastas, como um computador, onde as coisas estivessem guardadas em arquivos, tipo Literatura, Música, Amor, Dores, Alegrias etc, onde fosse possível acionar algum comando cerebral e viesse somente aquilo que a gente estava buscando. Mas está tudo misturado e é assim que tudo vem.

Outra faceta que eu gostava e admirava em Saramago era o seu engajamento social, sua participação no debate público sobre os mais variados temas, sempre atento e crítico a tudo que se desenrolava ao seu redor. Achava-o um exemplo. Fará falta também nesse aspecto.

Pelas horas maravilhosas que sua escritura me proporcionou só posso ser muito grato.

Descanse em paz, José.

PS.  “Escrever sobre a morte é escrever sobre a vida” (em Intermitências da Morte).

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