INCENSO

Márcio Dantas

Os emblemas de fumo
desfazem-se no ar,
assim os desapegos
dos sentidos vão.

A queima de ervas,
madeiras, exala,
travoso perfume,
corpo purificado.

Estoraque, ônica,
gálbano, aromas
de especiarias
descerram as portas.

Nenhuma deidade
declinaria tal
oferta simbólica
adentrando pela alma.

Comments

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  1. Nivaldete Ferreira 13 de Março de 2011 13:43

    Nada mais bem oferecido à Poesia, às vésperas do seu dia, que esse ritual feito só de palavras. “Estoraque, ônica/ Gálbano, aromas”… Prestando atenção apenas aos sons, e desacostumados às três primeiras, entramos em estesia pela porta da sensação do mistério mântrico, pleno de beleza sonora, já não importando o que significa cada palavra, mas o seu ressoar, a sua reverberação. “O poeta opera a restituição do verbo”, como diz Georges Gusdorf, “devolve à fala as suas ressonâncias, oferece cada palavra numa situação nova (…).” É quando até “as palavras mais utilizadas retomam misteriosamente a sua integridade original e se animam com uma radiosa fosforescência.” Márcio Dantas faz isso, e assim fazendo, oferece o poema a acolhimentos imprevisíveis. Cada leitor abre a sua janela. Abri a minha.

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