… Indecifrável, indefinido… O Amor.

Por Ednar Andrade

Como é bom amar! Não importa… Em que contexto o amor se apresenta. O amor pode submeter à escravidão, pode ser profano. Em nome do amor pode-se cometer enganos; acreditar numa felicidade que, de tão desejada, passe a ser o alimento para alguns corações; fonte inesgotável de vida; santificado pão que do anseio desta necessidade, vivem todos os seres.

O amor, um sentimento que copula sem parceiros; o amor é erótico em si mesmo; palavra que ninguém pintou em vermelho; liberdade que aprisiona; prazer que faz doer; o ar que nos impossibilita de respirar… A saudade que adoece e que cura a solidão.

É este o sentimento que invade os amantes; este sentimento que brota do nada; invade as almas com uma intensidade que assusta. Assim, como náufragos, os amantes buscam na dualidade deste sentimento salvarem-se desta tormenta que os deixa desorientados, sem paz; avalanche de emoção que os sacode para qualquer lado; fragiliza; transpõe; modifica; lucidez e loucura; sanidade, doença sem cura; ponto, contraponto; certeza e medo; luz e calor; querer como um cego tocar o invisível; saber o sabor e o odor de um sentimento abstrato; isto é amar? O que é o amor? O desejo natural do homem de não estar só? Ou uma necessidade de permanecer no outro?

O amor é sentimento único, mas não é igual. Isso o faz um monstro terrível e ao mesmo tempo desejado. Torna o homem masoquista, egoísta. É tão forte que desmascara o individualista. Quem nesta vida pode ser tão rico sem ter um ser amado? Que delícia teriam as águas do mar se fossem insípidas? Que beleza teria a noite sem ter o céu de estrelas bordado? Que fascínio teria abrir, ao amanhecer, uma janela se o Sol não fosse dourado? E no campo a Primavera sem os apaixonados querendo flores para colher? Que suavidade há no olhar dos que não amam? Que certeza há nos corações dos que não crêem no amor? E quantas dúvidas moram, perpetuam-se nos corações dos que amam? É o doce e o sal, o amor; o veludo mais áspero que a minha mão já tocou; é a ferida que mais arde e que parece não precisar de cura, porque se ela cicatriza vem com ela a morte do amor. É preciso que doa para permanecer vivo, é preciso que lateje – não basta ser latente -, incomode, tem que ser mesmo forte, irreverente, cruel, um carrasco que castiga, causando prazer em vez de dor. Só assim pode ser amor; inquietante, barulhento, dentro da alma. Mesmo que às vezes a boca cale, o amor precisa ser uma tormenta dentro do coração. O amor vive da guerra dentro da paz que proporciona. Alimenta-se do desejo contínuo de permanecer… Indecifrável, indefinido. O amor me faz entender de amar; não de amor.

Para entender de amor, morri. Até jurei desamar ou nunca mais amar, mas com este poderoso, quem pode? Vira e mexe, você xinga o mundo, desfaz-se em pranto, risca, rabisca sentimentos, pensa que chegou ao mais profundo e, de repente, você submerge e emerge das águas profundas deste sentimento um outro amor. Amores são amores, divergem tanto e não poderia ser diferente. Por ser universal é único, não é comum; tem personalidade; chega diferente a cada um. O amor… A dor que ninguém rejeita; a poesia que todos querem cantar; o profundo mar; o abismo que todos querem velejar; o obscuro; o negro; o transparente; o claro sentimento da vida. Nele tudo está contido. Tudo há. Não há falta de razão no amar, no amar de cada um. No modo de dizer que sente, ama ou de sentir. Ele é permanente. O eterno sentimento… Sem face, sem cheiro definido, sem lugar-comum; nasce nos becos, no gueto, na lama, em Sodoma, em Gomorra, onde quer que ódio morra, nasce o amor. Eu desconh eço sentimento mais profundo, nem o vinho mais caro, nem a uva mais rara, nem o manjar mais doce têm o seu sabor. Um sabor tão raro, doado pelos deuses, presente divino; anjo sem rosto; um céu cheio de inferno; e fogo; que nos consome; purifica e dá vida.

Assim, é o amor… Doce mistério da minha vida, da tua, de todos; quem não carrega consigo a larva desta borboleta tão mutante com asas plenas? Um viajante sem pouso certo habita nas noites, até nos sepulcros; no coração daqueles que mesmo enterrados foram, levando consigo um segredo de amor; os mistérios noite adentro nos cemitérios, quantos partiram pobres sem provar o seu sabor? No coração da prostituta, que a carne doa sem pudor, nela também habita o amor; este sentimento que me move, te move, conduz o mundo; do santuário ao profano ele é a mola que move, que faz vibrar, que pulsa e faz jorrar sangue ao órgão mais vital; vício; adrenalina; pulsante coração cheio de amor habita em todo ser que ama. Será assim o amor? Tenho amado tanto… Tento entender o amor. Não existe no mundo este professor. Todos já tentaram traduzir, tentam tingir de alguma cor. Muitas tentativas… E ele será sempre mutante, errante, perpétuo, imperfeito, frágil, sutil, assi m como as estações: chuvoso, nublado, outono perfumado, quente como o Sol, num dia de Verão, com seu aroma de Primavera, inconfundível; o seu colorido possui cores tão cintilantes, tão diferentes; ninguém consegue pintar um quadro com a verdadeira cor vinda do amor.

E agora, quando deparamos com esse tratado o que fazer? Fugir? Encarar? Aceitar? Adotar este querubim? Ou este demônio? E agora pergunto por que um sentimento tão lindo nos tira a paz? Arremessa-nos contra o rochedo no meio do mar? Assim, como náufragos, navegam lado a lado; os que amam seguem sem a bússola que é o porto inseguro que os fará aportar com um sentimento alado.

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