Indesejáveis, porém cheirosos

Por Marcelo Coelho
FSP

O primeiro passo para a degradação do ser humano é reduzi-lo a um mero ser, sem papéis, sem língua

O Brasil já pertence ao grupo dos países mais desenvolvidos do mundo. Se havia dúvidas, eis a prova: o governo limitou a entrada de haitianos no país (FOTO).

Sei que a questão não é fácil de resolver. Nas condições atuais, nenhum país poderia absorver de uma hora para outra um contingente enorme de pessoas sem destino.

Mas também sei que, em outros tempos, a história era diferente. Mais de 2 milhões de italianos aportaram nos Estados Unidos entre 1900 e 1910.

Na cidade de Nova York, em 1914, estima-se que o número de judeus fosse de 1,5 milhão. Quatro anos depois, segundo os dados do censo, a cidade toda tinha 4,8 milhões.

O passado brasileiro não foi diferente. Pode-se argumentar que os japoneses, alemães e italianos que chegaram aqui tinham sido, em boa maioria, arregimentados em planos de colonização.

Não se tratava de refugiados ou de pessoas sem eira nem beira, chegando num país mais por questão de sobrevivência do que por qualquer projeto de trabalho. Não eram negros, tampouco. Mais uma razão, a meu ver, para que os relativamente poucos haitianos sejam acolhidos no Brasil. Ia dizer “acolhidos sem restrições”, mas isso é pouco. Significa apenas deixá-los entrar, para que continuem ao deus-dará.

Claro que uma população jogada na marginalidade e na mendicância não vai ser motivo de festa para quem a vir chegar. Mas esses casos seguem um roteiro conhecido.

O primeiro passo para a degradação definitiva do ser humano é reduzi-lo a isso: um mero ser, sem papéis, sem língua, sem mais que a roupa do corpo.

Antes que a sua aniquilação física seja vista como “natural”, “inevitável” e mesmo “desejável” (afinal, quem tem paciência para conviver com uma escória animalizada?), é preciso ocorrer a sua aniquilação civil.

É a invenção moderna do “apátrida”, sobre a qual escreveu Hannah Arendt, pensando na morte dos milhões de judeus sob o nazismo.

Destituídos de sua cidadania, os judeus da Alemanha entraram inicialmente num limbo legal. O processo continuou até que, destituídos de suas próprias roupas e de seus próprios nomes (substituídos nos campos de extermínio por um simples número tatuado), já não eram nada mais que corpos, cadáveres vivos, para os quais a única “solução” era acabar de vez com eles.

Numa tradução muito descuidada, saiu há alguns anos no Brasil o livro “Depois de Auschwitz”, escrito pelo filósofo espanhol Antonio Reyes Mate (editora Nova Harmonia).

Ele cita uma frase memorável de um ministro da Justiça de seu país sobre os estrangeiros ilegais: “Para o Estado, o imigrante sem papéis não existe”. Como não existe, sua morte -em última análise- não fará a menor diferença.

Reyes Mate traça um panorama do pensamento de vários filósofos (Lévinas, Benjamin, Foucault, Agamben) a respeito das raízes político-intelectuais do genocídio nazista, apontando para a silenciosa presença de alguns de seus pressupostos no mundo contemporâneo.

Para o francês Emmanuel Lévinas, por exemplo, o culto hitleriano da “raça” e da “terra natal” foi a consequência de teorias que, ao longo do século 19, foram construindo uma visão puramente biológica do ser humano.

Na medida em que a liberdade do homem deixa de ser levada em consideração e se dá mais peso às determinações do meio ambiente ou da genética, o que existe de único em cada indivíduo perde valor.

Pulo alguns passos na exposição de Reyes Mate e destaco outro ponto. Os direitos “do homem e do cidadão”, segundo a célebre fórmula da Revolução Francesa, pressupõem (de modo algo mágico e arbitrário) que o tal cidadão tenha nascido no território nacional… Terra e sangue, no fundo, decidem sobre quem tem direitos e quem não tem.

Exagero? Um exemplo dos dias de hoje. Por que só netos de italianos teriam direito à cidadania italiana? Mesmo sem distinguir um rondelli de um mascarpone, o brasileiro pode ganhar seus papéis se provar “una vera” herança genética… Para mim, estamos nas raias do racismo com isso.

Sorte que, enquanto as autoridades brasileiras controlam a entrada de haitianos, eles fazem sucesso (segundo a Folha deste domingo) com as mulheres nacionais. São considerados elegantes, cheirosos, bonitos e, ainda por cima, falam francês.

Nossas elites não são mais o que eram. Há algum tempo, só o fato de falar francês garantiria cidadania plena por aqui.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Jarbas Martins 25 de janeiro de 2012 15:19

    Pobres haitianos. Estão sendo vistos como objetos sexuais. O caminho para a prostituição é o que lhe resta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo