Indignados esgotam despolitização criada pelo fim do muro de Berlim

Por Juca Ferreira
NO TERRA MAGAZINE

Estive na Porta do Sol. Quarenta mil pessoas. Estava lindo! Adoro o clima que se cria quando as pessoas se põem em movimento, quando questionam as situações adversas, quando querem ser senhores do próprio destino.

A praça estava alegre como a Praça Castro Alves já foi um dia e tinha cheiro de liberdade, de força. Muita música alegre. O rítimo do Olodum era um dos preferidos através de tambores tocados por jovens espanhóis. Tudo era alegria e sentimentos positivos. A política é uma dimensão da experiência humana. E não é só coletiva. É também um meio de empoderamento pessoal. Essa energia que a política, em momentos especiais, pode criar é algo singular. A própria evolução do movimento está fazendo com que os indignados estejam ficando mais anti-capitalistas e mais críticos à incapacidade dos políticos e das instituições de encontrarem soluções.

A crise é do sistema capitalista e é global. E, ainda não chegou ao seu ápice. Não se enganem, pode chegar aos países emergentes, como o Brasil. As medidas necessárias custarão a sair por aqui. Quem tem força para aprovar um controle das operações do capital financeiro? A primeira tendência é jogar os custos da crise nas costas das conquistas sociais. E, por isso, os indignados estão se tornando globais. Ontem, em praticamente 1000 cidades no mundo, quase cem países. Em alguns, como no Brasil, a manifestação foi mais fraca. O epicentro da crise está longe. Mas nos países desenvolvidos, onde a crise já é gravíssima, esse movimento já é expressivo e conta com a simpatia geral, e está só começando. Os sindicatos estão apoiando o movimento aqui na Espanha. Os partidos políticos não sabem o que fazer. A direita quer reprimir, mas vai ter um custo alto botar polícia contra um movimento pacífico. Talvez depois da eleição…

Os sociais democratas se dividem. Pensam em fazer um gesto de aproximação para se fortalecerem, mas não conseguem assumir as bandeiras, tipo, controle das operações financeiras. Estão injetando dinheiro público para salvar os bancos sem maiores contrapartidas. Por enquanto, são uma espécie de linha auxiliar das empresas.

A esquerda tem mais proximidade com o que está acontecendo nas ruas e nas redes sociais, mas não tem maior expressão. A primeira faixa que eu vi quando eu chegava à Puerta del Sol tinha escrito: “Madrid será o túmulo do capitalismo”. A maioria é jovem, tem pressa. Querem passar para uma melhor rapidamente. Logo depois “se não nos permitem sonhar, não os deixaremos dormir”. E, a maioria das consignas eram sobre o desejo e o direito de serem felizes e a necessidade de controlar os bancos, prisão para os banqueiros responsáveis pela crise. Muitos cartazes contra os limites da democracia. Tinha uma frase muito significativa: “Não somos contra o sistema, o sistema é que é contra nós”. Muita demanda de participação popular nas decisões políticas, a favor da educação pública e de qualidade e das conquistas da sociedade de bem estar.

Só quem não quer ver não enxerga que algo importante está acontecendo. Acho que a conjuntura de desmobilização e despolitização criada com a queda do muro de Berlim está se esgotando. A política já voltou para as ruas e voltará para o centro do mundo. Mas, será dentro novos padrões, com novas demandas e novas questões. As velhas utopias voltarão e se fundirão com novas sensibilidades. Nova linguagem. Não mais a política como sublimação dos desejos e impulsos vitais dos indivíduos. Ao contrário: a política com o caminho para que todos possam ser felizes e realizem sua condição humana. Senti ontem na Puerta del Sol que o indivíduo não é necessariamente inimigo da coletividade, nem a coletividade precisa ser a morte da individualidade. Não somos bolhas que vivem no vácuo. Uma dimensão precisa da outra. Vamos acompanhar a evolução dos fatos no mundo.

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