Inesquecível tarde poética para Luís Carlos Guimarães

LUIS CARLOS CONVITE

Começo esse texto com duas perguntas que possuem sentido aproximado: Quem são os potiguares? Quem somos de fato e de direito? Talvez uma outra pergunta caiba melhor: O quê e quem queremos ser? Qual a identidade que queremos assumir nos tempos que virão, em contrapartida ao nosso passado e seu percurso, acidentes e glórias registrados? O que fazemos no presente em prol disso? Essas interrogações me chegam fortes após ter ouvido do artista plástico Franklin Serrão uma observação intrigante, seguida de um olhar e uma pausa reticentes, quando preparávamos – juntamente com o poeta João Barra, o Chef Alexandre Gurgel e o produtor cultural Júlio Pimenta – uma homenagem ao saudoso poeta Luís Carlos Guimarães lá no Sebo Balalaika (do vibrante Severino Ramos), na Cidade Alta. A frase foi mais ou menos essa: “– E se os potiguares, de repente, se descobrirem, se encontrarem…”.

Não parei mais de pensar no assunto e nos seus questionamentos intrínsecos. Numa terra conhecida como de pouca auto-estima e mísero auto-reconhecimento dos valores culturais, artísticos e humanos, com algum histórico de iconoclastia de caráter não muito louvável, uma frase dessas é uma chave, um início mais do que adequado para que busquemos elementos sobre a nossa identidade. E cabe mesmo prosseguir com essas indagações para que sérias questões que envolvem nosso processo civilizatório e humanístico sejam permeadas, analisadas, e para que haja alguma mínima tentativa de resposta(s). Este pequeno texto não passa, portanto, de um minúsculo ensaio em busca disso, sem maiores pretensões, a não ser a de provocar mais ainda o debate.

E foi nisso que fiquei pensando durante o sarau que preparamos em homenagem a um dos nossos maiores poetas. Poemas de Luís Carlos Guimarães estavam expostos com as ilustrações feitas pelo grande artista plástico Assis Marinho para o livro “O Fruto Maduro” (FJA/RN, 1996). E eram lidos durante aquela tarde de sábado em que ouvíamos, de forma intercalada, a bela e comovente música de nomes valorosos como Fernando Tovar, Franklyn Nogvaes, Yrahn Barreto, Pedrinho Mendes, Liz Rosa, Aécio Queiroz. Vocês podem imaginar o tamanho da festa? É. Foi grande! E ainda contou com o prato musical (“Baião de Todos”) de Alexandre Gurgel. Sabores gerais…

Naquela tarde em que inauguramos os “Sábados de Ramos”, eventos artístico-culturais que se pretendem mensais a partir de 2014, vivenciamos o encontro de diversas formas de arte e de seus representantes contemporâneos, valores importantes que compareceram e os seus apreciadores. Tantos que, se eu começar a citá-los aqui, cometerei alguma falta grave. O essencial mesmo é que quando nos deparamos com uma festa maravilhosa como essa, um congraçamento leal e real em torno da poesia e das artes do nosso Rio Grande do Norte e de nossa Natal, podemos dizer, sem qualquer dúvida, que os potiguares têm motivos de sobra para o próprio descobrimento e para o encontro.
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Texto também publicado no jornal Tribuna do Norte.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 8 comments for this article
  1. Jarbas Martins 10 de Dezembro de 2013 14:40

    Bela crônica. poeta Lívio Oliveira, sobre Luís Carlos Guimarães.Tão bela quanto o perfil que dele traçou o escritor Manoel Onofre Jr., em seu “Guia Poético da Cidade do Natal”: “Galego do Seridó,bom e desajeitado como um anjo gigante, privado de asas”.Forte abraço,

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 10 de Dezembro de 2013 16:01

    Lívio, estava fora de Natal, por isso não pude participar deste primeiro “Sábados de Ramos”, uma lástima porque esse foi um dos que eu não me permitiria faltar sob hipótese nenhuma. E aqui vai uma revelação que poucos sabem, minha avó, alva e de olhos azuis, como os do poeta, também era Guimarães (Maria Constância Guimarães, casada com um primo, Joaquim Gregório Guimarães), nascida em Serra do Gado, distrito de Santana do Matos, onde nasceram e moraram (ainda tem remanescentes como Anchieta Guimarães e filhos) uma banda da família guimarães (uma outra parte é de Currais Novos, onde nasceu Luís). Portanto, eu e o poeta somos parentes, no tempo em que trabalhamos juntos na Fundação José Augusto e quando estivemos mais próximos, ele me chamava de “primo”, para minha honra. O tempo não apagou a saudade que sinto dele.

  3. Lívio Oliveira 10 de Dezembro de 2013 20:18

    Comentários mais que legais. Obrigado, Jarbas e Tácito. Gostaria de ver todo o pessoal nos próximos “Sábados de Ramos”.

  4. thiago gonzaga. 10 de Dezembro de 2013 20:54

    Lindo, lindo, lindo !
    Maravilhoso.
    Parabéns Lívio Oliveira.
    Amei seu texto. Já esta entre os seus melhores.
    Homenagem muito justa a esse grande poeta potiguar.

  5. Marcos Silva
    Marcos Silva 11 de Dezembro de 2013 3:45

    A Poesia de Luís Carlos é muito bonita, merece essa e outras homenagens.

  6. Lívio Oliveira 11 de Dezembro de 2013 10:34

    Fico muito grato aos amigos.

  7. suely Nobre 11 de Dezembro de 2013 11:54

    Lívio.

    Brilhante o seu texto! Bom seria se essas palavras transcendessem as fronteiras do Substantivo Plural e do jornal diário Tribuna do Norte, alcançando outras paragens, por dois motivos apropriados.
    O primeiro, para que todos os potiguares tenham a oportunidade de conhecer a beleza impregnada na poesia de Luís Carlos Guimarães, e dela possam dizer: “Que poesia terrível e pungente é a sua! Todo o seu livro é uma onda me levando.” (Pedro Nava, sobre o livro Ponto de fuga).
    O segundo para que todos reflitam sobre a nossa identidade cultural e pratiquem ações concretas para estabelecê-la, em todos os rincões desse Estado, alcançando todas as suas vertentes. Nesse sentido conte comigo em qualquer projeto que seja, desde que preservada “a disponibilidade de horários”, rs.

    Não poderia deixar de reportar-me ao comentário de Tácito Costa (na árvore genealógica nossos ancestrais se confundem), o qual reavivou em mim, momentos familiares inesquecíveis e saudades indeléveis, que se estendem ao querido Neto Guimarães, pai de Luis. Dos dois, guardo com carinho e respeito a grande contribuição para a formação do nosso caráter, tão grande o apoio, em especial o intelectual, dado a nossa família quando aqui aportamos, no início da década de 70.

  8. Lívio Oliveira 11 de Dezembro de 2013 14:08

    Cara Suely, seu comentário é importante e enriquecedor. Abraço.

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