Inezita consagrou sua vida à raiz da música

Por Zuza Homem de Mello
ESPECIAL PARA A FOLHA

A morena bonita de cabelos bem pretos e boca larga, estampa e fala de paulista quatrocentona, não estava mesmo destinada ao cinema onde participaria de seis filmes nos anos 50 ­ “Ângela”, “Destino em Apuros”, “O Craque”, “Carnaval em Lá Maior”, “É Proibido Beijar” e “Mulher de Verdade”, premiada com o Sací de melhor atriz.

O destino de Inez Madalena Aranha de Lima, perseguido desde os 14 anos ao concluir o curso infantil de canto, violão e declamação com a professora Mary Buarque, não combinava com o projeto de seus familiares. Era bem mais profundo, muito mais duradouro e voltado para um segmento a que não se dava tanta importância: folclore, música regional. Perseguindo esse alvo concentrou indomável energia até o final de sua vida.

Ainda menina, Inezita em recitais e programas infantis de emissoras de rádio como a Cruzeiro do Sul e a Cultura original. A aristocrática moça da sociedade já tinha adotado o sobrenome de seus incentivadores, o marido Adolfo e o cunhado/ator Mauricio quando, em 1952, dava na Radio Clube do Recife, os últimos passos para deixar o amadorismo.

Contratada profissionalmente pela rádio Nacional de São Paulo no ano seguinte e pela rádio Record em 1954, Inezita Barroso atuou na TV Record, canal 7, em seu programa semanal exclusivo dedicado à musica regional e ao folclore. Nessa fase gravou seus primeiros discos em 78 rotações incluindo dois clássicos, “Moda da Pinga” de Zica Bergami e “Ronda” de Paulo Vanzolini na RCA Victor além de um terceiro, “Lampião de Gás” na Copacabana, onde atuou de 1955 a 1983.

Em toda a carreira gravou cerca de 65 LPs com modinhas, toadas, modas de viola, rasqueados, cateretês, sambas de roda, gêneros de toda origem pinçados onde pisasse, respeitando sempre a legitimidade do autêntico. Somou uma incomparável antologia da canção brasileira urbana e regional destacando a música caipira que defendeu com a bravura dos que sabem a verdade.

Inezita Barroso tinha um foco diferente de qualquer outra cantora brasileira, era uma estudiosa da musica folclórica, dava aulas de violão, lecionava em conservatórios e viajava pelo Brasil de norte a sul realizando pesquisas sobre a música local. Conheceu profundamente o folclore brasileiro que incorporou a seu repertório sui generis e, viajando pelo exterior, proferiu dezenas de palestras sobre a cultura sul­americana, ao mesmo tempo em que embelezava um palco. Soltava com gosto um vozeirão dominador não regateando pedidos.

A voz de Inezita Barroso tremulou por anos e anos na música popular brasileira. Sua bandeira foi de uma fidelidade absoluta à verdade em que acreditou desde menina. Sua voz alegre e incisiva, seu violão ponteado são agora um legado em gravações, a preciosa herança de uma artista de primeira magnitude na área em que rigorosamente não existiu ninguém para lhe fazer sombra nem
companhia.

A mais expressiva vitória da carreira de Inezita Barroso se deu no programa “Viola, Minha Viola” da TV Cultura. Não tinha para ninguém, desde 1980 atravessou os anos como se nunca mais fosse acabar. Em sua incomparável vida artística Inezita Barroso abraçou e preservou o que seu coração mandou, a música de raiz.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 9 de março de 2015 10:52

    PS – Zuza escreveu bem sobre Inezita, poderia ter destacado mais seu trajeto como atrizde teatro e cinema. Basta lembrar que ela foi dirigida por Alberto Cavalcanti em “É proibido beijar”!

  2. Marcos Silva 9 de março de 2015 10:17

    Fiquei muito triste com a morte de Inezita. Tive a honra de participar de duas apresentações em seu programa da TV Cultura, com o Grupo Ô de Casa. Antes, quando organizei o “Dicionário crítico Câmara Cascudo” (Ed. Perspectiva, 2003, reimpressão em 2006), convidei-a para escrever um verbete – Inezita foi Professora de Folclore em cursos universitários. Ela foi muito gentil, elogiou Cascudo mas preferiu não escrever, alegando razões de saúde. Inezita é figura ímpar na música e na tv brasileira. Apesar dos limites da TV Cultura, louve-se a grandeza de manter o importante “Viola minha viola” no ar durante décadas, inclusive reconhecendo sua grande significação em diferentes ocasiões.

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