Um dia, Maria-Fumaça

Nasci em Resplendor, às margens do rio Doce, em Minas Gerais. Essa região foi habitada pelos índios Aimorés, também conhecidos como os povos Krenak. Hoje, restam somente uns 600 deles. Lamentável.

Meu pai era meio cigano e seguia o curso do rio e da estrada de ferro. Depois de morar em  várias cidades, São Geraldo, Tumiritinga, chegamos a Governador Valadares. Ali tem uma montanha que se chama Ibituruna. No sopé dela, corre o mesmo rio Doce. Foi onde aprendi a nadar. Mas, gostoso mesmo, além de nadar, era colher as bagas aveludadas do ingá, bem docinhas, e chupá-las devagar enquanto espiava o deslizar dos caíques e das canoas que tiravam areia do rio. E me lembro que esta cidade um dia foi Porto das Canoas. E depois, Figueira do Rio Doce. Hoje, penso que a cidade governa a dor de ter perdido muita poesia com a troca de nomes. Que me perdoe o senhor governador Benedito Valadares.

Minas Gerais não tem mar. Mas tem um rio que corre na sua direção. Além de rio, minha cidade tem estradas de ferro. Aprendi a contar, apontando os vagões de minério de ferro que passavam bem à vista do nosso quintal. Esse trem de ferro também corre para o mar, aliás, para o porto que serve para mandar o nosso minério para fora do país. Eu sei disso porque perguntei um dia para o meu pai:

Para onde vão todos esses vagões?

E meu pai respondeu:

Vão para Vitória, no Espírito Santo. Depois, para o estrangeiro.

Eu pensava que o estrangeiro era um homem que comprava os minérios. Mas meu pai me explicou que o estrangeiro era um país que ficava bem longe. E aquele minério todo seria transportado dentro de navios.

Eu nunca tinha visto um navio, a não ser em fotografias e desenhos. E pensei comigo:

Um dia eu também vou para esse tal de estrangeiro. Quero conhecer essa imensidão de mundo.”

Quando foi à noite, depois de tomar uma caneca de leite quente ferrado com açúcar e canela, que meu pai preparava, acompanhado de torradinhas com melado de cana, fui para a cama e me cobri a pensar nos vagões de trem de ferro passando, mais de trezentos, puxados por uma locomotiva movida a óleo diesel. Aliás, duas. Sei que eram a diesel porque perguntei ao meu irmão mais velho que me explicou sobre esses avanços de uma tal tecnologia.

E fiquei a me lembrar que achava mais bonito quando os vagões eram puxados pela Maria-Fumaça, que usa lenha para fazer funcionar as caldeiras.

Às vezes, ia para a estação só para ficar vendo a chegada e a saída dos trens puxados pelas fascinantes Marias-Fumaça. Achava bonito o movimento ritmado daqueles braços de ferro que iam para frente e para trás. Em cima, saíam enormes esguichos de vapores e muita fumaça se desprendia. E as rodas de ferro guinchavam sobre os trilhos, num barulho ritmado de “café com pão, com pão”. Na escola, eu tinha lido um poema assim, do Manuel Bandeira.  A Maria-Fumaça parecia também um cavalo de ferro.

Ah, eu tinha vontade de ser maquinista. Mas só se fosse de Maria-Fumaça, que aquelas máquinas mais modernas eram bem sem graça. No fundo, eu era apaixonado pela tal Maria-Fumaça.

Demorei-me para dormir porque estava pensando em todas essas coisas. Finalmente, meus olhos se fecharam. E sonhei que estava numa canoa que descia o rio Doce em direção ao mar. Queria muito conhecer o tal de Oceano Atlântico que a gente estudava nas aulas de geografia. Pois ali no sonho eu estava viajando para lá. Só que de repente, ao lado do rio, vi um enorme comboio de vagões puxados por uma Maria-Fumaça. E queria estar lá. Mas não em um vagão qualquer. Queria me sentar bem à frente de tudo. E foi o que aconteceu. Eu já não estava mais na canoa. Eu era o maquinista do trem. Puxei uma cordinha e a Maria-Fumaça apitou bem alto. Parecia um grito, um lamento que se perdia na noite. E a máquina resfolegava. E pedia mais lenha na caldeira. E eu, suado, ia escolhendo umas toras de madeira e jogando para serem queimadas. Eu estava com muito calor. Mas minha alegria era imensa. Afinal, dentro do sonho, eu realizava o de ser maquinista.

Então acordei bem suado, pois eu estava com dois cobertores.

Pela manhã, quando contei o sonho ao meu irmão, ele me disse que um tio nosso, que trabalhava na Vale do Rio Doce, podia me levar de trem de ferro até Vitória, no Espírito Santo.

Fiquei radiante com aquela notícia, principalmente quando ele me falou que a tal viagem poderia acontecer nas próximas férias.

A partir daquele dia, além de ficar da janela do meu quarto a contar vagões de minério de ferro, passei também a olhar para a folhinha que ficava na sala, ao lado de um quadro dos “Dois caminhos”, uma estradinha estreita que tinha um leão na entrada; e uma estrada larga, portões escancarados, com boate, cinema… Claro que uma conduzia ao céu; a outra, ao inferno. Dava arrepios de olhar aquele quadro. Agora, eu contava também os dias para viajar com meu tio e ir conhecer o tal  mar que diziam que tinha água salgada. Se o “meu” rio Doce chega até esse mar eu também poderia. E veria um navio bem de perto, desses que vão para o estrangeiro. E pensei que um sonho puxa outro.

“Um dia vou correr mundo. E sair, vida afora, feito uma Maria-Fumaça, a apitar alegrias em cada curva da estrada. E, depois, viajo para o estrangeiro.”

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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