Inferno, purgatório, céu

Por José Carlos Avellar
BLOG DO IMS

Cannes. O filme que o júri do festival escolheu para a Palma de Ouro, Dheepan, de Jacques Audiard, entre um prólogo (a guerra civil em Sri Lanka) e um epílogo (a família à salvo na Inglaterra) conta uma história de violência em torno de traficantes de droga. É um filme dividido em três partes, como se primeira fosse o inferno, a segunda e mais longa o purgatório e a terceira o paraíso. No prólogo, algo como a expulsão do inferno: combatente na guerra civil em Sri Lanka, Dheepan abandona as armas. Para conseguir asilo político na França, simula uma família com uma mulher, Yalini, e uma menina, Illayal, como se fossem sua esposa e filha. Uma vez em território francês, os três são enviados para um conjunto residencial controlado pelo comércio de drogas na periferia de uma grande cidade. E enquanto esperam documentos e a legalização do asilo, vivem como se fossem mesmo uma família. Dheepan trabalha como zelador, Yalini como empregada doméstica, a menina vai para escola estudar francês.

O prólogo em Sri Lanka é filmado como se fosse um noticiário de televisão: a câmera, no meio dos acontecimentos, interessada em marcar o rosto sofrido dos personagens, registra ligeiras anotações de um fim de batalha, da muita gente à espera de asilo num país europeu e do embarque para a França. O epílogo na Inglaterra é filmado quase como um anúncio de televisão: o colorido claro e suave aparece mais que os personagens e a câmera está distante o suficiente para narrar toda a ação num único plano. Na parte central, no filme propriamente dito, nem a aparência rude do prólogo nem a aparência e absoluta tranquilidade do epílogo – mas um estado de tensão permanente, pois, sem se afastar de Dheepan, Yalini e Illayal, a câmera vê de longe, como quem espia às escondidas por uma fresta da janela, o que se passa do outro lado da rua: o movimento noturno do comércio de drogas ou o conflito entre os traficantes.

No centro da imagem, o processo de adaptação dos migrantes ao mundo francês: a menina tem medo de ficar sozinha na escola; a mulher não sabe como trabalhar na casa de um velho senhor que não fala e mal consegue se mover – quer ir embora para a Inglaterra. Dheepan aprende que seu trabalho de zelador deve ser feito entre as sete e onze da manhã, período em que os negócios são interrompidos. A violência dos traficantes permanece como um pano de fundo para os migrantes que, ingênuos, traçam uma linha branca em torno do prédio em que vivem para demarcar uma área desmilitarizada, livre do conflito armado entre os diferentes grupos de traficantes.

O drama tem seu ponto culminante no instante em que a guerra do outro lado da rua salta para dentro do espaço de Dheepan e ele é obrigado a agir como quando era soldado em Sri Lanka e, com coquetéis molotov e uma pistola arrancada das mãos de um traficante, entrar na guerra para proteger Yalini e Illayal. Mas aqui o que importa não é propriamente a ação, descrita nuns poucos planos em que o herói corre, dispara, salta e, como em qualquer filme de ação, derrota sozinho os traficantes. Em lugar de narrar uma história, Audiard compõe um painel da violência em torno da droga nos conjuntos residenciais das periferias da grande cidade. Os migrantes seriam, então, uma quase projeção do ponto de vista de onde os franceses vêem a guerra em torno do consumo e dos negócios da droga.

Cannes, este ano, foi um festival especialmente francês. Cinco produções francesas entre os 19 títulos na competição (Meu rei, A lei do mercado, Margherite e Julien, O vale do amor e Dheepan) e também um filme para a cerimônia de abertura (Cabeça erguida) e outro para o encerramento (O gelo e o céu – La glace et le ciel de Luc Jacquet). O júri (presidido pelos irmão Joel e Ethan Coen, Palma de Ouro no festival de 1991 com Barton Fink), além da Palma para Jacques Audiard, premiou Vincent Lindon, pela autuação em A lei do mercado (La Loi du marché de Stéphane Brizé), e Emmanuelle Bercot (diretora da filme de abertura) pela atuação em Meu rei (Mon Roi, de Maïween), compartido com Rooney Mara por Carol (de Todd Haynes).

Os outros prêmios foram: Grande Prêmio para O filho de Saul (Saul Fia, de László Nemes); prêmio de direção para Hou Hsiao-Hsien, por Assassino (Nie Ynniang); Prêmio especial do júri para A lagosta (The Lobster de Yorgos Lanthimos); prêmio de roteiro para Crônica (Chronic, de Michel Franco). A Palma de Ouro de curta-metragem foi para a animação libanesa Waves’98 de Ely Dagher. A Câmera de Ouro foi para o filme colombiano A terra e a sombra (La tierra y la sombra, de César Augusto Acevedo).

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