Há fogo sob a terra

Na década da ressaca, o mundo reorganizava os seus passos sobre os ossos da Segunda Guerra Mundial. No mesmo período, a poeta Ingeborg Bachmann publicou em 1953 no livro “Die gestundete Zeit” seu célebre poema homônimo “O tempo adiado”, onde anunciava: “Vem aí dias piores / O tempo adiado até a nova ordem / surge no horizonte / Em breve deves amarrar os sapatos / e espantar os cães para os charcos” (Poema Tempo adiado). Meio século depois, vivemos tempos incertos onde ao tentarmos imaginar futuros possíveis, não é mais possível sentir com alguma certeza a terra onde pisam nossos pés.

A metáfora ensejada pelo poema de Bachmann está longe de indicar espera, como talvez pudéssemos aferir em uma leitura ágil do título a uma ideia de retorno daquilo que terás sido, muito pelo contrário. Ela alerta sobre os dias vindouros, onde as palavras serão cortadas, o silêncio ordenado e a morte banalizada. No curso das décadas seguintes aos anos 1950, vivenciamos sangrentas ditaduras latino-americanas, pesadelos autoritários como o salazarismo que parecia interminável, a destruição de uma dignidade básica do trabalho promovida pelo tratcherismo, dentre outros exemplos da barbárie capitalista.

Leia o artigo “Os olhos comovem mundos”, de Felipe Nunes

Antologia poética da também dramaturga e escritora ganhou edição brasileira; poemas refletem o tom sombrio de quem viu a invasão nazista, atento às vulgaridades da linguagem do Reich e a depressão coletiva com a terra arrasada.

A pandemia da Covid-19 é a guerra do século XXI. Tem como fiadora das milhares de mortes pelo mundo a ganância capitalista que coloca o lucro em primazia a vida e impede uma vacinação universal entre todos os povos. Cientes de que a luta pela vida repousa na capacidade de inquietude, diversos povos se mobilizam contra a máquina capitalista, que por sua vez não descansou um segundo sequer durante a pandemia, e continuou a baforejar o seu hálito de morte sobre as terras yanomamis, as paredes das famílias palestinas, os morros do jacarezinho, as calles de Bogotá e demais rincões de resistência. Todavia, nossa insubmissão secular segue pulsante e sinaliza “Há fogo sob a terra / e é líquida a pedra dura” (Poema Canções de uma ilha).

Seguimos dispostas a escrever na madeira “enquanto ainda está verde, e com bílis / enquanto ainda está amarga, sigo / disposta a escrever o que era no início! / Tratem de ficar acordados!” (Poema Madeiras e lascas). Somente o fogo é capaz de subverter de forma brusca a realidade intragável dos dias que seguem, como aponto o filósofo Gaston Bachelard “Se tudo que muda lentamente se explica pela vida, tudo que muda velozmente se explica pelo fogo” (Psicanálise do fogo, Gaston Bachelard.)

Ingeborg Bachmann, uma das maiores poetas de língua alemã, deixou uma obra brilhante e recentemente vem sendo explorada pelo público brasileiro, contemplado por uma belíssima publicação de “O tempo adiado e outros poemas” organizado primorosamente por Claudia Cavalcanti e editado pela Todavia Livros.

Felipe Nunes é cantautor, poeta, historiador e antropólogo. Doutorando em Antropologia Social pela UFRN; suas pesquisas estão relacionadas a tradição, religiões afroameríndias e manifestações culturais na contemporaneidade. Instagram: @umfelipenunes [ Ver todos os artigos ]

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