Ingênuo

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Toda vez que eu vejo sessões do Supremo Tribunal Federal pela televisão me chamam a atenção as duas cadeiras vazias, separadas por uma mesa retangular, que ficam frente a frente, no centro do cenário. As pompas e as circunstâncias, os agravos e agravantes, se desenrolam em volta, no balcão em forma de U ao longo do qual se dispõem ou se indispõem os juízes. O manto preto e vincado sobre os ombros de cada um significa que fala o sujeito transcendental, colocado no lugar impessoal da Lei. A presidência, e os membros dispostos em duas alas, figuram como que a cabeça e os braços da Justiça. Não há como negar que o rito não se instaura, e não funcionaria, se não desenhasse também a alegoria espacial de si mesmo, sua mitologia e seu teatro. E por isso mesmo é que me intrigam as duas cadeiras geralmente vazias, que estão ali, no coração da cena.

Pelo que consegui saber, e se não estou enganado, elas servem ora a promotores ora a advogados para a sustentação verbal da sua posição, acompanhados de seus assistentes. Mas isso eu nunca vi, nem satisfaz o simbolismo mudo que eu insisto em ver nos dois assentos confrontados, no tête-à-tête que sua disposição sugere, na acareação não realizada que sua geometria assinala. Recorro a um exemplo comparativo: na África do Sul pós-apartheid os torturadores tiveram que vir a público e dizer o que fizeram, perante seus torturados. Nessa espécie de psicodrama político, era como se a violência real cometida fosse condenada a converter-se em expressão simbólica, em virar linguagem, em admitir com isso uma sociedade que não admite a tortura. A cara limpa de Mandela foi certamente o crédito que tornou possível essa passagem. E é esse rito civilizador que a sociedade brasileira não fez, com o aval do Supremo e suas duas cadeiras mudas no centro da cena.

Acho relevante encarar o teatro da Justiça, e a Justiça como teatro, quando ela ganhou uma importância de novela no país da novela. Refiro-me, é claro, à novela do chamado mensalão, cujos capítulos continuam, em nova fase. Disse um poeta que, se a vida pública é um teatro, então que o seja de melhor qualidade. Uma das verdades ocultas do mensalão, e evidente se todos não contribuíssem para escondê-la, é a reforma política que ninguém faz. Sobre ela PT e PSDB teriam muito a falar, se tomassem assento nas duas cadeiras vazias do Supremo, num inédito olhos-nos-olhos. Antes de ser um crime, a decisão que o PT pôs em prática foi um tremendo erro político, que o deixou à mercê da escória partidária. O julgamento, a condenação, a prisão e seus imbróglios atenuadores fazem parte de uma cena nova na vida política e jurídica brasileira, com seu habitual desfile de impunidades, que no entanto continuam.

Renato Janine Ribeiro disse em “O Estado de S. Paulo” que, para José Dirceu, a prisão soa como uma adversidade temporária na luta pelo poder, que continua. Não é inverossímil que ele a sinta, apesar de tudo, como o episódio de um épico. Para José Genoino, cai como um golpe agônico em quem, independente da culpa pela qual foi condenado, veio sinceramente da guerrilha para o jogo contraditório de uma democracia mais que imperfeita. Por mais que ele pudesse querê-la épica, sua prisão soa trágica, e gritante, diante da desfaçatez coroada.

Não pretendo santificá-lo. Quero apenas dizer que é difícil deixar de sentir nele o grão da integridade resistente. Vou fazer um jogo de palavras, e de letras, porque diz algo sobre isso. Genoino é e permanece genuíno. Genuíno é um anagrama de ingênuo. Ingênuo ninguém é, a essa altura da vida, ou, se é, não deveria ser. A não ser que se considere o sentido mais profundo e originário dessa palavra: sincero, honesto, probo, franco, leal. É a esse Genoino que eu mando aqui o meu abraço assinado.

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O acidente acontece aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo da construção do Itaquerão. Desta vez, por mais uma ironia dolorosa, na ponta tecnologicamente mais avançada do processo, se olharmos o orgulhoso site da Odebrecht, que gabava a instalação do maior módulo da estrutura, pesando 420 toneladas, içado a uma altura de 40 metros por um guindaste capaz de suportar 1.550 toneladas, num trabalho de 72 horas feito por uma equipe de 65 homens. Juca Kfouri observa que já haviam morrido dois outros trabalhadores, na construção dos estádios de Manaus e de Brasília, além desses dois que “estavam no lugar errado” e que morreram em São Paulo enquanto descansavam depois do almoço. A uma semana do sorteio da Copa, impossível não ler esse episódio também como uma alegoria. Não consta que fatos assim tenham ocorrido no Japão, na Coreia ou na África do Sul.

Viva Nilton Santos.

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