O início vertiginoso de uma voz polêmica

Foto: Josias Teófilo/Divulgação

Por  Nathallia Fonseca
Folha de Pernambuco

Cesárea relança “Cabeça no fundo do entulho”. Livro do autor pernambucano, relançado originalmente em 1999. é o segundo publicado em versão digital pela editora

Aclamado pela crítica e vencedor do Prêmio Bravo! de Literatura em 1999, o segundo romance do escritor e cineasta recifense Fernando Monteiro, “Cabeça no fundo do entulho”, ganha versão inédita em e-book a partir de hoje, lançada pela editora digital Cesárea. A publicação é a segunda parceria do autor com a Cesárea – ano passado, a editora pernambucana lançou, também em e-book, o primeiro romance de Fernando, “Aspades, Etc, etc”, publicado em Portugal em 1997.

Foi com “Aspades” que Fernando Monteiro se consolidou na literatura nacional e internacional, chamando a atenção da crítica pelo pioneirismo em alguns aspectos da linguagem da literatura contemporânea. O autor, que já lançou romances, poesias, contos e uma obra infanto-juvenil – escrita em 2008 -, tem, no entanto, carinho especial por “Cabeça no fundo do entulho”, livro que ocupa mais espaço afetivo na vida do autor.

O livro apresenta uma narrativa vertiginosa, que passa por uma Roma carregada por clichês de espionagem, pela visita do Prêmio Nobel Camilo Cela por uma Recife vagamente familiar, dos anos 1980, e por alguns dos principais fatos históricos do fim do século 20.

“É um livro que eu gosto muito, principalmente, porque quando ele veio eu já tinha experiência com ‘Aspades’. Pude corrigir algumas coisas, aprofundar o que acreditei que deveria ser aprofundado, e o resultado me agradou muito mais”, comenta Monteiro, que também faz questão de destacar o prêmio Bravo! de Literatura como um marco importante da sua carreira. “Tenho uma profunda admiração pela Bravo!. Não sei se um dia teremos uma revista que se assemelhe em qualidade e integridade. Receber um prêmio deles representou muito pra mim, por ser uma premiação com critérios que eu confio”, afirma, se referindo à revista paulistana encerrada em 2013.

Aos 65 anos, o pernambucano diz acreditar na digitalização dos livros como um caminho natural de transição a ser percorrido pela literatura. “O hábito da leitura, como um todo, sofre uma transição. O e-book oferece facilidades incontestáveis, embora sua aceitação não seja unânime. Ainda é uma experiência, uma transição, mas um processo natural”, explica o autor, que confessa que, enquanto público, não se vê completamente adaptado à leitura digital. “Não vejo como um grande problema, mas eu pertenço a uma outra geração. Tenho amigos que dizem não conseguir de jeito nenhum ler um livro digitalizado. Eu não tenho dificuldades com isso, mas não é a maneira à qual estou mais acostumado”, destaca monteiro.

Independente da plataforma – e até mesmo da linguagem artística -, é a “produção de significação” que, segundo Fernando, prioriza aquilo que ele admira e busca produzir. “É o mais importante a ser feito, em qualquer campo. É sobre o impacto das suas ações e é o que a gente sempre deve buscar. E eu percebo isso no trabalho da Cesárea”, afirma o autor, sobre sua editora digital.

Fernando, que desde 2009 “abandonou” a produção de romances como uma forma de protesto à lógica do atual mercado editorial, a qual condena fortemente, hoje se dedica quase exclusivamente à poesia, no campo da literatura. “Nós, autores, fomos substituídos pelo comando do mercado. É algo que nos reduz, nos limita, e que eu opto por não fazer parte. É um local extremamente desconfortável para mim”, explica Monteiro, comentando o gênero do romance, ao qual o autor se refere como “queridinho da mídia”.

Sobre a poesia, gênero que já escrevia e para onde nos últimos anos retornou, o efeito, para o autor, é inverso. O artista protesta contra a “indiferença dos editores” que, segundo ele, “atinge um grau de burrice”. “Assim como os livros de contos, a poesia sofre uma extrema desvalorização. Ela está num não-lugar e foi colocada lá pelo interesse comercial dos editores, o que eu não entendo. Eu acredito que seja um gênero que ainda tem público, mas ele precisa ser publicado”, comenta Fernando. “Tem gente que acha que eu abandonei a literatura. Não foi isso. Eu abandonei um ambiente da literatura que me deixa desconfortável e com o qual eu não concordo”, completa.

Despedida – O último romance de Fernando Monteiro foi “O livro de Corintha”, lançado em 2013. A obra foi uma das cinco vencedoras da primeira edição do Prêmio Pernambuco de Literatura, em 2013 – conquista que efetivou o lançamento em versão impressa, pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe).

Serviço
“Cabeça no fundo do entulho”, de Fernando Monteiro
Editora Cesárea, R$ 8
www.cesarea.com.br

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo