Injustiças

Por Suzana Herculano-Houzel
FSP

Ver a justiça sendo feita ativa o sistema de recompensa do cérebro, o que nos deixa satisfeitos

O QUE É JUSTO? Uma definição simples é “aquilo que corresponde aos seus valores de certo ou errado”. O senso de justiça, ao se atrelar ao certo/errado, é, portanto moral -e, por isso, muitos esperariam que fosse racional. Mas não é: tanto os julgamentos morais quanto o senso de justiça são altamente emocionais. E é bom que seja assim.

Se fôssemos guiados só pela racionalidade, aceitaríamos qualquer oferta que nos beneficiasse, por mais injusta que fosse (considerando que qualquer dinheiro é melhor do que nenhum), e pouco importaria se ofertas injustas são intencionais ou não.

No entanto, aceitamos deixar de ganhar, ou mesmo perder tempo e dinheiro, para evitar injustiças -o que soa completamente irracional-, e até oferecemos compreensão a quem é obrigado a ser injusto conosco. Com isso, ganha a sociedade, e nós também ganhamos: a longo prazo, nossa rejeição de injustiças contribui para coibir novas ofertas injustas.

O detalhe importante é que a aversão à injustiça é automática e sem esforço. Esta semana, por exemplo, a rádio onde eu era colunista cancelou meu boletim diário, mas queria que eu continuasse participando -de graça!- de um programa de entrevistas de grande audiência. Racionalmente, qualquer participação na rádio deveria ser melhor do que nenhuma participação. Mas meu detector de injustiças, situado na ínsula anterior do meu córtex, falou mais alto: “estão sendo intencionalmente injustos comigo”. Rejeitei a oferta e deixei a rádio. E estou felicíssima com a minha decisão.

Quanto mais a ínsula é sensível a essas violações do que cada um julga socialmente aceitável, maior o grau de aversão de cada pessoa à injustiça (minha ínsula deve viver aos berros). Às vezes, contudo, propostas injustas acabam sendo aceitas.

Nesses casos, o que se encontra no cérebro é uma menor ativação da ínsula (a injustiça é repulsiva, mas suportável) e um aumento da atividade na região pré-frontal que suprime emoções negativas. Ou seja: tolerar tratamentos injustos requer muito controle emocional.

Por outro lado, ver a justiça ser feita leva à ativação do sistema de recompensa do cérebro, o que nos deixa involuntariamente satisfeitos. E assim caminha a humanidade: repudiando injustiças e preferindo a justiça sem precisar pensar muito a respeito. É, há esperanças…


SUZANA HERCULANO-HOUZEL é neurocientista, professora da UFRJ, autora do livro “Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor” (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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