Integração, interação e etnocentrismo: uma relação sutil?

Há alguns anos, estudiosos da imigração iniciaram um debate a favor da utilização da palavra interação em vez de integração. É possível encontrar extensa documentação sobre o assunto, que se tornou popular nos últimos anos e em muitas partes do mundo.

Aqui na Itália, por exemplo, o filósofo Salvatore Natoli, professor de filosofia teórica na Universidade Bicocca de Milão, numa entrevista concedida a Affari italiani, em 2012, disse:

“A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”.

A primeira vez que ouvi a palavra interação social no lugar de integração foi há uns três anos. Fui me apresentar, sem saber o que queria, em uma associação cultural que trabalha com formação linguística mirada aos imigrantes, desde formação para professores a instituições, como para interessados em geral.

Tinha começado a trabalhar no projeto de recolocação internacional (www.peopleinterplay.com) e me deparei com o site da Limo (http://limolinguaggi.eu/), que estava no início e ainda tinha pouca informação.

Marquei um encontro e lá estavam três mulheres que transmitiam simpatia, curiosidade e amor pelo seu trabalho. Iniciei comentando que tinha trabalhado em Barcelona, numa cooperativa social para a promoção da “integração social”, e notei seus sorrisos tímidos, até que uma me interrompeu:

“Não estamos de acordo com o uso da palavra integração, pois, com o nosso trabalho, pretendemos contribuir para um modelo de integração diferente, muitas vezes entendido como a adaptação do cidadão estrangeiro à sociedade de chegada, no sentido unidirecional, para favorecer a interação entendida como enriquecimento recíproco e bidirecional”.

Virei a casaca


Filósofo siciliano Salvatore Natoli (1942-):
“A integração é um conceito arriscado porque também significa assimilação, a interação é, em vez disso, um processo de intercâmbio gradual, mas as condições devem ser criadas para alcançá-lo”.

Sabe quando acreditamos numa ideia e nos damos de cara com outra que achamos bem mais interessante?! Pois foi exatamente o que aconteceu comigo, e como a minha paixão por aprender é bem maior do que meu orgulho, e amo quando alguém me faz pensar “fora da caixinha”, virei a casaca mesmo.

Trabalhei anos com pessoas com problemas de inclusão social e laboral, como voluntária para a ‘integração’ de imigrantes na Catalunha, e nunca tinha pensado na etimologia dessa palavra tão utilizada.

Naquele instante, enquanto a escutava, também tinha um sorriso tímido, agradeci a explicação e expressei meu estupor por nunca ter pensado nisso.

Elas sorriram e os sorrisos transmitiam satisfação. Imagino que por ter ensinado a mais uma pessoa uma diferença aparentemente trivial, presente diariamente nas nossas vidas e tão significante.

A partir daquele momento, comecei a estudar tudo o que é inerente às duas palavras, com a intenção de responder uma pergunta: por que utilizamos integração no lugar de interação?

Se analisarmos a etimologia da palavra integração, essa deriva do latim “integrare – tornar inteiro, fazer um só, que vem de interger – inteiro, completo, correto”.

Por integração social, segundo o dicionário Aurélio, entendemos como a “adaptação, incorporação de um individuo ou grupo externo numa comunidade, num meio.”

Agora, analisemos a etimologia da palavra interação: deriva do latim “inter – entre e ação do latim agere – realizar, fazer”.

Segundo o dicionário Aurélio, é a “1. Influência recíproca de dois ou mais elementos; 2. Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir-se em grupo, e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para outro.”

Sem ir muito longe, logo percebemos como a palavra integração utilizada dentro de um discurso de inclusão sociocultural não é a mais adequada, pois, afinal de contas, podemos falar que uma pessoa que chega numa nova realidade é incompleta? Está pela metade? É incorreta? Ou seria mais apropriado falar de uma interação recíproca entre duas ou mais pessoas?

Onde se dá e se recebe, sem nenhuma das partes se sentir mais “completa” que a outra, mesmo que a intenção seja ajudar, se consideramos a etimologia e significado das duas palavras, podemos ter certeza que não somos condicionados a nos sentir superiores ao que consideramos diverso?

E aqui a ligação com o etnocentrismo…

Reprodução do quadro “Compêndio de crônicas”, de Rashid al-Din

Minha cultura é o centro, a mais importante…

A palavra etnocentrismo deriva do grego “éthnos – raça, povo, centro + ismo – ideologia” De acordo com o dicionário Aurélio, etnocentrismo é “Visão ou forma de pensamento de quem crê na supremacia do seu grupo étnico ou da sua nacionalidade.”

Dando uma explicação simples, uma pessoa etnocêntrica é aquela que considera que a sua cultura é o centro, ou seja, mais importante, a que dita as regras.

Será que estamos todos imunes ao etnocentrismo? Sinceramente, eu acredito que o sentimento que provoca o termo pode ser comparado ao sentimento provocado pela palavra racismo: é difícil encontrar alguém que se reconheça como racista, mas infelizmente não podemos negar que ele é bem mais presente do que o que queremos aceitar.

A palavra etnocentrismo provoca uma reação parecida (além da relação profunda com o próprio racismo) – quem admite se sentir superior ao próximo?

Porém, quantas vezes escutamos alguém, ou nós mesmos, falar: “Minha cultura é superior, aquela cultura não é boa, são culturalmente atrasados, minha cultura é melhor, não confio nos nordestinos, carioca é malandro…?”

Bingo: aqui o etnocentrismo que praticamos diariamente, com a maior tranquilidade, porque crescemos condicionados pelo ambiente, e a tendência humana é de se sentir superior, inclusive é um modo do nosso cérebro proteger nossa identidade.

Alguém incompleto

Agora que fizemos uma análise do significado de integração, interação e etnocentrismo, proponho uma reflexão:

Quando um estrangeiro chega a um país, a maioria das políticas utilizadas em prol da inclusão social se baseia na palavra integração. (In)conscientemente, o país que acolhe considera o recém-chegado como alguém incompleto, como alguém que precisa ser corrigido, é uma ação unidirecional. E o fazem com a melhor das intenções, com a ideia de que está ajudando.

– Eu ajudo os imigrantes a se integrarem (que vergonha sinto de mim mesma, falei isso por anos!)

– Faço voluntariado para incentivar a integração social das classes menos favorecidas.

– Trabalho com integração social de pessoas diversamente hábeis…

Afirmações aparentemente inócuas, que escondem como somos condicionados a nos sentirmos superiores aos demais, ao que consideramos diverso, e o pior, achando que estamos contribuindo para melhorar uma situação.

E se considerássemos todxs como iguais, cada um com sua bagagem cultural, com suas experiências, com suas ideias, e no lugar de utilizar a palavra integração, utilizássemos interação? A relação não seria mais équa?

Sempre na linha de dar e receber, de respeitar uns aos outros. Tentar conhecer o diverso, encontrar os pontos de união e interagir, encontrar as diferenças e respeitar. Cada umx se sentindo completx, e se multiplicando na interação com x outrx.

Poderia ser o início para começar a neutralizar o etnocentrismo presente na nossa consciência coletiva, quem sabe, inclusive, um modo de começar a neutralizar o racismo, até que um dia ele desapareça, com o mesmo conceito de raça, para falarmos de seres humanos, está começando a desaparecer.

Tuaregs e tebus em meio ao colapso líbio, em 2014; milhares cruzaram e morreram o Mediterrâneo para fugir das atrocidades do regime Gaddafi

Com sentimento de dívida, dependência e inferioridade

O equilíbrio da comunicação é: eu dou e recebo, você dá e recebe. Dessa forma, não há ninguém que se sinta superior. A política social atual é fantasiada de “bonismo”, porque nesse contexto na verdade quem ajuda está incentivando uma dependência, a sensação de desconforto da pessoa que ‘precisa’ da ajuda, sem contar que inconscientemente quem ajuda se sente superior, tocando aquela linha sutil entre altruísmo e egoísmo (tema para outra pauta).

Em longo prazo, a ajuda sai pela culatra, o ajudado se sente em dívida, dependente e inferior, e incapaz de se ver como igual, falindo no objetivo final, que a pessoa se sinta parte da sociedade, se adapte, se sinta em casa.

Adotando uma política que visa a interação, consideramos que a ajuda é mútua, evitando esse dinamismo ao qual estamos tão acostumados, facilitando um intercâmbio gradual. 

Precisamos desconstruir significados usados há muito tempo, usar as palavras certas, humanizar todos os seres humanos, reconhecer que podemos aprender uns com os outros, olhar-nos como o que somos: iguais e cada um com suas diferenças.

Escritora, psicóloga e antropóloga [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP