Intelectuais do pior tipo

Por Umberto Eco
New York Times/UOL

No início de março, o respeitado jornal diário italiano “Corriere della Sera” publicou um artigo do colunista Ernesto Galli della Loggia (que pode ser tudo menos um perigoso comunista) que criticava o Partito della Liberte (PDL), o partido governista da Itália. Logo após a publicação do artigo, Sandro Bondi, Ignazio Russa e Denis Verdini – todos coordenadores do PDL – escreveram uma carta conjunta ao mesmo jornal manifestando o seu desacordo. Não discutirei o fato em si; colunistas têm liberdade para criticar partidos políticos e políticos têm o direito de retrucar tais críticas. O que me interessa é a escolha das palavras utilizadas pelos representantes do PDL.

Eles escreveram: “Existem críticas… tais como aquelas feitas no artigo principal de ontem do ‘Corriere’ que infelizmente emergem estéreis porque elas não são originárias de uma reflexão honesta sobre a realidade, mas sim do pensamento auto-referenciado, conforme costumam dizer os intelectuais”. Em outras partes da carta, os autores também deixaram claro que as críticas de Loggia foram típicas de um “intelectual”. Bondi, La Russa e Verdini escreveram que quem faz esse tipo de crítica se comporta “como se fatos não existissem, e vive, como ele, em um meio praticamente estéril, tendo como única companhia os seus livros favoritos e as suas reflexões altamente pessoais”.

Se por intelectual nós estivermos nos referindo a alguém que trabalha com a mente, e não com as mãos, então intelectuais não são apenas filósofos e jornalistas, mas também banqueiros, agentes de seguro e, sem dúvida, políticos como Bondi (que escreve poesias, entre outras coisas). E os seus colegas La Russa e Verdini também não ganham a vida cultivando a terra. E se um intelectual é um pessoa que não só trabalha com a mente, mas também a usa para desempenhar atividades críticas (independentemente do que ela critica e de que forma), então, seguramente os três signatários da carta deveriam considerar-se intelectuais.

O fato é que a palavra possui conotações históricas. A moderna percepção negativa do intelectual público surgiu durante o infame caso Dreyfus – a controvérsia que tomou conta da França na década de 1890, quando o capitão Alfred Dreyfus, um judeu francês, foi erradamente acusado de traição. Diversos escritores, artistas e cientistas, incluindo Marcel Proust, Anatole France, Georges Sorel, Claude Monet, Emile Durkheim e Jules Renard – para não mencionar Emile Zola, que escreveu um fatalmente efetivo manifesto chamado “J’Acuse”, proclamando a inocência de Dreyfus – disseram estar convencidos de que Dreyfus fora vítima de uma conspiração em grande parte anti-semita e pediram que o julgamento fosse revisto.

O futuro primeiro-ministro francês George Clemenceau definiu aqueles homens como intelectuais, mas a definição foi instantaneamente utilizada de forma derrogatória por reacionários como Maurice Barres e Ferdinand Brunetiere. Esses homens usaram o termo para indicar pessoas que, em vez de se preocuparem com poesia, ciências ou outras especialidades (em suma, em vez de se preocuparem com a própria vida), meteram o nariz em questões na qual eles não tinham especial competência, tais como espionagem internacional e justiça militar.

Para os inimigos de Dreyfus, portanto, o intelectual era um indivíduo que vivia em meio a livros e abstrações – uma pessoa que não tinha contato com a realidade concreta –, e que deveria ficar calado. Esse uso pejorativo do termo aparece frequentemente nas polêmicas do período. O termo é usado de maneira surpreendentemente similar na carta de Bondi, La Russa e Verdini.

Mas eu não assumiria claramente que os três signatários da carta, embora certamente intelectuais (tanto que eles exibem o seu conhecimento do termo “auto-referenciado”), conhecessem as controvérsias de 110 anos atrás. Em vez disso, eu simplesmente acredito que Bondi e seus companheiros possuem uma memória genética de velhos hábitos polêmicos – incluindo rotular de intelectual sujo todo indivíduo que tiver ideias diferentes das deles.

Isso me faz lembrar de um prelado desafortunado, Salvatore Pappalardo, que, como arcebispo de Palermo, em 1992, referiu-se à Máfia como a “sinagoga de Satã”, o que ofendeu enormemente a comunidade judaica da Itália. O clérigo desculpou-se, afirmando que usara a palavra “no sentido antigo, como local de reunião”. Mas o sentido pejorativo da expressão permaneceu – o mesmo sentido que estimulou o seu uso nas polêmicas anti-semitas que surgiram à época do caso Dreyfus. No fim das contas, a questão é determinar se uma expressão traz atrás de si o odor das suas vergonhosas origens, desta forma maculando o seu uso até mesmo nos sermões mais bem intencionados.

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