Inventando a cidade

Por Woden Madruga
TRIBUNA DO NORTE

Aqui e acolá puxo conversa com Carlos Peixoto, nosso diretor de redação, sobre livros – ele é um ledor voraz e de bom gosto – e intercalo nesses papos de começo da noite, enquanto a redação permanece agitada no outro lado do aquário, umas pitadas sobre o jornalismo da província. Ando metido em redação de jornal há 68 anos. Esta coluna, por exemplo, já completou 47. Sou do tempo em que repórter andava a pé pela cidade catando notícias. Lápis e papel na mão. Fico chateando Peixoto por conta da maneira como os nossos jornais (incluo rádio e televisão) vão inventando uma nova Cidade de Natal, invertendo nomes dos lugares públicos, bairros, ruas, praças, passando o trator do desprezo pela sua história, seu passado e suas tradições, seus filhos ilustres. Vão criando uma cidade falsificada.

De repente os bairros de Petrópolis e do Tirol passam a ser chamados pelos jornais locais, via colunismo social ou coisa parecida, de “Plano Palumbo”, uma referência ao urbanista italiano Giacomo Palumbo que andou por aqui em 1929. Virou moda besta na mídia. Palumbo não botou um meio-fio sequer nem no Tirol e nem em Petrópolis. Tem nada a ver com os dois bairros que já existiam há mais de 20 anos, traçados por Polidrelli ( outro italiano), em 1904, seguindo o projeto original do intendente Joaquim Manoel Teixeira de Moura, bolado em 1901. Surgia a Cidade Nova. Era o governo de Alberto Maranhão.

A Praça Pedro Velho, construída nos anos trinta, é chamada de Praça Cívica, apelido imposto pela Ditadura de 1964, quando passou a realizar ali os desfiles militares. Parte da imprensa, infelizmente, aceitou a imposição. Esqueceram da velha e graciosa “Pracinha” que marcou a vida social e esportiva de Natal por mais de quatro décadas e que teve o seu tempo áureo entre os anos 40 e 50. Esquecem o nome de Pedro Velho, o principal líder do movimento republicano no Rio Grande do Norte, o primeiro governador do Estado no novo regime. Foi ainda deputado e senador. Médico, professor, jornalista (o fundador do jornal A República). Seus coleguinhas de hoje, infelizmente, desconhecem sua rica biografia.

Aproveito para sugerir aos coleguinhas a leitura de “Vida de Pedro Velho”, biografia escrita por Luís da Câmara Cascudo, reeditado recentemente pela UFRN. Digo mais: é preciso ler Cascudo. Sua História da Cidade do Natal, sua História do Rio Grande do Norte, suas “Actas Diurnas” reunidas em 10 volumes com o título de O Livro das Grandes Figuras, publicados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, seus livros de memórias. Ler o que puder ler de Cascudo. Ler Cascudo, além de um rico aprendizado, é um deleite. Seja História, seja Etnografia, seja Antropologia, seja Sociologia, seja Crônica, seja Criítica Literária, seja Música, seja Folclore, seja Jornalismo. Sim, porque o Mestre foi repórter, começou a escrever em jornal. Cascudo, cara, foi nosso colega. Estufe o peito! Vamos lê-lo para se aprender as coisas, ficar sabendo das coisas, ficar sabendo da História da nossa cidade e da sua gente, que somos nós.

O bairro da Ribeira tem sofrido muito nas mãos de vários prefeitos e dos repórteres. A Praça Augusto Severo, coitada, tem levado porradas. Ultimamente os jornais tratam-na como “Largo da Ribeira”, “Largo do Teatro”, “Largo Dom Bosco”. Uma ignorância e um desrespeito àquilo que foi o mais “o mais belo da Cidade”, no dizer de Lauro Pinto, magistrado e escritor. Está no seu livro Natal que eu vi, de 1971 (Imprensa Universitária) e que o Sebo Vermelho reeditou em 2003 (edição fac-similar). Um desrespeito à memória do seu criador, o grande arquiteto Herculano Ramos, o mesmo que projetou o Teatro Alberto Maranhão e que difundiu a art noveau por estes alagados.

Das flores que não existem

Os jornais, notadamente as colunas sociais (ah, as colunas sociais!) se referem à Praça Aristófanes Fernandes, em Petrópolis, como a Praça das Flores. Ali não cresce um pé de cravo pra defunto. A praça hoje é um mostrengo. A quadra é salva por conta de três ou quatro restaurantes que estão na moda. Teve um deles, o pioneiro, que fechou as portas por conta do peso dos cheques sem fundo de seus frequentadores, a maioria de bacanas, colunáveis, tutti buona gente… Não fosse isso a praça seria apenas mais uma parada de ônibus. Ali, naquele chão que já o chão sagrado, funcionou, por bom tempo, a sede do ABC Futebol Clube. Era os fundos da casa do doutor Vicente Farache. Menino buchudo, comi muita canjica preparada por dona Maria Lamas Farache, noite de São Pedro, para comemorar o aniversário da fundação do clube. Do outro lado, começava o Alto do Juruá, um arremedo de duna.

De três ou quatro anos pra cá, a mídia embalou no noticiário sobre um tal “prolongamento da avenida Prudente de Morais”. Esqueceram de informar que a Prudente, vinda do bairro de Petrópolis (Praça Pedro Velho) segue no rumo do poente e se esbarra na avenida Governador Tarcísio Maia, altos da Candelária. A partir daí o que existe, há anos, é a avenida Omar O’Grady. Que foi prefeito de Natal (governos José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine de Faria) e responsável pela contratação do urbanista Giacomo Palumbo. Mas coleguinhas, certamente desinformados ou influenciados pela moda, não respeitam a memória do engenheiro-prefeito nem o fato da existência de uma rua com o seu nome. A avenida Omar O’Grady, tem quase 3 quilômetros de extensão,é uma avenida bonita, cheia de curvas, descidas e subidas suaves, por conta das dunas que ela atravessa. É nela que está localizado o Parque Dom Nivaldo Monte (O Parque da Cidade) com o belo monumento projetado por Oscar Niemeyer, fechado há dois anos pela atual “administração” municipal.

A avenida Omar O’Grady acaba na avenida dos Xavantes, no bairro de Pitimbu. A partir daí é que começou a se construir o que seria o prolongamento da Omar O’Grady e não da Prudente de Morais, que ficou lá atrás. O mais lamentável nisso tudo é que o próprio poder público, o governo, incorpora o erro da imprensa mal informada. Um dia desses li nota oficial do DNIT, referindo-se à obra como prolongamento da Prudente. Quando me iniciei no jornalismo (1953 do século passado) me ensinaram que Jornalismo era a transmissão da informação com exatidão e rapidez, de forma objetiva e que sirva à verdade. Faz tempo.

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