Ironia amarga nas placas erradas da USP

Por Paulo Moreira Leite
NA ÉPOCA

Havia algo de muito errado na placa da USP onde a ditadura de 64 era chamada de revolução.

A placa já foi retirada mas até porque envolve nossa memória o episódio na pode ser esquecido tão cedo.

Ela continha um erro óbvio, com uma ironia amarga. Deveria anunciar exatamente a construção (por R$ 89 000) de uma escultura em homenagem às vítimas do regime militar.

Como isso pode acontecer? Justamente na USP, onde ocorreram tantas perseguições?

Na USP um número respeitável de professores foi forçado a se aposentar. Um volume muito maior de alunos foi impedido de estudar em função de um decreto que excluía estudantes por razões políticas, o 477. Nos 20 anos de regime militar, serviços de segurança atuavam abertamente para espionar professores, alunos e funcionários e entregá-los aos porões onde eram presos, torturados, mortos.

O mais conhecido destes estudantes, Alexandre Vanucchi Leme, estudava na Geologia, foi executado depois de preso e torturado. Outros ex-alunos se encontram na lista de desaparecidos.

É espantoso como se consegue cometer um erro tão serio num assunto tão delicado mas isso é explicável. Fatos assim acontecem quando a verdade começa a perder-se no tempo. Quando ela deixa de ter uma importancia decisiva na vida dos homens e mulheres e pode ser alterada sem que ninguém se dê conta.

Na vida real, o esforço para transformar um golpe de Estado numa revolução foi ensaiado, pelos militares, desde o dia 1 de abril de 64.

(O primeiro esforço consistiu em mudar a data do golpe, já que 1 de abril é o dia da mentira…)

Incapazes de chegar ao poder pelo voto popular, as forças e interesses que derrubaram um presidente no exerício legal de seu mandato usaram o nome de “revolução” para tentar dar ares de legitimidade a um movimento que assumiu o poder com violência e sem respeito pela democracia.

Após a democratização, o mesmo processo ocorreu — agora no plano das consciencias. Foi para transformar o “golpe” em “revolução” que atuaram todos aqueles que, a partir de então, se dedicaram a um trabalho rigoroso e sistemático para apagar a história da memoria de todos, num esforço que prossegue até hoje, sem intervalos.

O objetivo de reescrever os fatos e modificar seu significado é nivelar o que é diferente, apresentar opostos como iguais, equivalentes. É essencial, para tanto, que nada deve ser esclarecido. Quando isso acontece, as responsabilidades não podem ser definidas. Golpistas e seus adversários devem ser tratados sem distinção.

Faz parte desse trabalho o método da história “politicamente incorreta”, uma falsificação destinada a jogar todos na mesma lama.

A placa errada também é triste. Demonstra que nem na USP, a melhor universidade brasileira, nossa memória histórica está formada nem é preservada como se deve. Ali ocorreram lutas importantes contra o regime militar, que fizeram da USP um local de resistencia em momentos difíceis.

A placa mostra que até lá a memória começa a se apagar

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